A luxúria é um dos sete tradicionais vícios capitais, que boa parte das pessoas conhece ao menos difusamente. Ela possui íntima relação com a gula, por estar voltada a uma desordenada saciação do apetite concupiscível. De fato, ambos são desordens neste apetite.
Assim é definida a luxúria no Catecismo da Igreja Católica (1992):
É um desejo desordenado ou um gozo desregrado do prazer venéreo. O prazer sexual é moralmente desordenado quando é buscado por si mesmo, isolado das finalidades de procriação e união.”
(CIC-2351).
Por esta razão, este é um dos vícios que mais animalizam o homem, visto que o torna incapaz de enxergar nitidamente a verdade, a bondade e a beleza, transcendentais do ser, cuja contemplação só é possível a seres dotados de intelecto. Busca-se o prazer por si mesmo, apartando-o do que lhe confere sentido e valor existencial.
Podemos dizer que o vício da luxúria é caracterizado essencialmente por um uso desordenado das potências sexuais do homem, que então passam a ser utilizadas não segundo a ordem da razão (ou da realidade), senão segundo um veemente apetite egoístico e insaciável. Trata-se de um vício diretamente oposto à virtude da castidade, chamada por muitos de virtude celestial ou angélica por sua profunda dimensão espiritual, uma vez que submete ao espírito o apetite carnal mais poderoso do ser humano, o da sexualidade.
Curiosamente, um dos efeitos da luxúria é precisamente o desespero, que também costuma ser classificado, com muita razão, como uma das conseqüências – gravíssimas, diga-se de passagem – da acídia, que é um vício de caráter particularmente espiritual.
Sucede que ambos os vícios dilaceram a concepção que o homem tem da realidade, amputando-a e recortando-a segundo interesses egoístas. Com efeito, a luxúria produz um real e grave entorpecimento da inteligência, tornando-a incapaz de enxergar verdades elevadas, sobretudo as que se referem à nossa salvação eterna, enquanto o acidioso, por sua vez, tem horror a tudo quanto diga respeito a estas, especificamente pela filha da acídia chamada rancor.
Ademais, em ambos os casos, toda vida espiritual legítima é descartada do horizonte de anseios do indivíduo vicioso, de forma que este fica, tragicamente, encerrado nos limites da materialidade e, perdido em sua insuficiência, faz-se, não obstante, um redentor de si próprio.
Como, porém, a vida contraria os seus anseios egoístas, facilmente o luxurioso cai em abismático desespero, incapaz de encontrar saída da prisão em que se encontra para entregar-se ao que lhe poderia conceder uma luminosa esperança e inquebrável sentido de vida. Fazendo-se redentor de si mesmo, ou atribuindo a si mesmo a consecução do fim da sua existência, ao ver-se caído ou incapaz não pode senão sucumbir à idéia de que lhe é impossível ser efetivamente feliz. E de fato: que se pode esperar do homem entregue às próprias forças, sem auxílio divino?
Em grande parte, espiritualmente falando, a depressão, mal tão conhecido e sobre o qual tanto se fala hoje em dia, está ligada a uma profunda incapacidade de o indivíduo perceber um sentido vital legítimo para sua existência em torno do qual configure toda a sua personalidade por meio do dom de si mesmo ao objeto amado, ao qual sua vida é oferecida como em oblação de amor, dádiva de gratidão àquele a quem se deve absolutamente tudo. E sem entrega de si a Deus não há como esperar a felicidade ansiada.
Ora, quando alguém já não é capaz de enxergar um tal sentido para sua vida nem vê como pode alcançar a felicidade, nada o consegue mover suficientemente a ponto de fazê-lo tecer com autenticidade sua história rumo à eternidade; nessas condições, aliás, o vastíssimo horizonte desta se perde e parece não mais que um quimérico ideal sem fundamento na realidade. Por outro lado, esta se lhe torna essencialmente hostil, má, alheia a seus anseios, ou os próprios anseios de tal indivíduo se tornam alheios a ele próprio.
Sem luz, não há senão trevas, e, de certa forma, as trevas não existem: parecem simbolizar o abismo do nada, do qual, por assim dizer, “saímos” e ao qual tendemos quando nosso ser inteiro não se orienta a Deus, o Ser por excelência, em Si mesmo subsistente e de máxima plenitude e perfeição. Pois bem, e de onde vem essa falta de luz?
Em primeiro lugar, pode vir de um apego demasiado intenso a este mundo, aos prazeres mundanos, às honras vãs e às riquezas — note-se que tudo isso corresponde quer aos objetos das três concupiscências a que as Sagradas Escrituras se referem, quer, em parte, aos três inimigos do homem, também elencados na Bíblia. Este apego obstrui nossa capacidade humana de enxergar a verdade do ser, isto é, de contemplar a realidade à luz da verdade, em toda a sua profundidade e extensão, em seu mistério ao mesmo tempo luminoso e sombrio — cuja parte obscura, porém, não assombra quem à Santíssima Trindade adere pela fé; porquanto o mistério da realidade não nos é hostil: está sob o império da infinita Sabedoria divina, da divina onipotência.
