Relato de conversão

Amigo leitor, este meu testemunho de conversão foi escrito há vários anos, por ocasião de meu aniversário de 20 anos. Nele não busco expor exatamente um exemplo a ser seguido, e sim um contratestemunho a ser evitado, no que diz respeito a minha vida mundana de outrora. Apenas minha conversão é que serve de exemplo, e o que proveio de bom dela, por graça de Deus somente, e não por mérito meu.

Hoje, como terapeuta e autor de mais de cinco livros, sempre tomo a realidade concreta como ponto de partida: nada do que, durante os quatro anos desde que escrevo, traduzo, reviso, auxilio pessoas, dou aulas, etc., é fruto de ideações sem fundamento objetivo, ou de devaneios inúteis. O que aconselho, o que ensino, o que repudio, tudo já passou por minha vida e pela de meus semelhantes, isto é, todo ser humano concreto.

Assim, quando enfatizo o mal da porno’grafia, ou coisa análoga, nunca é sem fundamento. Quem atende pessoas que sofrem desse mal, e já viu a si mesmo padecendo dele, sabe de seus efeitos nocivos. Publiquei um estudo, gratuitamente, sobre esse vício, disponível neste link: clique aqui. Também tenho um livro (em formato ebook) inteiro sobre o tema e sobre meios de vencer qualquer vício: clique aqui .

Por fim, desejo uma boa leitura de meu… contratestemunho, ou testemunho, como você queira chamá-lo. Não sou lá grande coisa, e é justo que também as coisas pequenas e miseráveis agradeçam a Deus, publicamente, o uso de sua infinita Misericórdia. É o que farei aqui.

I

Nasci no dia 4 de abril de 2001, em Aracaju, capital de Sergipe. Foi numa noite de quarta-feira, poucos dias antes de começar a Semana Santa, no dia do Doutor da Igreja Santo Isidoro de Sevilha, que aprouve ao Bom Deus que eu fosse entregue à luz deste mundo — e a refulgente luz sobrenatural me aguardava nas cristalinas águas batismais.

Apesar de ser natural da capital sergipana, passei os dez primeiros anos da minha vida em Lagarto, no interior do mesmo estado, não muito distante da metrópole. Nos meus verdes anos naquela cidade interiorana, estudei no Colégio Nossa Senhora da Piedade, regido por freiras de espiritualidade franciscana e o mais célebre da região.

Educado em princípios e ensinamentos católicos, não cheguei, porém, a fazer catequese e meu batismo tardou até meus quase cinco anos de idade, nem costumava comparecer à Santa Missa senão quando passava minhas férias colegiais no interior da Bahia.

Desde novo, porém, com o pouco que me chegava a respeito da Igreja Católica, mediante a vaga experiência que tinha face a belas imagens, orações e canções, sentia dentro do meu peito um gérmen de piedade, de amor a Deus, ouso até dizer; era algo confuso, realmente pouco discernível.

Na mencionada escola em que eu estudava, após a diretoria havia o claustro onde moravam as freiras que a administravam. Quando eu e meus colegas podíamos adentrar lá, para ir ao laboratório ou à biblioteca, sempre íamos em profundo silêncio e reverência, malgrado nosso ávido e infantil ímpeto de expansão; víamos que pairava ali um ar de recolhimento e mistério. Percebia, melancólico então como agora, que não era qualquer local, mas uma habitação sagrada, dedicada a Deus, muito diferente do que se me dava a ver nas inconstantes agitações do mundo.

Nós rezávamos e cantávamos no pátio escolar antes de começar as aulas, por volta das 13h. Todos de farda, em fila, em ordem, com disciplina e silêncio. Nos instantes em que, com meus colegas de turma, ia à pequena capela do convento a orar, projetava-se-nos à vista, impávida em triste silêncio, uma bela e misteriosa escultura de Nossa Senhora das Dores (ou da Piedade), padroeira de Lagarto. Eu era profundamente atraído por aquela instigante e aflita realidade que jazia diante dos meus infantis olhos: a morte de Cristo, o sofrimento de sua Mãe, sangue derramado, chagas inflamadas…

Todavia, o mundo, com seus enganos, fazia frente a todos esses antigos e confusos movimentos da graça e sufocava-os, atraindo-me a si à medida que me retraía da presença do Senhor. Não florescia conscientemente em minha alma a fidelidade que Cristo esperava de mim naquele doce período da minha vida.

Deu-se o meu batismo no dia 18 de dezembro de 2005, na Paróquia Nossa Senhora da Conceição, em Antas, cidade do interior baiano próxima da divisa entre Sergipe e a Bahia. Era nessa cidade que eu ia, com minha vó materna, que então era católica, e outros parentes, à Santa Missa.

