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Mas o que é um escrúpulo de consciência? Na raiz etimológica desta palavra – scrupulum –, tem-se a noção de uma pequena pedra, suficiente para entrar em calçados e ali permanecer, incomodando os pés e atrapalhando o caminhar, mas sem impedir de todo o movimento. É distinta da skandalon dos gregos – aquela grande pedra de tropeço que se põe à frente do caminhante e impede-lhe a ultrapassagem ou fá-lo cair a ponto de querer regredir ou ficar inerte. O scrupulum na verdade acompanha quem caminha, paralisando-lhe o vigor, e permanecendo nos pés – ponto de contato com a terra –, é uma presença persistente. Este é também o simbolismo da palavra “escrúpulo”, que, precisamente, é uma ideia fixa, intrusiva, obsessiva, persistente, de natureza moral – um vão temor de pecar oude se ter pecado sem fundamento objetivo ou racional.
A escrupulosidade, pois, é o ambiente psíquico favorável à entrada ou formação dessas pedrinhas – ou dessas ideias vãs, mas incômodas e prejudiciais. A natureza dessas ideias, em tese, é sempre prática, ou de consequência prática quando muito teórica. Não somente é prática como moral, isto é, com valor de personalidade. Por sua vez, a compulsividade é o mecanismo compensador operativo do incômodo causado pela pedrinha – um modo de reagir-lhe à presença hostil. Ainda seguindo uma linha simbólica, o caminhante acometido dessas pequenas pedras pode reagir- lhes ao incômodo compulsivamente, tentando livrar-se delas tirando-as a todo instante, ou sacudindo os pés, ou pulando, ou simplesmente suportá-las até adquirir uma resistência natural a elas, ficando os pés rijos e robustos.
De forma mais concreta, quando os escrúpulos de consciência são persistentes e duradouros, e variam bastante, indicam a presença de Transtorno Obsessivo-Compulsivo, um dos vários transtornos de ansiedade catalogados e classificados pela Psiquiatria moderna, o qual atinge, no Brasil, aproximadamente 2% da população.
Em Psicologia, um transtorno, como o próprio nome indica, é uma desordem, uma irregularidade funcional da cognição ou da volição – do entender e do querer, com tudo que isso implica. No caso do TOC, esta desordem dá-se nos mecanismos comportamentais de produção ou assimilação de ideias práticas ou teóricas e de reação, ofensiva ou defensiva, ao que elas significam quanto ao passado e ao futuro e ao presente. Sua origem é complexa e envolve fatores neurogenéticos, sociais, fisiológicos, traumáticos, educacionais e até de personalidade.
Todo mundo precisa possuir algumas ideias fixas ou persistentes, ou habitualmente presentes, de maneira consciente ou inconsciente, e mecanismos de defesa mais sutis relativos a perigos futuros, sendo a ausência desses mecanismos um defeito fundamental que dificultaria a sobrevivência e o desenvolvimento de qualquer ser humano.
Portanto, a obsessividade e a compulsividade caracterizam- se sobretudo como formas desordenadas de estruturas cognitivo-volitivas naturais e necessárias à vida psíquica.
Com efeito, o TOC é uma grave disfunção desses mecanismos, pela qual a produção e interpretação de ideias ou estímulos externos e internos, no cérebro, aconteça em um ambiente psíquico neurotizante ou “obsessivante”, daí surgindo comportamentos de defesa irracionais intensificados face a ideias assim postas e fixas em nossa memória, atreladas a algum símbolo de perigo ou incompletude.
Assim, em Psicologia, o escrúpulo de consciência é uma ideia obsessiva, um conteúdo cognitivo de caráter temível (que alerta para uma reação ante um perigo real ou imaginário) cuja presença desperta um mecanismo de defesa na psique, a qual reage, muitas vezes, de forma arbitrária, buscando ações mais ou menos correspondentes ao perigo alertado dentro de um repertório de segurança imaginativo.
