Nas Sagradas Escrituras e nas concepções de mundo de quase todos os povos da história, o coração humano sempre transcendeu a esfera da ordem física e foi visto como uma realidade superior e mais abrangente, quase invisível, mas sumamente real. Por ser invisível, ou difícil de expressar, buscava-se manifestar essa realidade interior, então, por meio da imagem simbólica do coração.
Não é difícil entender a razão disso, pois todo mundo tem a experiência de ver seus estados psíquicos refletidos em uma maior ou menor atividade do coração. Além disso, se este pára de bater, é sinal de que a pessoa morreu ou de que a sua vida está prestes a esvair-se. Sem o impulso contínuo das diástoles e sístoles cardíacas, o sangue não pode circular, e o sangue sempre foi símbolo de vida: um corpo sem sangue ou com o sangue totalmente coagulado é certamente um cadáver. Por fim, sempre se atribuiu naturalmente falta de vigor físico àquele cujo semblante se mostrasse pálido, ou cujo corpo carecesse daquela tensão e força característica das pessoas saudáveis.
Pois bem, é a força do coração que faz que a vida (o sangue) circule pelo corpo e o nutra. Se o coração está mal, também a manifestação vital do indivíduo se mostrará débil; então, em um nível superior, parece que sua vida se esvai na medida em que não é derramada em um impulso de autodoação vigoroso, e não apenas de simples autoconservação – é aqui que entra a correlação com o amor. Ora, quem ama vive por amor, vive por aquilo que ama e naquilo que ama; tem o amado em si e está no amado. Amar é viver e viver é amar. Entregar o coração é entregar a vida, ou o amor, porque é o amor que sustenta o ser humano – e aquele a quem este amor se dirige. E, se o amor quer que o amado se mantenha no ser – é a realidade do desejo da autoconservação ou da permanência na existência –, não quer menos que essa existência se justifique em se tornando mais gloriosa ou perfeita pela comunhão de dois que se doam e que comunicam seus bens.
Não é pouco profundo o que o símbolo do coração nos pode ensinar.
Porque o coração se entrega em favor do bem de todos os órgãos, do corpo inteiro e da atividade do indivíduo, ele também nos recorda a dinâmica expansiva do amor; em seus movimentos, ele retém, por breves instantes, a vida para difundi-la – e a difusão de bens permite um aperfeiçoamento ou enriquecimento mútuo. Se pára de doar-se nesse verdadeiro sacrifício amoroso, um ser inteiro morre, chega-lhe o ar fúnebre da morte e dissipa-se a harmonia vital outrora existente naquele cuja unidade era dada pelo coração.
De forma análoga, sem amor o homem morre, desfalece, cai por terra. É por amor – ainda que inconsciente – que nossas funções vitais agem em favor da nossa conservação na esfera vital. É porque se movem em direção a algo, a um bem, que não vêem como tal, porque são inconscientes, mas que nós podemos ver em sua amabilidade e desejar e afirmá-los como são, dizendo quão bom é que sejam, que existam, porque assim estabeleceu a Sabedoria divina!
Por outro lado, diz-se que a beleza é o esplendor da ordem. Não é também a beleza a manifestação da perfeição de algo? Como algo pode ser dito belo sem uma perfeição que eleve seu ser e o dignifique, dando-lhe essa capacidade sublime de manifestar a glória que cabe ao ser realizado ou próximo da sua perfeição?
Na ordem humana, como nos ensina Santo Agostinho, é o amor que se deve ratificar para que o ser humano se aperfeiçoe ou se insira no caminho do seu aperfeiçoamento. Aqui, o segredo reside no amor, porque é o amor que move o homem; e o coração é a capacidade que o homem tem de poder ser afetado pelo amor ou pela amabilidade real das coisas.
Assim é que percebemos que uma interioridade sã e virtuosa supõe a ordenação do amor fundamental do homem e dos amores parciais decorrentes daquele que é basilar, pois, sendo o amor principal do homem o princípio unificador e dinâmico da sua atividade, e sendo o homem um ser continuamente em transformação, e sendo o amor aquilo que há de mais transformante, o fato de alguém doar-se corretamente ao objeto amado não apenas o torna semelhante a esse objeto como também embeleza sua própria humanidade ou essência num sentido ascendente. Se o coração humano está imerso no lodo do pecado, estará tão sujo e degradado que poderá até se confundir com esse lodo e tornar-se fétido e feio; se, porém, está voltado para o alto, pode-se dizer que se encontra elevado. Pois onde está o seu tesouro, aí estará o seu coração, conforme ensina-nos Cristo.