Dessa forma, sem se enxergar mais que o que nos fornecem os sentidos, todo juízo a respeito da vida fica viciado, envolto de trevas, correspondente a um número cada vez mais restritos de aspectos do ser; e o homem, aproximando-se assim da bestialidade, corrói seu interior na feiura do pecado e já não encontra em que se apoiar mais que neste mundo perecível e fugaz, cujas delícias passam como um castelo de areia em meio de tempestade. E então, faltando-lhe luz, como poderia trilhar a senda da existência com esperança de alcançar o termo ao qual aspira naturalmente, se até este se lhe tornou uma impossibilidade, um suposto engano?
Quando tudo parece ser hostil ou mau, tudo se torna causa de tristeza e desgosto; se tudo é causa de tristeza, nada é bom, nada convém ao homem; portanto, para que continuar a viver se supostamente nada tem razão de ser, nem sentido, nem valor? É evidente: porque todo homem quer encontrar o sentido de sua existência, para que a veja justificada e iluminada, é que, faltando-lho, sucumbe ao desespero.
Pois bem, a luxúria é um dos vícios que mais colaboram a que isso aconteça, porque obscurece a inteligência, como já foi dito, ao encerrar seu olhar apenas em coisas perecíveis, enfraquece a vontade, tornando-a incapaz de amar verdadeiramente, de escolher o que é amável, de deleitar-se na beleza, sobretudo de repousar, confiantemente, em paz, no Coração de Cristo, fonte de todas as graças, cujo pulsar dá vigor, força, cor, luz, tudo à nossa existência; Coração sacratíssimo, cujas sístoles e diástoles sustentam o cosmos, incluindo o cosmos da nossa interioridade, da nossa humanidade… Com uma existência tão esvaziada e empobrecida, todo sabor vital se vai perdendo para o luxurioso, que então cada vez mais tende a buscar, desesperadamente, sua felicidade em ninharias; seu desespero decorre precisamente de que estas nunca lha concedem, sendo, pelo contrário, como água a escorrer por entre os dedos da mão que a tente agarrar.
Essa imagem da água a escorrer por entre dedos que a tentam segurar, transposta para o mundo concreto, diz respeito, sobretudo, quando não a casos graves de depressão, pelo menos à busca ansiosa e enfadonha, mas exteriormente atrativa e aparentemente agradável em vista do termo a que se costuma chegar, de uma plenitude fugaz, que se quererá, logo depois de seu termo, repossuir ao menos virtualmente, ainda que às vezes explicitamente, quando já sequer o corpo a busque; uma falsa plenitude por sua perecibilidade, por seu objeto vil – um prazer egoísta – e pela autodestruição que está por detrás de sua busca.
Essa plenitude, por ser condicionada a uma série de coisas e sumamente fugaz, apesar disso pode ser repossuída na medida em que os atos que a provocam são repetidos. Nessa continuidade de ações pecaminosas subjaz uma profunda necessidade de satisfação desordenada, que é fundada numa terrível e, às vezes, inconsciente ilusão; além disso, é daí que se dão as várias manifestações da vida luxuriosa propriamente vida: uma série de ações nas quais se busca o que elas mesmas não podem dar. Podem, contudo, fazer vislumbrar o objeto verdadeiramente desejado, digamos, a felicidade, a plenitude; e, como se busca na felicidade perfeito repouso e estabilidade no bem amado, embora que de modo perfeitíssimo segundo cada natureza, cada ser, quem a funda na luxúria não pode senão encontrar nessas momentâneas plenitudes continuamente repetidas uma possibilidade vital de repousar, numa curiosa instabilidade estável, no objeto amado, ou no repouso amado, por meio de uma entrega de si mesmo a esse abismático cenário de incertezas e degradação humana, de falta de compromisso, de amor verdadeiro, de bondade, de harmonia interior.
Como se dá esse repouso psicológica e concretamente? Por meio da consciência de que é possível obtê-lo por meio das ações que lhe correspondem, de que essas ações são possíveis, inclusive relativamente fáceis, repetíveis e que produzirão, certamente, o efeito esperado. Nisso se fundam todas as esperanças vitais do indivíduo luxurioso; já não se pensa em outra coisa a não ser nisso; tudo na sua vida se orienta ao contingente e por isso se dissolve.
Apenas em Cristo podemos encontrar a nossa felicidade, e é a felicidade que o luxurioso busca. Deve, pois, reorientar o seu coração à verdadeira fonte da felicidade: não o mundo e seus enganos, nem prazeres egoístas, mas Deus mesmo.


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