Finalidade do prazer segundo Sertillanges

Este fragmento de uma obra de Sertillanges, que traduzi anos atrás, para acrescer como nota a meu primeiro livro, “O importante é ser feliz? Felicidade, relativismo contemporâneo e outros temas” (disponível neste link), é excelente para entender o mecanismo de atuação básico do vício em pornografia e outros objetos nocivos à sanidade mental e espiritual, de tal forma que, fiéis a nosso compromisso de ajudar as almas a livrarem-se da escravidão da pornografia, tudo que convir a este fim será publicado em nosso blogue, seja a título de simples reflexão psicológica, filosófica ou puramente neurológica. Em breve, ampliaremos nossos esforços nessa direção de orientação terapêutica e psicológica.

A reta filosofia do prazer é libertadora. Segue abaixo o fragmento mencionado, do livro “As fontes da crença em Deus”, o qual nossa editora publicará em breve (de forma inédita):

“Ademais, não vemos que a natureza estabeleceu os deleites com a finalidade de obter as operações? Não é isso evidente, dada a maneira como ela dosifica aqueles segundo a importância destas? O instinto animal, que não conhece esta ordem, não pode adaptar-se a ela; não pode mais que cair nessa feliz armadilha que, por meio de deleites como recompensa, o faz trabalhar por um bem superior a eles. Porém, a razão eleva-se a maior altura: concebendo o bem em sua noção universal, ela percebe também suas diferenças e pode graduar nestas seus valores. Estabelecido este discernimento, a retidão consiste, para ela, em não transtornar os termos, senão em entregar-se ao bem e em tomá-lo por fim na medida em que é bem, ou seja, em buscar primeiramente o honesto, que é bem por si e que vale por si; em segundo lugar, o deleitável, que se lhe agrega e que é bem sob sua dependência; em terceiro lugar, enfim, um e outro em sua unidade, ou seja, a ordem; já que, como se disse tantas vezes, o bem da ordem é superior a todo bem particular integrante da mesma ordem.

Segue-se disso, em primeiro lugar, que o hedonismo ou moral do prazer é um desvio, já que é um transtorno dos fins e dos valores do ser; já que o homem desta doutrina, em lugar de estar contente por ser uma ou outra coisa, de haver feito um trabalho, realizado um bem, está contente simplesmente por estar contente, contente por gozar, e é isto para ele a última palavra. Quer dizer, evidentemente, que sua atividade não tem objeto; porque gozar não é um objeto, pelo menos primordialmente, é o repouso em um objeto cujo valor faz o do repouso mesmo.

Tomar assim como objeto primeiro o repouso e o gozo do apetite, subordinando a eles o objeto que os busca, é abusar de suas faculdades e torcer seu exercício natural. Uma faculdade não pode ter por objeto primeiro seu próprio ato. O olho não tem por objeto primeiro o ver, senão a cor; pois todo ato de ver é ato de ver algo, e este algo solicita a faculdade anteriormente ao ver mesmo. O objeto primeiro é o que define a faculdade; ora, como se quer que uma faculdade seja definida por seu próprio ato quando este ato somente tem característica e espécie devido ao objeto? O objeto próprio de toda faculdade apetitiva é, pois, antes de tudo, um bem exterior a ela. Sua própria quietude neste bem, o gozo, não pode ser boa a seus olhos, como o é com efeito, senão pela bondade deste primeiro objeto cujo gozo é uma espécie de gosto.”.

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