Eu não entendia o que acontecia na Missa, mas todos nos levantávamos bem cedo — e eu o fazia com gosto! — para nos dirigir à igreja paroquial nos domingos de manhã, em atitude de ser um momento solene e esperado ao qual não se podia faltar, e isso certamente realçava, no mínimo, a sacralidade da cerimônia. Na casa de vó, ademais, eu não admitia acordar tardiamente; fazia sempre um clima frio, de inverno, sobretudo quando das férias de julho, e aquilo atraía-me ao gélido ar matinal bem mais que ao calor dos lençóis que ao sono me encobriam.

Tudo o que era sagrado ou dizia respeito a coisas importantes da vida tinham um ar de infinitude ou de transcendência pra mim. De certa forma, portanto, eu levava a sério a Missa, porque aspirava, sem saber, à eternidade mediante um eterno retorno de alma ao infindo passado da existência, e o Santo Sacrifício compendia toda a temporalidade, pelo que julgo ter respingado naquele peito meu uma lágrima de infinitude.

Essas memórias e várias outras estão incrustadas na minha alma e recordo-me ternamente de cada uma delas. Afinal, trata-se do mistério da minha vida, do meu trajeto existencial; e Deus pensava em mim, amava-me e estava comigo, ainda que eu não o soubesse, e sempre. Toda vida é um inexprimível mistério.

Não posso afirmar que este fato tenha sido a fundo relevante, mas devo reconhecer que nele havia algo de curioso: aos dez anos de idade, fiz-me, pela primeira vez, com consciência e claridade, uma pergunta de caráter teológico-metafísico: procurei imaginar o que seria o nada absoluto, entender como Deus pôde criar tudo do nada e não necessitar ser Ele próprio criado. Naturalmente, essa questão inquietou-me bastante, pois violentava a minha imaginação; fui acometido de uma estranha angústia que ainda se tornaria presente em outros vários instantes da minha vida. De qualquer modo, porém, como eu não conseguia resolver a questão, simplesmente a esqueci.

Por mais que eu tenha obnubilado um impulso intelectual latente em mim, há muito, durante a minha vida, ele sempre esteve presente, e manifestava-se na alternância de minhas veleidades futuras: ora pensava em ser médico, arqueólogo, paleontólogo; depois, desenhista, artista… tantas coisas me interessavam que é difícil elencá-las aqui! Eu entristecia-me ao considerar os dinossauros que já passaram por este mundo e ao ver como tudo passou e passava qual um raio impiedoso, e morria para sempre… porque eu contemplava o mundo como que à luz da eternidade, mas sem saber. De fato, o passado, o mistério do futuro, sobretudo no que parecia dizer respeito à consumação dos tempos, tudo isso causava-me curiosidade, admiração e certa expectativa misturada com uma nostalgia profunda do que nunca vivi.

Antes do Ensino Fundamental II, eu era considerado um dos melhores alunos da minha turma; gostava de responder às perguntas dos professores, fazê-las difíceis aos meus colegas quando possível e de desenhar bem e inventar histórias e narrativas. Isso diz mui pouco d’uma vocação propriamente intelectual, mas de fato prefigurava-a.

Por fim, outrora como hoje era afeito a miniaturas mais que a brinquedos propriamente (no sentido de sua finalidade de divertimento apenas), colecionava-os de dinossauros e fazia o possível por criar um ambiente propício no qual eles ficassem, por assim dizer, bem estabilizados. Devo ter chegado a mais de quinhentas peças naqueles meus primeiros anos.

Esse sou eu em criança.

Eis, porém, que me chegam a adolescência e seus antecedentes.

II

O início dela foi marcado por isto: quando eu e minha família tivemos de mudar-nos para Antas, no interior baiano, próxima de Jeremoabo e da Diocese de Paulo Afonso, aconteceu-me de transitar de um colégio católico, particular, onde havia ordem e disciplina, para uma escola pública, onde a situação era bem diferente. No primeiro ambiente escolar, eu convivia apenas com jovens da minha idade, sob o olhar dos professores e da regra habitual de conduta requerida aos alunos. O horário do recreio era distinto para os alunos mais novos e os mais velhos, estes da sétima série adiante. Já na escola pública, estava em meio a adolescentes de todas as idades e mesmo a adultos estagnados n’uma classe há anos. O palavreado era diferente, repleto de expressões lascivas e ambíguas, provocantes e lamentáveis artifícios contra a santa pureza. Tudo se reduzia a sexo e a autoafirmação individual e grupal naquele meio. Eu estava, portanto, em um mundo novo. Comecei a ser fortemente influenciado pela mentalidade reinante, que era mundana, no sentido bíblico do termo, e aprazível às paixões desordenadas do alvorecer da juventude. Aos poucos, fui caindo de abismo em abismo, cultivando conversas promíscuas e tentando ultrapassar todos os limites da moralidade antes aprendida no que se refere à sexualidade e outras áreas da vida.