Essa ação seria capaz de proteger a pessoa do mal que a ideia obsessiva representa ou constitui. E como esta não atende à razão, fá-lo-á somente à bestialidade ou irracionalidade histérica – o enfermo se verá a repetir ações que reconhece como absurdas e inúteis e com as quais ele não se identifica moralmente, mas que se perpetuam como um modo de compensar a deficiência motriz regente da razão, naquele momento, em identificar e induzir a melhor conduta perante o problema.
A compulsão, seja qual for, sinalizará ao cérebro que tudo está bem, porque será o único meio de autoconvencimento afetivo de que o sistema nervoso disporá nas crises obsessivas.
A zona psíquica da qual o escrúpulo provém é normalmente permeada de crenças subjacentes de periculosidade, de incompletude ou ausência que deve ser preenchida. Como a razão não controla o fluxo ansiogênico desses temores obsessivos, o próprio organismo trata de criar, à sua maneira, mecanismos associados com segurança independentemente da correspondência objetiva e causal disso na pessoa e no ambiente em seu entorno.
Na ausência de símbolos de segurança saudáveis e enraizados, criam-se novos arbitrária e comportamentalmente, quando o ciclo da obsessivo- compulsividade é fortemente alimentado pelo medo e pela angústia. Esse é um dos motivos por que os teólogos de Moral e Ascética, durante séculos, viram na obediência cega do escrupuloso um tratamento bastante eficaz contra seu mal, uma vez que obedecer e confiar na figura de autoridade do diretor espiritual é um modo de criar simbólica e afetivamente a camada faltante ou deficiente na psique, de forma a permitir uma automização e capacidade de “autoautorização” da consciência do enfermo a partir da autonomia e autoridade de outrem em quem se confia – um elemento externo racional e exemplar a partir do qual a personalidade enferma se moldará.
Note-se que os mecanismos de defesa da consciência frente aos escrúpulos costumam ser verificações prévias da moralidade de uma ação que se deseja fazer ou que se crê dever fazer, ou verificações valorativas posteriores à já ação consumada. Raciocina-se sobre se aquilo será ou não pecaminoso, ilícito, avaliam-se as circunstâncias, as próprias intenções, antes e depois de agir-se. E na impossibilidade de chegar-se a conclusões confiáveis – porque já não se confia no próprio bom senso e porque está-se em um estado de profunda indecisão interior –, consultam-se sacerdotes e outras autoridades confiáveis em matéria de Moral; liga-se-lhes, manda-se-lhes mensagem; abrem-se livros de Casuística e de Teologia Moral, entra-se em uma rede interminável de pensamentos hipotéticos e confusos, e busca-se finalmente não apenas a resolução do caso concreto em questão como também de todos os análogos futuros possíveis, a fim de não se ter mais preocupação com aquela questão complexa.
Há nisso uma necessidade de certeza absoluta quanto ao agir moral, quanto ao saber o que fazer, pois geralmente se crê que a condenação eterna da alma se pode imputar sem que nos apercebamos, por “desleixo de consciência”, ainda quando se possua um sincero desejo de cumprir a vontade de Deus. Por isso, essa ideia subjacente da condenação súbita ou inadvertida, por atos morais cometidos “sem conhecimento ou advertência”, o escrupuloso busca vasculhar a própria mentalidade, as ações passadas, presentes e futuras, a ver se há brechas para condenação inadvertida – a ver se não é pego desprevenido no julgamento, sendo acusado de negligência ou de
imprudência. Ele verificará então, e buscará certeza nisto, se está no caminho certo, se não está cedendo aos próprios caprichos quando não age compulsiva e histericamente, se tem puras as intenções, e assim por diante. A possibilidade de estar em erro atormenta-o – pois estar em errado lhe implicaria na condenação. Perceba-se quão difusamente se vê o perigo ou objeto temível nesses casos; todo o conjunto da ação é “obsessivado”, verificado, assim como são verificadas, por alguém com TOC, as trancas das portas de sua casa antes de sair para a rua, ou como se verifica se as bocas do fogão foram mesmo desligadas, uma, duas, três vezes. A diferença é que, neste último caso, a compulsão é mais externa, identificável e fácil de combater.
