Nos parágrafos seguintes, deixaremos algumas considerações feitas com o objetivo de serem desenvolvidas amplamente em cursos e palestras de Teologia Ascético-Mística. Logo que essas aulas forem ministradas, o autor as colocará aqui anexas.
Uma vez que se trata apenas de excertos sumários, breves e pontuais, recomenda-se que o leitor os utilize (sinta-se à vontade para fazê-lo) com o intuito de estudos aprofundados posteriores do tema. Também o autor (Enzeo Emmanuel dos Santos) concede permissão para republicação em qualquer blogue ou “site”, desde que com as devidas referências.
Introdução a conceitos básicos de Espiritualidade
Palestras, cursos e resumos
I
Que é a vida espiritual? Que são as três vias? Qual é a essência da vida espiritual? Como podem ser descritos os processos pelos quais passamos além de chamando-os de vias? Em que sentido se relacionam com o Batismo? – Na medida em que desenvolvem a vida da graça depositada em nós no Batismo. E que é o Batismo? Pois bem, respondamos a todas estas perguntas.
Primeiro, façamos uma distinção entre via ascética e mística: naquela, nossas ações têm efeitos bastante visíveis, precisamos realizar grande esforço, enquanto na via mística os Santos sofrem a ação de Deus; é mais passiva, portanto, porque já houve as purificações ativas e passivas iniciais da alma.
Todas estas vias, porém, são transformantes e preparam-nos para ouvirmos a voz de Cristo e unirmo-nos a Ele. É um processo essencialmente mortificante.
II
Quando Cristo nos liberta de Satanás, manda-nos ao deserto – são as primeiras moradas, a ascese, nas quais nossas paixões interiores estão ainda desordenadas. Já recebemos a palavra e a fé; agora, temos de crescer nisto pelo Pão da vida – o maná perfeito. Então poderemos caminhar até que a última paixão desordenada enfim morra.
Um ato jurídico é incapaz de fazer-nos participar da Vida de Deus, assim como um cachorro não pode brincar de participar da vida de um ser humano – seria uma ilusão. Atestar juridicamente a cura de uma ferida ainda existente não faz que esta deixe de existir; é necessário um médico.
Temos em nós todos os elementos da Criação; mas a natureza divina não o é. Se temos todos os elementos da Criação e nenhum deles corresponde aos atos dos Santos, é porque o que temos é sobrenatural.
Deus quis redimir-nos inteiramente, levando-nos ao Céu junto com toda a Criação, nós, que somos resumo dela. O ser humano precisa submeter a si o universo para sacrificá-lo e levar a Deus o que é de Deus. Esse é o sacerdócio de Adão e Eva: sacrificar aquilo que se domina e entregá-lo novamente a Deus.
Satanás sabe que não pode sacrificar todo o universo, ao passo que nós sim, reis do universo. Assim, uma das primeiras consequências do pecado foi justamente a escravidão a que ficamos sujeitos: de nós mesmos e da Criação. Isso por inveja do demônio. Moisés queria que o povo ficasse livre do Faraó para que pudesse servir a Deus. Isto é, livre do demônio e da escravidão de si próprio, para que pudesse prestar culto a Deus – sacrificando-lhe o que é Seu por direito. Assim, para que pudéssemos sacrificar todo o nosso ser a Deus, Cristo precisou livrar-nos da escravidão do demônio.
Da graça santificante
O significado da palavra “graça” está ligado à bondade e à benevolência de alguém. Dito de outro modo, supõe uma relação entre duas pessoas, uma das quais concede à outra um dom, que é então agradecido por ser uma graça.
Para que haja efetiva comunhão entre dois seres, é necessário haver compatibilidade entre ambos, uma receptividade mínima que faça que um deles seja capaz de receber a bondade do outro, como uma forma de amizade, ao haver amor, conhecimento e bens compartilhados semelhantes. Esses bens devem ser, de alguma forma, da mesma ordem: o conhecimento, o amor, a vida. Deve haver alguma igualdade para haver amizade.