Não passará, aliás, despercebida ao leitor a ênfase imensa que darei neste texto, e que forcejo por dar sempre no meu humilde apostolado de formação, à malícia, imoralidade e poder de corrupção da luxúria, em todas as suas formas: seja no linguajar, por meio de expressões, gestos e frases insinuantes e indecentes, com palavras que ferem a pureza e, segundo os grandes Santos e teólogos ao longo da história, produzem escândalo e são matéria grave (de confissão, portanto), por, d’entre outras muitas razões, prostituir o verbo humano e dessacralizar o sagrado, ou seja nas vias de fato que todos nós conhecemos, quais sejam os pecados de imodéstia e impudor, sobretudo entre as moças, pelas ridículas e desonestas modas atuais contra as quais nos alertava Nossa Senhora de Fátima por meio dos santos pastorinhos; os relativos à pornografia e à fornicação, etc. . Se a dissolução reina hoje com requintes de legitimidade e autonomia justificável envoltos de racionalismos sutis e enganosos, não por isso deixam de precipitar-se muitas almas no Inferno pelos pecados que aviltam a castidade, e eu, que já lhes fui tão fiel escravo, espero reparar, em minha profunda abjeção e miséria, algo de todo o mal que fiz no passado, transmitindo aos outros o que a Santa Igreja ensina sobre o tema.

Pois bem, tornando ao relato, ocorre que até os meus 12 anos, nunca tivera contato com qualquer material pornográfico, mas a isso se opunha que os jogos de computador com que eu perdia o meu tempo e aquele maior contato com influências mundanos diretas, na escola, eram causa formidavelmente eficaz de produzir-se em minha alma disposições próximas de adentrar nas veredas da pornografia e infâmias semelhantes. E de fato isso foi o que desgraçadamente aconteceu em meados de 2013. É um caminho sem volta se não há um impulso contrário suficientemente forte ou proporcional a combater essas tentações. Parece que dispusemos de um manancial quase ilimitado de prazer mediante poucos cliques de “mouse”, a custo da nossa salvação eterna e de uma profunda e verdadeira felicidade já nesta vida, fundada na virtude. Enfim, uma verdadeira escravidão da qual só fui libertar-me em 2017, quando retornei à Santa Igreja, por exclusiva bondade do Criador. Ele, com efeito, foi e tem sido infinitamente misericordioso e clemente para comigo desde aquele ano, porquanto, depois que decidi, sob impulso da graça divina, e não por mim mesmo, largar definitivamente esse pecado que diariamente me agrilhoava mais e mais ao Inferno, nunca mais voltei a cair nele, do que dou singelo testemunho a bem da verdade e da eficácia da graça divina e dos Sacramentos.

No transcurso ainda do período nefando, todavia, ali a partir de 2013, como dito, minha mentalidade, imaginação e conversas se mostravam cada vez mais corrompidas à medida que o tempo passava. Ora, poucas coisas afetam tanto a imaginação, a memória e a cognição como a pornografia, que impulsiona um processo autocorrosivo de cegueira mental, uma vez que a luxúria obscurece as realidades espirituais ao intelecto. E isso, aliado a uma vida desprovida de sentido, quer dizer, toda derramada em coisas inúteis e vãs, não poderia chegar a bom termo.

Em 2015, eu estava bastante avançado em um jogo chamado Dino Storm, precedentemente ao qual já jogara o Goodgame Empire, Farmer, Farmfever, Gangster, etc.; por isso, conhecia muitas pessoas ao redor do Brasil e tinha contato com elas. Bom, sucede que eu e outros jogadores costumávamos reunir-nos no programa Raidcall (semelhante ao Skype) para conversar e fazer estratégias de guerra. Em uma das muitas conversas que tínhamos, começamos a falar sobre animais pré-históricos já extintos, como o megalodonte. O assunto incorreu em uma discussão banal a respeito da evolução das espécies e n’alguns comentários sobre Deus.

Possuía então uma mentalidade religiosa bastante pobre e imbuída de visões distorcidas de mundo, questionamentos pouco fundados e assim por diante. Mas naquela discussão se me acendeu particularmente um desejo de pesquisar mais àquele respeito, e isso fez-me começar logo a entrar em contato com conteúdos de teor cético, cientificista, ateu e materialista. Foi o estopim da minha derrocada.