A escrupulosidade tem a particular dificuldade da abstratez de seus conteúdos e motivos implícitos. Provocando um estado de alerta a perigos imaginários e se vendo a si mesma como principal inimiga, a consciência escrupulosa obriga-se a uma reordenação mental caótica: tudo de duvidoso lhe deve ser esclarecido e “resolvido”. É por isso que ao terapeuta ou diretor espiritual dar respostas longas às questões postas pelo escrupuloso é ineficaz em termos de tratamento. Estar-se-á apenas respondendo a uma postura obsessivo-compulsiva, a um pedido de socorro sem objeto realmente temível. Isso quando não se foge do medo por ter-lhe medo – um ciclo sem fim e retroativo.
Inicialmente no tratamento, será bastante útil, conforme se apresente conveniente, infundir um símbolo e uma atitude gerais unificadores no paciente. Tudo está-lhe caótico, confuso e múltiplo; um ou dois princípios gerais devem bastar-lhe para agir, enquanto se renuncia à resolução ativa de cada dúvida ou obsessão. Deve-se buscar imprimir um retorno à simplicidade de mente e de ação, habituando o escrupuloso a decidir com mais rapidez e sem cálculos, por uma intuição prática sadia, a qual deve ser construída aos poucos.
Estas são algumas breves considerações teóricas sobre a natureza da escrupulosidade, amigo leitor. Deixo-as aqui, assim como disponibilizarei estes parágrafos em meu blogue Lux Aeterna, por saber que alguns outros profissionais se valerão deste pequeno guia ou livro em suas terapias. Mas, como prometi, abaixo deixarei algumas orientações úteis para quem está sofrendo de escrúpulo ou TOC.
1) Pergunta-se com frequência: “Estou com escrúpulos de consciência, e toda vez que me vêm pensamentos impuros, eu fico angustiado e julgo ter pecado. Não sei o que fazer. Como saber se pequei nesse caso?”.
Ora, vejamos. Se alguém chega a ter escrúpulos de consciência, com alta probabilidade dá sincero valor à fé e à moral e já é fiel à Igreja ou, pelo menos, está convertendo-se e querendo mudar de vida. Do contrário, não se temeria o pecado por imaginar certas cenas sexuais (aquelas que não envolvem parentes ou absurdos). Se se teme isto, é porque reconhece-se que é coisa ilícita. Em outras palavras: a pessoa leva a sério a fé e não quer pecar. Não é a mesma coisa que alguém indiferente à fé e à moral que cultiva, de forma desordenada, imagens sexuais para deleitar-se nelas. Na maior parte das vezes, quem faz aquela pergunta foi invadido, contra a sua vontade, por imagens inconvenientes e tentou dissipá-las – às vezes sem sucesso.
Esta simples consideração é suficiente para que nós cheguemos à conclusão de que, havendo dúvida de se houve ou não consentimento naquelas imagens, é porque não houve consentimento. Serei ainda mais claro: quem peca gravemente ou consente em imagens impróprias, a ponto de alimentá-las propositadamente, deleitando-se nelas, sabe que pecou, tem certeza evidente de que pecou. Poderá sobrevir-lhe um remorso, ou o desejo de confessar-se, mas nunca a dúvida de se pecou ou não. Quem se masturba nunca pergunta se houve ali pecado. Agora, em se tratando e pensamentos, a coisa pode parecer mais etérea e difícil de avaliar, mas a verdade é que o mesmo critério se aplica: a dúvida do escrupuloso, quanto a uma ação, significa que ela não foi pecaminosa – ou ao menos mortalmente pecaminosa. Pois quem peca sabe que pecou. Pecar mortalmente é um ato da vontade e da inteligência; toda a personalidade está envolvida nesse ato: o indivíduo sabe que tal coisa é errada e ilícita, e mesmo sabendo-o, quer realizá-la e de fato a realiza. Não é coisa que se faça “por engano”.