Assim, pela união a que somos chamados no céu, união perfeitíssima de filhos ou esposa, Deus molda nosso ser de forma a que, haja vista nossa potência obediencial, sejamos capazes de comungar de sua vida e de nos unir a Ele de forma sobrenatural e mais profunda, em proporção com o fim sobrenatural que Ele nos designou. É uma causa divina (ação divina) que produz em nós efeitos divinos (a graça santificante), bem como um instrumento inanimado pode causar efeitos de ordem superior por ser meio de um ser superior, como o homem. E a natureza humana é conservada, sanada e aperfeiçoada ao ser aporte deste novo ser que lhe confere a graça.
Existem disposições específicas em nós que nos permitem agir de certa forma. Essas disposições são hábitos ou capacidades. Ora, hábitos são precedidos por uma natureza ou um organismo, um princípio radical ou formal do qual derivem. Este princípio ou disposição habitual (forma habitual na alma) é a graça, que produz um organismo com atos próprios, de forma a que possamos agir divinamente sempre por termos uma disposição permanente para tanto.
O servo participa de modo imperfeito dos bens do patrão, enquanto o amigo participa de uma comunhão perfeita com o que o amigo é, quer dizer, é aperfeiçoado pelo que amigo é sendo mais semelhante ao amigo. Há uma hierarquia de participação e fruição de bens. Já o filho tem direito aos bens do pai por via de geração ou de filiação: é direito de natureza ou de geração por ser o que é, enquanto o servo pode tê-lo por direito de mérito ou congruo (conveniência).
A esposa participa da posse que o esposo tem sobre seu próprio corpo. Tem um conhecimento direto dele, de sua intimidade, não do que dizem dele ou do que ele faz, mas conhecimento do que ele é por revelação e experiência direta de uma participação maior dos bens do esposo.
Dos bens do patrão o servo só pode se valer numa participação limitada, jamais como posse dele. Assim, a fruição é menor; pois dispomos mais dos bens de algo quando somos donos desse algo.
É pelos laços de proximidade, semelhança que há maior comunhão entre os pais e os filhos; estes participam mais perfeitamente dos bens daqueles e da vida mesma daqueles. O amor daqueles os transforma mais porque se comunica mais a eles e se dirige mais perfeitamente a eles pelo laço natural de vínculo.
Ora, o mesmo ocorre com o laço sobrenatural da graça.
Da fé
Pela meditação, temos de chegar à profundidade de ouro; mas para isto requerem-se recolhimento, paz, quietação das paixões desordenadas. Não adianta ter o olho – a fé infusa, a capacidade de ver – se não tenho a luz para enxergar – a fé exercida. Tenho de dar ocasião de a luz ser acesa – pelo recolhimento, silêncio, quietação das paixões. Quando você imagina, ainda não está na verdade: está na prata. Quando exercitamos a fé, ela cresce e, com ela, todas as demais virtudes.
Da infância espiritual
Em que consiste a infância espiritual? Não é numa ingenuidade forçada ou literalmente infantil, mas num reconhecimento sincero e profundo do coração humano de que tudo é graça e de que dependemos absolutamente de Deus para amá-lo e exercer atos meritórios.
Por exemplo, a filha quer dar um presente para o pai no dia de seu aniversário. Ela, porém, sendo criança, nada tem efetivamente: tudo de que ela dispõe é do pai e das demais pessoas, não dela. Nada é propriedade dela. Porém, querendo presentear o pai, ele há de fazer um plano para que isso seja possível sem que ele o perceba. O pai dará à menina um valor por um trabalho insignificante e mal feito por exemplo – lavar a louça. Ela disporá, então, de um pequeno valor, com o qual poderá comprar um presente para o pai. Que mérito ela terá se tudo isso foi o pai que lhe possibilitou? Não há proporção entre o que ela fez – a louça – e o que ganhou – o valor em dinheiro.
Dos votos evangélicos
Obediência: fé; castidade: caridade; pobreza: esperança. Porque se você é pobre, você vive de esperança.