Não tinha mais que 14 anos na época; era um adolescente típico: revoltado, que queria emancipar-me das opiniões comuns ou das “pessoas simples e ignorantes”. Facilmente, então, diante do vasto universo da Ciência Moderna que se me apresentava e da minha fascinação pela natureza, pelo universo e pelo desconhecido, minha soberba e cegueira me levariam a aderir acriticamente àqueles conteúdos reducionistas e errôneos em suas interpretações filosóficas, adesão que me tornaria aliás “diferente dos outros”, supostamente acima deles.

Meu primeiro e mais profundo interesse de disciplina recaiu na Astronomia e na Física. Era bastante da minha natureza contemplar a noturna abóbada estrelada, e, no impulso que me dava o mistério do universo, queria conhecer a fundo tudo o que se lhe referisse: constelações, galáxias, nebulosas, supergigantes vermelhas e azuis, cometas… foi algo espontâneo e inevitável. A Física veio-me por acréscimo, subordinadamente à Astronomia.

No fundo, porém, eu não me interessava avidamente por fórmulas matemáticas ou pela complexidade das leis físicas, mas sobretudo por aquele mistério envolta de cuja sombra jazia o núcleo da Astronomia enquanto expressão de mais recôndita e sutil realidade. O universo se me dava a ver bem maior do que eu poderia conceber por mim mesmo. Sua vastidão e grandiosidade, suas belezas indizíveis e imensuráveis elevavam meu coração qual um forte ímã, e aquele, contudo, não se dirigia conscientemente a Deus.

Conforme ficou acima exposto, e do que estes anseios eram uma continuidade, inquietava-me a alma mesmo a ânsia de conhecer o nome das constelações, sua história, como a humanidade sempre as viu e por que as viu como as viu e não de outro modo: em suma, era o mistério dos tempos que estava diante de mim. A este propósito, não se diz, e com razão, que quando olhamos para o céu estrelado contemplamos o passado, em função do incomensurável período de tempo necessário a que o menor raio de luz transcorra os confins do universo para chegar até nós?

É por isso que nisso tudo não rastreio um legítimo desejo de ser matemático nem cientista propriamente falando, como eu dizia aos meus amigos que o seria. Envaidecer-me, autoafirmar-me, expor minha ilusória superioridade aos demais e conhecer o desconhecido por curiosidade desordenada em sentido psicológico estrito, eis o que inundava meu peito então. Aliás, nas várias formas como o mistério pode apresentar-se-nos, a curiosidade imprudente e própria da juventude sempre encontra um meio de dominar a atenção daquele que dá seus primeiros passos em tão suspeitas veredas. Na verdade, não é que o mistério em si traga perigos, e sim que as necedades ocultas sob roupagem de profundidade e mistério é que facilmente agarram as soberbas inteligências dos jovens e as mantêm em cativeiro. Isto é muito bem comprovável nos costumes que se pretendem sombrios de amantes de Rock (não todas as músicas e bandas deste gênero musical, obviamente, estão neste rol), Punk e coisas semelhantes, na revolta niilista e indiferentista de tantos adolescentes, em todas as formas de esoterismo, ocultismo, etc. . Existe um resplendor palpável no verdadeiro mistério, aquele que se consigna nas verdades reveladas por Deus; é luminoso como o Sol, e de caráter tão positivo que eleva a própria negação a um patamar superior.

Claramente, não há sequer resquício de amor à verdade no suicida ceticismo ornado de busca do desconhecido. Nessas condições, eu de tal forma estava cego que, quando via debates ou argumentos profundos em favor da existência de Deus e temas semelhantes, não os queria admitir, antes preferia fechar (quase literalmente!) os olhos da minha inteligente a ter de reconhecer que jazia em nefando erro, ou pelo menos admitir-lhe a possibilidade. Esquivava-me de estudar seriamente o assunto. Recolhia-me em meu egoísta e vazio mundo interior e negava-me a buscar a verdade, fazendo nisso grande violência a meu intelecto.

Essa obstinação chegava às arraias de sentir arder-me o interior frente a certas realidades (evidentes, diga-se de passagem) ou afirmações; daí veio-me tornar-me um verdadeiro escarnecedor e blasfemo, e importunar maliciosamente aqueles que tinham fé, buscando convencê-los a todo custo de que estavam errados. Evidentemente, não todos os ateus são impertinentes como eu era; há alguns que se mantêm suficientemente tranquilos para não travar qualquer combate intelectual contra pessoas religiosas; no entanto, se forem suficientemente honestos e abertos à Verdade, em pouco tempo deixarão de ser ateus.