Como vemos, então, a unidade do homem ou aquilo nele há de mais profundo é simbolizado pelo coração. É deste que surgem os delitos, os adultérios, os assassínios, a mentira, o roubo, a fraude, o ódio, e isto porque é desde o seu âmago que sua potência esmagadora se inclina aos falsos bens que são enxergados nesses pecados como convenientes ou bons. Portanto, aquilo que o coração do homem tem por tesouro ou razão da sua vida determina a sua atividade individual, a formação do seu caráter, o seu aperfeiçoamento ou degradação. Determina, por fim, a sua salvação ou condenação eternas.
Quanto a estas, sabemos que todos nos condenaríamos ao Inferno se não dispuséssemos dos auxílios da graça divina do Espírito Santo. Receptáculos e comunicadores eficazes dessas graças, sobretudo a principal, que nos torna filhos de Deus por adoção, ou seja, a do Batismo, são os Sacramentos instituídos por Jesus Cristo, nosso Senhor.
Tudo o que Jesus mereceu por nós, para nossa salvação eterna e redenção e santificação, brotou da fornalha ardente de amor que é o seu Sagrado Coração. É pelo amor divino infundido nas nossas almas – a caridade – que nossos atos podem ter valor sobrenatural e meritório em ordem à nossa salvação eterna e santificação, ou transformação interior, porque pela caridade amamos a Deus por ser Ele infinitamente bom e amável em Si e por Si mesmo, ou seja, por sua Bondade infinita. É um amor que ultrapassa as exíguas capacidades de nossa natureza humana e que só nos pode ser concedido pelo próprio Deus.
Cristo, como Cabeça da Santa Igreja, que é seu Corpo Místico, derrama sobre seus membros todas as graças, como “óleo derramado da barba de Aarão a escorrer”. Pelo influxo vital do seu Sagrado Coração, inundado de todas as graças e com a plenitude do Espírito Santo, o Senhor possibilita-nos os auxílios necessários a que nosso coração se transforme por meio de uma ratificação sobrenatural do seu amor basilar, ordenando-se inteiramente a Deus e à sua glória, de forma que, estando ratificado o amor, e amando-se o Sumo Bem, que é sumamente amável, haja uma transformação interior profunda e sobrenatural na alma, chamada santificação. Não é preciso dizer, aqui, que o coração mesmo é que é transformado, conforme Deus promete por meio do Profeta Ezequiel, em tempos antigos, ao dizer que “Dar-vos-ei um coração de carne”, ao derramar sobre nós o seu Espírito, para que amemos e nos livremos do nosso coração de pedra, isto é, incapaz de amar verdadeiramente o que é amável com ordem, portanto incapaz de transcender e de aperfeiçoar-se, expandir-se na dinâmica vital da caridade em direção ao Céu – porque a pedra, do reino mineral, simboliza algo extático ou preso a este mundo, incapaz de mudar e sem vida, portanto sem capacidade de transmitir vida, como faz um coração saudável e flexível.
Esses dons inefáveis de transformação interior, salvação e redenção foram-nos concedidos por Cristo em seus sofrimentos, na sua Paixão, pelo amor infinito com que se entregou à morte para salvar-nos e, sobretudo, para glorificar o Pai celestial justificando o homem decaído e chamando-o, novamente, à vida eterna. É do seu Coração que brotam os Sacramentos, fonte de graças inefáveis; do seu Coração sacratíssimo jorram Sangue e água na Cruz, após o soldado traspassá-lo impiedosamente, simbolizando a abertura do Reino dos Céus para nós, da fonte imensa do amor divino derramado em nós sob a forma de graças vitais e santificantes, transformantes, o estabelecimento dos alicerces da Santa Igreja Católica, Esposa castíssima de Cristo, e sobretudo a Santíssima Eucaristia, porque daquele Coração brota um Sangue sagrado que se doa, que nos lava, que vem até nós para dar-nos a vida eterna.
Hoje, Sexta-feira da Paixão, às 15h, recordamos o momento em que Nosso Senhor suspira e entrega o seu espírito ao Pai. Seu último suspiro é o novo sopro da vida nas nossas narinas, a vida da graça, o gérmen da vida eterna. E seu Coração traspassado e esmagado por nossas culpas é aquele a que devemos configurar-nos para fazer desenvolver-se em nós, em plenitude, esta vida divina que nos é concedida.
Em silêncio, por amor, escutemos o Senhor dizer-nos: Filho, dá-me teu coração (Provérbios XXIII).


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