Pobreza, esperança e memória. Quando a memória traz à tona aquele ato de fé ao longo do dia, cresce a pressa para orar e estar com Cristo – eis a esperança.
Alma, ferida, quer então encontrar o Amado porque só Ele pode curar essa ferida. Episódio do Cântico dos Cânticos (memória que deixou; ela sai e vai procurá-lo).
Ele quer o desejo. É uma recordação amorosa que faz com que sua vida continue fixada no Único Necessário. A vontade instiga a memória a recordar. Porque caso não se a possua naquele momento, aumentam-se o desejo, a vontade, a esperança. A memória recorda o bem que não possuo. Este desejo de possuir o que não temos é a pobreza. Pois a pobreza é nada possuir; no momento, não temos a visão beatífica; eis a pobreza. É ter consciência disso e ter profundo desejo de só ter isso.
Santidade, desapego e ordo amoris
I
Esta aula de introdução a conceitos fundamentais de Teologia Espiritual ou Ascética e Mística tem por base a doutrina espiritual de São João da Cruz, conhecido como Doutor Místico, um dos mais importantes Santos do século XVI, época da Reforma Protestante e da Contrarreforma, nascido em um pequeno município na província de Ávila, na Espanha, chamado Fontiveros. Junto com Santa Teresa d’Ávila, fundou a Ordem dos Carmelitas Descalços por meio de uma reforma na Ordem Carmelita.
A doutrina espiritual de São João da Cruz não é outra coisa a não ser um aprofundamento daquilo que Nosso Senhor mesmo ensinava quando insistia na necessidade de renunciarmos a nós mesmos, tomarmos nossa cruz, dia após dia, e segui-lo. Para ilustrá-la resumidamente, eis aqui versículos importantes:
Não ajunteis para vós tesouros na terra, onde a ferrugem e as traças corroem, onde os ladrões furtam e roubam. Ajuntai para vós tesouros no céu, onde não os consomem nem as traças nem a ferrugem, e os ladrões não furtam nem roubam. Porque onde está o teu tesouro, lá também está teu coração. […]
[Nosso coração se move, com efeito, em direção aonde está nosso tesouro, ou seja, nosso bem maior ou fim último, onde consideramos que se encontra nossa felicidade. Permanecerá, pois, inquieto a buscá-lo nesta vida, sem, porém, encontrá-lo; frustrar-se-á sempre e perceberá que todas essas coisas são perecíveis (“a traça e a ferrugem corroem”) ou sujeitas a perdas (“os ladrões roubam”) por não serem interiores. Pois não pode ser mais perfeito um bem exterior do que interior, um bem do corpo que da alma; quando esta serve àquele, torna-se-lhe semelhante no sentido de que adquire sua dependência da matéria e de coisas volúveis e indiferentes a si].
Ninguém pode servir a dois senhores, porque ou odiará a um e amará o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e à riqueza.
[Ou seja, a Mamon, que significa “cobiça” ou “riqueza”, sendo no Evangelho apresentado como um ídolo, uma espécie de divindade adorada, à qual tudo se sacrifica – exatamente o que se vê nos dias de hoje nos casais que sacrificam a salvação de seus filhos e de si mesmos em função da obtenção de cada vez mais bem-estar material ilusório].
Portanto, eis que vos digo: não vos preocupeis por vossa vida, pelo que comereis, nem por vosso corpo, pelo que vestireis. A vida não é mais que o alimento e o corpo não é mais que as vestes? Olhai as aves do céu: não semeiam, nem ceifam, nem recolhem nos celeiros e vosso Pai celeste as alimenta. Não valeis vós muito mais que elas? Qual de vós, por mais que se esforce, pode acrescentar um só côvado à duração de sua vida? E por que vos inquietais com as vestes? Considerai como crescem os lírios do campo; não trabalham nem fiam. Entretanto, eu vos digo que o próprio Salomão no auge de sua glória não se vestiu como um deles. Se Deus veste assim a erva dos campos, que hoje cresce e amanhã será lançada ao fogo, quanto mais a vós, homens de pouca fé? Não vos aflijais, nem digais: Que comeremos? Que beberemos? Com que nos vestiremos? São os pagãos que se preocupam com tudo isso. Ora, vosso Pai celeste sabe que necessitais de tudo isso. Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça e todas estas coisas vos serão dadas em acréscimo. Não vos preocupeis, pois, com o dia de amanhã: o dia de amanhã terá as suas preocupações próprias. A cada dia basta seu cuidado.