Em tal etapa da minha vida, sentia-me obrigado à convicção de que nada fazia sentido (devia ser lógico com o que defendia), pois que logo morreríamos e deixaríamos de existir para sempre, e após algum tempo também o universo, por assim dizer, morreria ou começaria a esfriar-se por completo, até tornar-se totalmente inabitável. Novamente, passavam-se-me aos olhos literais bilhões, trilhões de anos e toda a esfera temporal, a qual parecia sintetizar-se numa espécie de eternidade puramente material e tristonha, sombria. Isso era absolutamente desesperador; recusava-me a aceitar ou admitir, com sinceridade, a possibilidade de deixar um dia de existir completamente.

Este coração que cá me pulsa sempre foi animado por uma alma imortal, como o de todos os demais seres humanos desde o início da história; como o do leitor a quem ora bailam estas rudes letras. Embora fosse algo poético e até louvado por alguns físicos e astrônomos, não me consolava o destino de tornar-me poeira estrelar ou de voltar às origens cósmicas da humanidade. Se eu estava obstinado em ser ateu e em não me abrir para a Verdade, em não ver quaisquer argumentos contrários àquilo que para mim se tinha tornado uma espécie de religião e obsessão, também o estava em permanecer no ser, na existência, por toda a eternidade. Não queria que a morte fosse o termo de tudo. Isso parecia uma ofensa aviltante à minha natureza ou mesmo à admissão de qualquer sentido legítimo de vida. Eu aspirava à eternidade, mas vendo-a, ao mesmo tempo, sob um prisma totalmente materialista e desesperador: o de uma morte eterna e vazia, que perduraria pelos séculos dos séculos no mais abismático esquecimento.

Sejamos francos: anelar permanecer na existência não é um simples desejo subjetivo. Todos nós o temos, conscientemente ou não. Afinal, quantos desejos fundamentais, reflexo psicológico das múltiplas finalidades do ser, possuímos sem que nos demos conta deles e seu profundo substrato? Como em geral vivemos coisas superficiais e observamos superficialmente o que vivemos, custa-nos perceber outro anelo que não aquele que mais evidência nos tenha em momentos específicos da nossa vida. A universalidade inelutável do anseio humano por continuar na existência permanentemente parece, pois, uma quimera se a subjetividade e a consciência desta mesma subjetividade, enquanto a julga e interpreta, são consideradas parâmetro ou regra das asserções antropológicas; não obstante isso, o próprio suicídio só pode ser a fundo compreendido à luz desse princípio que vamos tratando.

Aquilo em direção a que este ou aquele indivíduo se lança, ao tentar dar fim à sua vida, não é outra coisa que uma espécie de nada mais consistente que esta vida; é um nada mais preenchedor que todos os bens terrenos; caso contrário, não seria visto como um bem. No entanto, todo movimento, local ou metafísico, insere-se dentro do campo do ser, assim como uma seta lançada ao vácuo não se pode dizer no nada, propriamente falando, uma vez que o espaço não é uma nulidade ontológica absoluta, e sim algo que existe, independentemente de como; portanto, a seta é lançada seguindo-se um parâmetro espacial que pode até ser quantificado ou categorizado em pontos cardeais. Finalizado o movimento da seta, esta repousa no seu termo e “aquieta-se”: atingiu o que “queria”, um repouso de amor (de finalidade). Assim, pois, o nada que se vê como um bem é buscado porque é amado, e amado como capaz de algo, de produzir um efeito por sua posse; possui natureza de fim, de termo onde quer o indivíduo repousar, e ocorre que no repouso há certa fruição e um objetivo atingido, nada do que se pode atribuir em caso de absoluta supressão do ser que recai no não-ser. A apetecibilidade do nada apresenta aqui um caráter de infinitude obnubilada. Se não se desse, na mentalidade suicida, ao nada alguma consistência ontológica, não seria ele desejado, nem o poderia ser, pela natureza indefectível da vontade, apetite racional do bem. Não é desejado, pois, senão como uma maior afirmação e expressão de vida do que esta vida temporal; é um passo cego isto, nota-se: por concluir-se que esta vida presente já está insuportável e que à parte dela nada há afora a morte, reduzindo-se à vida biológica todo o substrato da existência humana, em uma dicotomia de vida-morte, conclui-se que a morte é-lhe superior por suprimir-lhe a amargura insuportável. Pode isso parecer confuso ao leitor, mas ocorre que ou nossa vontade se inclina a um bem visto como tal pela inteligência ou sente repulsa por um mal, sempre tendo em vista bens opostos; em ambos os casos, recai todo ato volitivo em algo que é, nunca em algo que não é (este segundo caso seria impossível). Todo não só é ao homem admissível em função de um sim avassalador.