Assim, o escrupuloso deve seguir este critério: Na dúvida de se consentiu ou não em tais desejos ou imagens, é lícito, justo e necessário presumir que não houve consentimento nem pecado mortal. Não será necessário, nem razoável, recorrer a quaisquer memórias ou análise do ato para chegar a essa conclusão. A bem da verdade, ficar relembrando essas circunstâncias será um ato compulsivo e doentio. O critério da dúvida para consciências escrupulosas é universalmente validado pela Igreja. É direito de quem está mentalmente enfermo valer-se dessa prerrogativa, em paz e sem receios de errar.
O que se deve fazer, pois, é ignorar a dúvida, apesar da angústia que isso causará, não fazendo o ritual (compulsão) a que essa dúvida leva (analisar a ação feita, as circunstâncias, perscrutar a memória e os movimentos psíquicos do momento, etc.). Por fim, se se duvidar da própria dúvida, isto é, “Será que duvido mesmo ou tenho certeza?”, interrompa-se esse círculo vicioso obsessivo imediatamente: a mesma conclusão se lhe aplica. Duvidar da própria dúvida, ou não ter certeza de não ter certeza, tudo isso cai sob o mesmo critério: ignore-se da mesma forma, e tenha-se que não houve pecado mortal.
2) Não se repita a mesma confissão já realizada por crer que a anterior foi inválida por não se terem mencionado alguns pecados esquecidos. Esquecer pecados na confissão não a invalida: é um ato humano e compreensível. A única coisa exigida é que se faça o devido exame de consciência prévio à recepção desse Sacramento. Tendo sido feito o exame, sem excessos nem agonia, tudo que vier a ser esquecido terá sido perdoado: a confissão não se invalida por esquecimento, seria absurdo conceber algo semelhante.
Confessar-se deve ser feito com sobriedade, calma e tranquilidade – toda ansiedade e angústia aí indicará já um excesso que deve ser combatido e evitado. Não é um ato complexo e extremamente sutil, do contrário não seria um meio ordinário de recebermos as graças que Nosso Senhor Jesus Cristo nos obteve na Cruz.
3) Se durante o dia aparecerem memórias infindáveis sobre pecados antigos não confessados, e se isso o induz a criar uma lista que jamais termina, mesmo você já tendo feito uma confissão geral, você está dispensado de fazer essas anotações ou listas. Você tem o dever de não fazer isso, pois seria uma compulsão e induziria sua mente a produzir falsas memórias – coisa típica no Transtorno Obsessivo-Compulsivo. Nesses casos, limite-se a fazer um breve exame de consciência antes da próxima confissão. Não se deve torturar a consciência enferma exigindo-lhe muito mais do que ela pode dar. Não é isso que a Igreja pede.
4) Caso a oração seja feita com distrações, não é preciso refazê-la até se certificar de sua “perfeição”. Distrações não “invalidam” a oração. Há escrupulosos que rezam dezenas de vezes a mesma oração – um Pai-nosso, por exemplo – até terem a garantia subjetiva de que o fizeram da melhor forma possível, para que seja “aceita” por Deus.
Para chegar a Deus, a oração não requer nossa concentração – evidentemente. É útil concentrarmo-nos, mas a muito custo o escrupuloso conseguirá fazer isso; então, que lhe valha a intenção de rezar bem perante Deus, utilizados os devidos meios para isso, sem excesso, sem recursos desnecessários. Não se deve fazer da oração um ato supersticioso ou mágico. Na dificuldade de rezar, ofereça-se a Deus a angústia como uma forma de entrega de si e da própria vida. Diga-se a Deus: “Senhor, não estou conseguindo rezar nem me concentrar. Aceitai minhas humildes palavras, ou meu silêncio, pois é o que vos consigo oferecer agora”, e Nosso Senhor se agradará dessa prece humilde.
Esses conselhos gerais são de grande valor e devem ser levados a sério pelo escrupuloso.


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