[…]
Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta e espaçoso o caminho que conduz à perdição e numerosos são os que por aí entram.
Estreita, porém, é a porta e apertado o caminho da vida e raros são os que o encontram.
[É largo o caminho da vida biológica ou, mais especificamente, da vida mundana, porquanto está em conformidade com nossas paixões e desejo de onipotência: é tão largo quanto nós mesmos e nossa ambição; é do nosso tamanho, tamanho determinado por nós ou consentido por nós, em razão de nossos caprichos e adesão a estes. Enquanto o caminho da vida eterna, ou seja, zöe, é aquele que se dá pela renúncia a nós mesmos, pela qual nos esvaziamos de nós, assemelhando-nos a Cristo e fazemo-nos semelhantes a Ele em seu esvaziamento (kénosen), conformando-nos a Seus desígnios e cumprindo Sua Vontade, não a nossa. É um estreitamento de nossa vontade e uma expansão de nosso coração em vista da eternidade. Isto se dá pela ascese inicial dos principiantes ou daqueles que se encontram na via purgativa].
(Cf. Mt VI-VII)
Pois bem, diante disso, devemos abordar, esboçadamente, alguns conceitos fundamentais a respeito da vida espiritual de forma a podê-la compreender melhor, para o que nos valeremos, em primeiro lugar, de três imagens empregues por São Francisco de Sales, autor de uma das mais excelentes obras sobre a vida espiritual já feitas, a Filotéia.
No início desta obra, o Santo ensina-nos que todos devemos aspirar à devoção, independentemente do estado de vida que tenhamos – aqui, entra o chamado universal à santidade, que o Concílio Vaticano II tão bem consolidou e esclareceu para nós.
Para classificar, pois, alguns dos graus da verdadeira devoção, é preciso saber de que se trata a devoção. Em segundo lugar, precisamos ater-nos à seguinte imagem: o grau iniciante da devoção equivale ao voo da galinha; o intermediário, de um pássaro de voo baixo mas estável; e o avançado, de uma majestosa e intrépida águia. Este símbolo lembra-nos de uma bela passagem de São João da Cruz em que este Santo diz que um passarinho cuja pata esteja presa a um fio não conseguirá voar, independentemente se são muitos fios ou um só que o esteja impedindo de alçar voo. Estes fios são os apegos às criaturas, é nosso coração apegado. Ora, o apego às criaturas deve ser combatido mediante o desprendimento de todo o criado, isto é, desprendimento afetivo, não efetivo, por um processo de despojamento interior, de vivência espiritual da pobreza evangélica.
Por outro lado, esse apego diz respeito ao sacrifício que devemos fazer de nós mesmos e das criaturas a Deus, em razão das desordens resultantes do pecado de Adão e Eva. Em nosso estado de humanidade decaída, sacrificar ou abrir as mãos para dar a Deus o que a Deus pertence, como imolação, é doloroso e gera feridas, porque estamos presos àquelas coisas. Mas o que devemos, fundamentalmente, sacrificar? Estas três coisas: 1) nossa vontade, o que se dá pelo voto de obediência – e pela vivência espiritual deste voto evangélico –; 2) nossos bens exteriores, pela pobreza; 3) nossa pureza ou concupiscível, pela castidade.
II
Aqui, trataremos da necessidade específica do despojamento interior ou da pobreza espiritual, tão bem vivida por Santa Teresinha. É o contrário das mãos fechadas e possessivas de Eva; são as mãos abertas de Cristo crucificado. Citemos um hino importante de São Paulo e a passagem do Jovem Rico (Filipenses II, 6; Marcos X, 13, 17; XII, 41).