Nessa dinâmica de afirmação e negação, pois, temos a equação de que esta vida (a parte negativa considerada) não pode ser preterida ao nada senão em sendo este a parte positiva da consideração moral do suicida, ainda que este seu aspecto positivo se subordine por inteiro à dita insuportabilidade da vida presente, sendo-lhe consequência e não quisto “em si mesmo”. A morte apresenta-se, então, como apta a dar ao homem algo apetecível que esta vida lhe recusa, ou livrá-lo do que a mesma vida lhe faz. Não existir parece ser melhor que existir, e, se parece melhor, é porque é visto como algo bom; e, se parece bom, é porque é algo; portanto, existe de algum modo; sequer é possível imaginar remotamente o não-ser, e até defini-lo é árdua tarefa. Em conclusão, por fim, chama-se nada aquilo que se busca quando se foge desta vida.

Não deve espantar, pois, que eu recusasse o nada. Mas, enquanto eu me esquivava dessas questões, buscava tranquilizar-me, por total derramamento de minhas forças, nos prazeres efêmeros desta vida. Meus desejos sempre foram ardentes, veementes e obstinados. Eu tinha uma sede inexpugnável por felicidade, por plenitude, como todo ser humano, e para obtê-la, buscava aproveitar a vida em máxima intensidade, apesar do meu temperamento ser relativamente calmo.

Buscava enfim longe e fora do Senhor a felicidade que só nEle se pode encontrar — Ele, que é nosso tudo. Mas o Senhor também me buscava, nunca, porém, me tendo perdido.

III

Quisera relembrar aqui três fatos particularmente importantes da minha vida. O primeiro, vivido por volta de setembro de 2015, foi uma experiência interior que se me deu quando começava a refletir sobre a morte e a existência de Carl Sagan, astrônomo que à época era minha maior inspiração. Ele amava o universo como eu, e eu queria imitá-lo, seguir-lhe os passos. Lendo sobre sua vida, descobri que, antes de morrer, em dezembro de 1996, não havia dado quaisquer sinais de conversão. Sua ex-mulher, inclusive, diz que “ele enfrentou a morte com coragem inabalável e nunca procurou refúgio em ilusões”. Palavras tristes, que me fizeram pensar confusamente. Uma certa noite, observava o céu estrelado e punha-me a refletir no que se teria passado com Sagan no fim das contas. De que lhe teria adiantado tudo o que fez e viveu se afinal nada é dotado de sentido, nem este pode existir sequer? Vaidade das vaidades, tudo é vaidade, diz o Sábio.

Ora, quando ficamos admirados com uma majestosa obra de arte ou com a beleza da natureza, subjaz a essa admiração um sentimento de reconhecimento da sua significação, da sua razão de ser. Essa beleza e grandiosidade são o esplendor da ordem na qual se insere e que manifesta por si. O universo, sendo um todo harmônico, não deve ele mesmo ser dotado de sentido e finalidade?

Tudo o que somos e que nos está à volta não pode ser ilusão. No limite, a absolutez desta vida é que deveria ser considerada uma ilusão na qual se refugiam os que temem as exigências da eternidade por lamentável mediocridade. Não buscamos refugiar-nos em quimeras quando estamos lutando contra uma verdade que se impõe ela mesma a nós, no sentido de que é manifesta e claríssima? Pois bem, diante da eternidade, que é mais consistente que esta vida perecível, mas que parece impenetrável e, por isso, algo que pode às vezes repugnar à nossa carne, quando se pensa nos meios necessários para vivê-la felizmente, diante dessa eternidade, prossigo, muitos fazem desta vida um refúgio cujos elementos podem assumir subjetivamente o papel de ilusões e aos quais se podem atribuir caracteres de maior consistência ontológica.

De fato, aquela experiência de perguntar-me pelo que restara daquela pessoa concreta chamada Carl Sagan, em quem tanto me inspirava, ficou impressa em minha alma e haveria de ser trabalhada pelo Espírito Santo a fim de levar-me a Si.

*

Por segundo, relato outro fato significante. Em meados 2015, já ateísta, ocorreu-me o ensejo de ter de comparecer à missa de corpo presente da avó de uma colega que morrera. Todos os alunos da minha turma fomos, na do dia seguinte, à casa dessa colega (não nos houve aula, naturalmente). Fazia sol forte, o céu estava aberto. De lá, dirigimo-nos em procissão fúnebre até a Paróquia Nossa Senhora da Conceição, onde se realizariam exéquias, etc., o que precederia o sepultamento daquela senhora, que seria no chamado Cemitério Novo da cidade, situado em Nova Antas, ladeira acima de onde estávamos (e de todo o centro da cidade, aliás).

