Temor a Deus: remédio contra o pecado

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Um dos primeiros efeitos do temor a Deus (dom do Espírito Santo) na alma humana é o receio de pecar. Pois pecar é ofender e desagradar a Deus, que é nosso Criador e Pai bondoso; então, pecar é um grande mal, que deve ser evitado, temido.

O servo fiel teme desagradar seu senhor. O bom filho teme desagradar seu pai.

O Espírito Santo age na alma, pelo temor a Deus, inspirando-a a refrear os desejos do concupiscível desordenado, os quais são incompatíveis com as inspirações divinas à prática do bem, que exige sacrifícios e renúncias.

Para isto, é necessário ter consciência da presença de Deus. O Criador é onipresente, está presente a nós e a tudo que existe. É impossível esconder-se dEle – que nos conhece mais do que nós mesmos nos conhecemos.

Uma moça pode ocultar algo a seu pai humano, e muitas vezes fazer às escondidas algo proibido e errado dá ainda mais prazer. Mas, se ela sabe que seu pai descobrirá, isto é um freio à sua ação, se ela o teme, seja por não querer ser castigada, seja por não querer desonrar ou desagradar e decepcionar seu pai.

Caro leitor, com Deus as coisas são diferentes. Ofendê-lo com um pecado mortal é tão grave que torna o pecador imediatamente merecedor do Inferno eterno. A dignidade e majestade de Deus é infinita e sua misericórdia não anula sua justiça suprema.

Quando ofendemos a Deus, não temos nenhuma garantia de que não seremos punidos ali mesmo no ato, ou de que nos arrependeremos e mudaremos de vida, até chegar a morte.

Nenhuma garantia.

Pelo contrário, colocamo-nos sob o domínio real do demônio e resistimos à graça, de tal maneira que, mesmo sem sentir isto, nos tornamos inimigos de Deus e o passamos a odiar (uma vez que preferimos um bem ilusório à Bondade eterna).

Devemos ter isto em mente no instante da tentação: Deus está ali presente, é nosso Pai e Senhor soberano, a quem ofenderemos e desagradaremos se formos adiante no mal, e que, antes, durante ou depois do pecado, pode permitir que a morte venha como um ladrão (embora seja misericordioso e queira que nos arrependamos).

Se você, caro amigo, já tiver começado o ato impuro, lembre: não abuse da Misericórdia! Imediatamente você deve parar o ato sem consumá-lo. Não ir até o fim na impureza ou em qualquer pecado já será obra da graça, porque o temor de pecar freará a ânsia por consumar o pecado e desfrutar de seu prazer ilusório. Assim, haverá maior chance de resistir a próximas tentações sem sequer começar o ato ou consentir em pensamentos impuros.

A questão é: começar um ato impuro já é pecado e leva ao Inferno. Em hipótese alguma se lhe deve dar início. Mas, se Fulano cair na tentação e começar, deve parar imediatamente, mesmo já tendo pecado!

O pecado terá sido cometido e deverá ser confessado, mas não se terá consumado em prazer; esta experiência de autocontrole reforçará a obra posterior da graça pelo arrependimento. Pensar que primeiro você vai terminar o pecado para depois confessá-lo, “porque já pequei mesmo, não adianta nada voltar atrás”, é abusar gravemente da infinita Misericórdia! É começar uma ação má prevendo arrependimento cinicamente, para obter o prazer proibido com um afago de consciência!

No ato pecaminoso, você leva minutos se esquecendo de Deus, de tudo que você mais zela e ama, de tudo que há de mais sagrado. Não apenas se esquece de tudo isso, na verdade se pisa em tudo isso.

É como prolongar o sofrimento de Cristo na cruz prometendo-lhe que depois se lhe passará uma pomada nas feridas! É cinismo!

Começou a pregar os cravos nas mãos sagradas do Redentor? É impossível que a consciência neste ato já não esteja acusando você, irmão. Retira-os logo; desiste do ato; beija arrependido as mãos do Senhor feridas por ti. Não os termine de pregar para contentar tua concupiscência.

Decidiu assassinar seu irmão? Ele está longe e você terá de pegar um carro, comprar uma faca, pensar num plano, etc.? Já pecou. Mas o caminho até consumar a decisão perversa é longo; confessa-te e não termina o plano.

Abusas da Misericórdia quando, sabendo que pode parar o ato nefando antes de consumá-lo em prazer, o continuas até o fim, como um Judas que, prevendo que se arrependerá, ou já meio arrependido, antes se assegura de adquirir bens com as moedas que a traição lhe rendeu.

Um pecado prolongado é uma resistência ad continum à Misericórdia. A Justiça divina pode não tolerar isto; os anjos o contemplam com horror; os demônios, com ódio, cinismo e satisfação.

Se não fosse a Misericórdia infinita de Deus, os anjos bons fulminariam o pecador no ato de seu pecado implacavelmente. A própria Virgem Maria, atrevo-me a dizer, faria fulminar o pecador, tão grave é o pecado mortal.

Lembre que, por um prazer efêmero e ridículo de segundos, podemos nos tornar merecedores das eternas e irrevogáveis penas do Inferno.

Você pensa “Ah, já pequei mesmo! Já estou pecando! Agora é ir até o fim e…” – e no fundo, bem no fundo, fazes isso com peso de consciência, mas rapidamente, cegamente, a muito custo, para satisfazer à carne, sendo que tua alma prevê que deverá arrepender-se, etc. etc..

Irmão, insisto nisto: se o arrependimento firme e a decisão de não mais pecar se aplica após o ato, não menos se aplica durante o ato ou antes dele, mesmo que já se tenha pecado (por pensamento, ou por ter começado).

Avante, pois é estreito o caminho que leva ao céu, mas suave o jugo e leve o fardo, pois Cristo está conosco, é bondoso e paciente. Mas não podemos abusar da Misericórdia! Temamos profundamente cometer tal hediondez.

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