O que torna possível e efetivo este despojamento interior é o amor. O amor é o princípio radical das atividades aperfeiçoativas do ser humano; assim como a alma é princípio vital, que concede ao ser domínios de vida e faculdades próprias com atos próprios, o que acomoda a atividade do ser a um objeto específico ou ideal é o amor, de modo que as faculdades que provêm do princípio espiritual que é a alma são aperfeiçoadas pelos atos a que são levadas pelo amor. Daí que o amor transforme a imaginação, a memória, a atenção, a cogitativa, o corpo, o mundo externo, a inteligência e a vontade.
Todo aspecto negativo da vida espiritual, aquele de início, pode comparar-se à lei física segundo a qual dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço. Dando-se isto, com efeito, e se forem antagônicos, algo desse espaço estará desvirtuado pela presença de um ou mais elementos antagônicos, que bem se poderiam substituir por outro compatível ou por um acréscimo de elemento excelente e correspondente ao fim do indivíduo – correspondência que é precisamente o que define a moralidade da ação humana, com tudo o que isto implica. Em termos mais concretos, poderíamos classificar estes elementos sobretudos como virtudes e vícios, sendo que estes devem ser removidos e aqueles, acrescentados, para que o espaço vazio seja corretamente preenchido.
Em nosso coração, sucede que esse espaço já tem uma finalidade própria, um tamanho exato, uma razão objetiva de ser. Por isso, deve ser preenchido por aquilo que disso é capaz verdadeiramente, sem o que não cumpre seu fim e, assim, não justifica sua existência ou não a afirma perfeitamente, entrando em desacordo com a harmonia cósmica e divina estabelecida pelo Logos divino.
Pois bem, preenchê-lo com aquilo para o que foi criado implica uma união do coração com algo que o faça transbordar, que o transcenda e que lhe seja compatível; daí a necessidade do estado de graça: afinal, não será compatível conosco aquilo que se ordene a nossos caprichos, mas aquilo que esteja inscrito em nossa natureza e atual condição, o que supõe a seguinte pergunta: qual é minha vocação? Naturalmente, todos a temos; sobrenaturalmente, também – e isto por uma ação benévola de Deus, que quis chamar-nos a um estado superior ao que nos encontramos atual e naturalmente. Portanto, há dois planos de vocação no ser humano: aquilo a que somos chamados pelo simples fato de sermos homens criados à imagem e semelhança de Deus e aquilo a que somos chamados pelo fato de sermos homens nos quais repousa um desígnio divino específico e totalmente livre, relativo a um chamado à vida sobrenatural divina. Como se vê, o último aperfeiçoa o primeiro, mas jamais o exclui.
Ora, as criaturas dispersam o coração, impedem-no de ouvir a voz do Senhor e tornam-no menos semelhante a Deus, pela incompatibilidade que há entre o inferior e o superior, entre a amizade e a inimizade causada pelo pecado, entre a transparência e a opacidade (causada pelas criaturas, pelo apego, pela mancha). Simbolicamente, podemo-lo expressar da seguinte forma. Imaginemos duas tábuas de vidro, uma de vidro opaco e outra de vidro transparente, límpido. Aquele cuja natureza mais se assemelha à da luz é o que é mais límpido ou transparente, e por essa via de semelhança há maior compatibilidade entre ambos, de forma que, ao receber o impacto da luz, esta o penetra e o aperfeiçoa, como que se confundindo com ele. Além do mais, a luz, que por si é límpida e una, ao entrar em contato com uma natureza inferior – a do vidro –, manifesta o caráter múltiplo desta aperfeiçoando-a: por isso os vitrais, que transfiguram a luz límpida em vários raios coloridos, retratam bem a multiplicidade ou imperfeição de nossa humanidade elevada pela unidade conferida a nós pela luz segundo nossa natureza, sem, contudo, violentá-la.