Chegando às celebrações litúrgicas, agi com total desprezo e indiferença, fazendo questão de recusar-me a fazer os gestos que todo mundo fazia então. Peguei meu celular, comecei a entreter-me n’um jogo e, momento ou outro, falar tolices a uns colegas, com algum receio até de ser censurado, mas evidente e claríssima intenção de escárnio ou de demonstrar cinicamente meu total desprezo ao que sucedia naquele momento.

Mas dirá o hagiógrafo: Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e sempre. Ali Nosso Senhor estava presente verdadeiramente, no mesmo sacrário diante do qual posteriormente eu me prostraria em adoração. Havia, sim, participado, na infância, das Missas ali celebradas, com um resto de inocência e respeito, mas então voltava ao lar como filho rebelde, obstinado, descrente. Meu coração não se voltava para a hóstia sagrada, nem para o crucifixo sobre o altar, mas sei que Cristo se apiedava do abismo em que jazia esta alma blasfema ali em seu templo. E particularmente estou seguro de que a Virgem Maria orava por mim, ela, padroeira de Antas e da minha cidade natal, diante de quem eu fora batizado.

Eis que certamente eu era o mais incorrigível, o mais rebelde, o mais escarnecedor; porém, apesar de mim mesmo, malgrado eu estar presente naquela Missa como um algoz da Paixão do Senhor, eu era um daqueles nos quais surtiriam efeito os clamores de Cristo Crucificado que dizia: “Pai, perdoai-os, pois não sabem o que fazem!”. A Santa Missa é fonte de todas as graças; consciente estou de que as súplicas foram ouvidas e que tocariam minha alma no devido tempo. Pois o Senhor via-me compadecido, olhava para minha alma em pecado mortal, repleta de trevas e más inclinações; e o seu olhar é criador e redentor; eu e Ele estávamos presentes ali, e Deus amava-me, enquanto eu o via com desprezo e ódio.

*

Por fim, vamos ao último fato.

Santa Teresinha do Menino Jesus, em seus últimos anos de vida, passou pela dolorosa experiência da noite escura do espírito; ela teve sua inteligência crucificada e açoitada com espessas trevas. Já havendo vivido uma purificação profunda anteriormente, esse novo suplício espiritual, relativo às tentações veementes que contra a fé que lhe sitiavam a alma, era um extenso e puro holocausto de amor. Para que esta espécie de martírio seja suportada, é necessário o influxo do dom da fortaleza, um dos sete dons do Espírito Santo. Assemelha-se a adentrar em sufocante e densa selva envolta em trevas flamejantes; a alma vê-se n’um estado de total, embora não efetivo, abandono, para que se lhe purifique a fé desde o íntimo.

No entanto, a Santa de Lisieux já passara por semelhante purificação. Esse novo martírio foi conseqüência de sua entrega, da sua oblação de amor feita a Nosso Senhor pela conversão dos pecadores, sobretudo dos ateus, que na sua época ganhavam cada vez mais território na Europa, à medida que o relativismo e materialismo de então iam apoderando-se das almas e perdendo-as eternamente, como um dos inúmeros frutos podres da Revolução Francesa, cuja refluência andava a dilacerar a França havia já um século quando Teresinha ainda era viva. Ademais, análoga oblação interior seria, duas décadas após sua morte, pedida por Nossa Senhora, em Fátima, aos três pastorinhos.

Pelas almas pecadoras, Santa Teresinha suportou, vivendo-as, as tentações atrozes às quais os dúbios na fé e ateístas já haviam aderido, aderiam ou adeririam no século vindouro, chegando à apostasia. Apenas quando Cristo vive em uma alma é que semelhante experiência mística é possível: na sua obra redentora, Nosso Senhor tomou sobre si todo sofrimento, os pecados do homem e as penas devidas a este para salvar-nos.

Pois bem, sucede que meu avô materno, que não tinha fé, propriamente falando, em setembro de 2018 estava no leito de morte, após meses de um câncer terminal dilacerante. Fiz todo o possível a que ele recebesse os últimos sacramentos, mas isto não foi possível por uma série de razões, infelizmente.

Diante da amargura da situação, pouco menos de uma semana antes da morte dele, dei início, às pressas, a uma novena a Santa Teresinha. Não foi, contudo, possível terminá-la: vovô morreu antes do nono dia, às 2h da madrugada do domingo de 30 de setembro de 2018. Poucos dias antes de seu passamento, já sem conseguir falar quase nada, clamava por Deus em sua angústia — ele não queria morrer de jeito nenhum; estava inconsolável.

Não muito tempo depois disso, vim a saber que ele falecera na mesma data em que Santa Teresinha entregou sua alma puríssima a Deus. Entreguei, então, em oração a alma de vovô à Misericórdia infinita do Pai, deixando-a em suas mãos.

