“Do olhar que está à luz de uma saudade sempre pode uma lágrima respingar”, eis um verso que me veio à mente quando comecei a escrever, um tempo atrás, algumas reflexões sobre a nostalgia humana. É um tema que me interessa muito, não à toa escrevi um livro chamado “Nostalgia da eternidade”: nostalgia é uma espécie de saudade, e toda saudade me faz lembrar da eternidade, da qual sentimos todos uma vaga nostalgia, uma distante apreensão difusa.
Nostalgia remete, como a outras muitas coisas, ao ato de chorar. Chorar faz reafirmar certas vivências, doces e amargas, tornando-as vivas novamente, no acréscimo da agonia que causa à alma a percepção de um bem que então se lhe apresenta somente qual fátua encenação interior de acontecimentos passados, vistos como imagens distantes “apontantes” para um doloroso vazio vital que jamais será preenchido “novamente”.
Apenas o homem é capaz de sentir falta ou nostalgia até da saudade mesma, e talvez isso se explique pela saudade ser o meio ou ambiente psíquico pelo qual vislumbramos, mais uma vez, o conjunto de nossa vida ao tocar-lhe os fatos individuais. É possível sentir falta até do que outrora era objeto de fastio e aversão; talvez porque enfadar-se seja um ato vital e, por isso, parte inelutável da vida; talvez porque sintamos falta de viver ainda que, no atual instante, estejamos vivendo. É que ou se vive isto ou aquilo, nunca simultaneamente os dois senão sob uma ótica abstrata.
E quando se vive não isto ou aquilo, mas nada, ou melhor, o vazio da representação de coisas que já não mais existem senão como imagens e memórias? Em outras palavras, e quando se vive a ausência, ela própria não pode ser ocasião de saudade? Ora, a ausência crava todas as coisas em seu coração com uma atratividade estranhamente irresistível. Aquilo que já foi vivido, adquirindo o selo de ausente, torna-se tanto mais atraente quanto mais promete preencher o agora se vivenciado novamente. Mas às vezes não se quer uma nova vivência, e sim exatamente a mesma, aquela do passado, e isto só a memória e a saudade podem outorgar; porque também amamos a dor à medida que nos dói amar. Amamos amar e por osmose tudo que se lhe refere nos acaricia de algum modo.
Parece triste o estado de possuir algo apetecível; possuí-lo é como perdê-lo no âmbito do desejo, não o tendo mais sob a bela aura de ausência ou possibilidade que nele outrora tanto cativava e atraía.
Nesta vida, mais queremos quando não temos porque o que nos está fora da posse é um mistério, uma caixa de expectativas, um sonho, um convite irrecusável, e não o que saturamos pela enfadonha posse interessada e pragmática que lhe esgota toda a beleza num breve piscar de olhos.
Amávamos não ter, ou talvez amávamos mais quando não tínhamos: a coisa não possuída parecia existir-nos mais do que quando chegamos a possuí-la, e tudo que se nos existe em plenitude mais nos acaricia o peito dolente. Amamos, outrossim, buscar, lançar-nos ao que é novo, pois o novo parece ser mais fortemente existente, vitalizante, real; o novo é como um reflexo “objetivo” do ímpeto de juventude humano. Amamos também ainda não possuir algo; se tudo já possuíssemos ao nascer, não haveria surpresa nem sonhos; a transição de começar a possuir algo desejado é extasiante; o fastio de possuí-lo é um sinal de que já se lhe esgotou ao possuidor toda a vitalidade.
Porém, não é exatamente que os bens desta vida todos se nos esgotem, como se deixassem efetivamente de existir: algo de sua plenitude se conserva intacta no ser, de modo indelével, a despeito de nossos gostos e desgostos. O problema é que nós nos esgotamos, cansamos de amar de novo e de novo, quais crianças inocentes admiradas à vista de uma borboleta colorida, as mesmas coisas.
Deus, a quem Santo Agostinho se dirigiu nas suas “Confissões” chamando-o “Beleza sempre antiga e sempre nova”, nunca se esgota e, por seu olhar infinito e superabundante de vida e amor, nunca se cansa de amar-nos.
Tudo isto, todas estas reflexões aparentemente tão subjetivas, que escrevo num ímpeto de saudade, lembram-me bem de um dos textos mais belos de G. K. Chesterton, a quem devoto enormes admiração e respeito, no seu estupendo livro “Ortodoxia”:
“Eu não me levanto todas as manhãs; a variação, porém, não se deve à minha atividade, mas à minha inação.
Ora, para usar uma frase popular, pode ser que o sol levante-se regularmente porque nunca se cansa de levantar-se. A sua rotina pode provir não de uma falta de vitalidade, mas de uma torrente de vida. O que eu quero dizer pode ser observado, por exemplo, nas crianças, quando descobrem algum jogo ou brincadeira de que gostam muito. Uma criança balança ritmicamente as pernas devido a um excesso, e não a uma ausência de vida. As crianças têm uma vitalidade abundante, são impetuosas e livres de espírito, e portanto querem as coisas repetidas e inalteradas. Elas sempre dizem ‘Faz de novo’; e o adulto faz de novo até ficar quase morto. Os adultos não são suficientemente fortes para exultarem na monotonia.
Mas talvez Deus seja suficientemente forte para exultar na monotonia. É possível que Deus diga ao sol todas as manhãs: ‘Faz de novo’, e diga à lua todas as noites: ‘Faz de novo’. Pode ser que não seja uma necessidade automática que faz todas as margaridas iguais; pode ser que Deus faça cada margarida separadamente, mas não se canse de criar cada uma delas em particular. Pode ser que Ele tenha um eterno apetite de infância; pois nós pecamos e envelhecemos, e nosso Pai é mais jovem do que nós. A repetição na Natureza pode não ser uma simples recorrência; ela pode ser um bis de teatro. O céu pode ter pedido bis ao passarinho que pôs um ovo.“.
Creio não ter mais nada a dizer por ora.


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