Com efeito, cada ato pecaminoso, a que conduz esses afetos desordenados, já que não estão sob o crivo do amor divino, contém em si sua própria pena: maior distanciamento de Deus pelo apego positivo às criaturas e, portanto, menor comunhão com Ele. Além disso, essa diminuição de comunhão, que implica um distanciamento real, torna a alma menos disposta a uma amizade íntima com Deus, uma vez que surge entre ambos uma maior incompatibilidade ou distanciamento, que, podendo ser supresso por Cristo, não o é por um ato positivo da criatura. Então a relação a que o homem é chamado com seu Criador se lhe vai tornando amarga, pois só se ama servir a quem se ama, e, quando o amor a Deus diminui, também servir-lhe se torna fastidioso – em termos mais concretos: praticar a virtude e rezar diariamente. Isto gera, naturalmente, um ciclo vicioso.
Por outro lado, sucede na vida espiritual algo semelhante ao que se dá nas relações humanas, que com o tempo vão exigindo de nós certo esforço para não caírem em fastio e rotina a nossos olhos e coração. Parte desse esforço está no conhecimento que se dá pela fé, a fim de nutrir o amor, o que não se pode dar senão mediante uma conduta elevada pela graça e conforme às leis de nossa natureza; requer, portanto, novamente, prática assídua de oração e exercício das virtudes teologais e da mortificação purgativa. Além do mais, não é preciso insistir em que, com respeito a Deus, tanto o conhecer como o amar são potencialmente infinitos para nós: que não ajamos em conformidade com a infinita amabilidade divina é imperfeição nossa, desordem.
Mas, voltando às relações dos homens entre si e com Deus, vemos que, nestas, cada ato pecaminoso ou não conforme à estrutura de uma real amizade ou concórdia, diariamente, gera um verdadeiro afastamento de nosso coração de Deus e do próximo; nós mesmos o vamos afastando inconscientemente, até que se torne um hábito inclusive, o que é ainda mais grave. Chega um momento em que parece já não haver relação amorosa verdadeira, mas apenas algo mecânico, árido, amargo, morto, como quando somos diariamente humilhados por alguém com quem convivemos: no momento em que não mais queremos ficar em sua presença, o que de início se manifesta por um afastamento físico cada vez maior, nesse momento é que quem nos ofende percebe um dos efeitos de sua falta: a discórdia, distanciamento de corações, e isto constitui para ele uma pena, que será tanto maior quanto mais intensa for a consciência tomada do bem que se está perdendo com isso e do contraste que há numa vida em que esteja ausente aquele indivíduo a quem se ofende. Assim, em se tratando de Deus, este amor será máximo necessariamente por nossa natureza, embora na terra se possa dirigir às criaturas; sua perda, portanto, no Inferno implica um sofrimento proporcional.
Ora, toda ação gera uma conseqüência potencialmente contrária ao oposto daquilo que lhe é incompatível. Por exemplo, o impacto das rochas com o vento não é compatível em termos de estas permanecerem incólumes quando se trata de uma ação duradoura. Cada impacto gera em si um efeito progressivo, uma consequência proporcional ao nível de incompatibilidade. Sendo esta pequena no caso da rocha, há apenas leve perda de matéria; quando é contínua – habitual –, há perda habitual de matéria – de força, de ser; é o caso do vício, por exemplo, que é incompatível com a perfeição da natureza humana. Pecar torna-se habitual, e ocorre que existem ventos existenciais necessariamente por todos os lados, isto é, situações adversas que só podem ser assimiladas por uma posse e instalação pessoais, na realidade, (autodomínio) relativas à força que se tem atual ou potencialmente – as propriedades da rocha. Aqui entra, naturalmente, o auxílio da graça divina em nossas almas.
Assim, tanto mais pecamos, tanto mais nos tornamos semelhantes aos pecados que praticamos, mais perdemos nossa humanidade (propriedades de ser humano ou delineamento vital, como a rocha perde algo de seu delineamento e se assemelha à ação do vento nela, na medida em que, por exemplo, tal ação repercute mais em tal ou qual parte dela, com tal ou qual intensidade ou profundidade; assemelhamo-nos a um elemento externo hostil, incompatível conosco mesmos) e, pior que isto, nossa possibilidade de sermos dóceis à ação da graça, como se estivéssemos tornando nosso terreno natural impróprio para a frutificação vital e elevação ontológica acidental que quer o Espírito Santo operar em nós.