Hoje, sou particularmente devoto de Santa Teresinha, por uma infinidade de razões, e recomendo a todos que também o sejam, pois a intercessão dela é imensamente frutuosa, e a sua vida e espiritualidade, incomparáveis.

IV

Finalmente, em meados de agosto de 2016, já começava a desvincular-me do ateísmo e a crer em Deus, por influência dos debates do Dr. Willian Lane Craig e outros teólogos com céticos e ateus a que eu assistia, todos os quais me apresentavam argumentos fortíssimos em favor da existência de Deus, enquanto os adversários sempre pecavam em sua argumentação e tornavam-se reducionistas em bloco. Bastantes coisas se me esclareciam dia após dia, e as crostas de relativismo e cientificismo que em mim havia iam-se dissipando rapidamente. Percebia que a realidade era muito mais complexa e profunda do que a Ciência Moderna, levada ao extremo, fazia parecer.

Depois de largar o ateísmo em 2016, nos primeiros meses de 2017 vi-me na necessidade de fazer uma séria escolha e um grave discernimento: a que religião aderir, qual detinha a verdade sobre Deus e o homem. Obviamente, conhecia a existência e importância e primazia da Igreja Católica, mas sabia-lhe mui pouco e deturpadamente a doutrina e até julgava que nela se adoravam imagens e outros seres humanos. Uma mentalidade claramente protestante, o que não deixa de ser curioso. Pensava-o sem ter a mínima noção do que a Igreja ensinava a respeito da veneração aos Santos, do culto exclusivo de latria a Deus e assim por diante. Por isso é que tomei a cômica decisão de tornar-me “católico protestante”, o que seria uma espécie de adesão ao Catolicismo, “mas sem comprometer-me com imagens e santos”. Confesso que não cogitei sequer ser “evangélico”, sobretudo à maneira pentecostal ou neopentecostal; no máximo, e ainda com grande restrição interior e como uma remotíssima possibilidade, uma mera veleidade, o Luteranismo, o Calvinismo ou a Igreja Ortodoxa — que eu também conhecia superficialmente. A beleza majestosa, a evidente incorporação do sobrenatural no todo humano, a profundidade da doutrina, a seriedade da liturgia, a abrangência inconfundível da Santa Igreja Católica atraíram-me a ela em pouco tempo, e eu rendi-me à divina graça. No fundo, a ser franco, toda forma de protestantismo parecia-me ridícula e indigna de um homem que seriamente busque uma vida legítima em união com a verdade. Afinal, nunca me conformei com ilusões ou mentiras senão ao peso de um satânico e arraigado orgulho.

Nos meus primeiros meses de converso, busquei acompanhar o Padre Paulo Ricardo no Youtube; assistindo principalmente aos vídeos da série “Resposta Católica”, obtive grandes esclarecimentos quanto às minhas dúvidas e inquietações de então.

No dia 7de maio de 2017, participei da minha primeira Santa Missa pós-conversão. Eu havia-me “convertido” antes, porém de muitíssimo imperfeito e relutante: ainda estava repleto de mentalidade do mundo e maus hábitos e pecados; não a ponto, contudo, de eximir-me de reconheci que devia retornar à Igreja Católica como única religião verdadeira, fundada pelo próprio Cristo, qual “coluna e sustentáculo da Verdade”. Aconteceram muitas coisas nesse ínterim; foi processo de mudanças lento e doloroso, como toda conversão, mas verdadeiramente libertador.

Sem Cristo, não seria nada hoje. Sem Cristo, nunca serei nada. Sem Cristo, nada sou, nada tenho e nada posso. Ele é a razão da minha vida, da nossa vida. E a Santa Igreja Católica, que é o Corpo Místico do Senhor, é meu verdadeiro lar, o meu único lar.

Penso que todo o meu percurso existencial é um caminho de retorno a Deus. Ele nunca se esqueceu de mim, embora eu tenha me esquecido dEle muitas vezes. Eu o buscava nas criaturas com ardor, mas sempre voltava frustrado da busca. Eu era como uma andorinha a fugir do ninho. Como diz aquela famosa e bela música, “nós somos andorinhas que vão e que vêm à procura de amor. Às vezes voltam cansadas, feridas, machucadas, mas voltam pra casa, em grande dor”. Mas Deus não permitiu que eu fosse longe demais, isto é, para além das profundezas da morte. Se não fosse a infinita misericórdia de Deus, hoje eu estaria certamente no Inferno, ou cada vez mais próximo deste.

À Virgem Santíssima, Mãe de Deus, tudo o que sou.

Ad majorem Dei gloriam!

Amen.

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