Esta frutificação, por sua vez, pode ser expressa mediante um simples recurso simbólico, aliás bastante utilizado nas Sagradas Escrituras: a ação do fogo sobre o pão, ou do homem sobre o pão; ou, enfim, o processo por meio do qual se faz qualquer pão. Além disso, pode-se usar também, como recurso, o processo natural de crescimento de uma semente até tornar-se uma árvore frondosa, a ação dos raios solares sobre ela e dos demais elementos que devem ser assimilados em vista dessa consecução final – desta aquisição ou posse atual do fim último, que é o repouso ou cessação de atividades vitais da árvore frondosa em ordem a seu fim quando ela já é uma árvore frondosa, porque então suas ações não estão mais em ordem a algo ainda não adquirido, senão que já repousa nesta aquisição, tendo cessado suas atividades e chegado à perfeição. Porquanto toda ação assimilativa e interna da semente não está em ordem à consecução desse fim por sua natureza mesma? Embora cada ação particular vise, imediatamente, a determinado resultado próximo, este só tem razão de ser na medida em que diz respeito ao resultado final, isto é, ao fim último incluso na natureza mesma do processo assimilativo mediante o qual se obtém esta consecução ou se chega a esta plenificação ontológica de sua essência. Isso ilustra por que em toda ação humana necessariamente subjaz um fim último que a fundamenta.
Estes pecados trarão em si a consequência de uma oposição a seu oposto – o amor a Deus – e às disposições que o tornam mais praticável – as virtudes – por via de maleabilidade, e deles surgirão maior afeto às criaturas, do que surgirá precisamente um coração dividido, orientado tanto às criaturas como a Deus, se é que não se tenha pecado mortalmente, de forma que tal coração se torna escravo de outras coisas e perde sua unidade, beleza e verdade, estando dividido como quer Satanás, autor de toda divisão e discórdia.
Porquanto duas coisas incompatíveis – dois corações em dissonância – não suportam permanecer muito tempo no mesmo lugar sem que uma tome predominância com seus atos próprios, e nisto na medida mesma em que, em razão destes ou de artifícios positivos, vai expulsando seu oposto; aquele que tiver maior força no coração será quem predominará, sufocando opressivamente o inferior, ainda que este inferior o seja apenas acidentalmente, quanto à sua predominância existencial ou primazia em tal ou qual indivíduo em particular. Além disso, o amor não apenas iguala o amante ao objeto amado como também sujeita o primeiro ao segundo, de forma que sua ação fica condicionada à manutenção da posse deste, submetendo-se a suas condições ou caprichos e tomando, por participação, algo de seu delineamento vital, desaperfeiçoando o sujeito que ama.
III
Chegando ao tema da fé, temos nas Sagradas Escrituras inúmeras referências a esta virtude, que é de suma importância. Mas, em primeiro lugar, convém que nos detenhamos um pouco numa análise breve do conhecimento e do amor, para entendermos a necessidade de cultivar a fé teologal que recebemos no Batismo e como podemos intensificá-la em nossas almas. Porque diz um antigo princípio: Ama-se apenas o que se conhece.
Em primeiro lugar, façamos uma analogia entre o que se dá na ordem da fisiologia humana ao alimentarmo-nos.
Sucede que sempre se disse que pelo conhecimento trazemos as coisas exteriores a nós, a modo de semelhança ou representação mental em nosso intelecto, enquanto pelo amor nos movemos em direção ao objeto amado por via de doação, tendo-o em nós não como imagem passível de contemplação, mas impulso de atividade de doação e configuração à sua excelência, ao bem que ele é. Portanto, o amor é princípio de união e configuração interior, manifestado claramente na união física do abraço por exemplo.
Quando estamos com fome, há uma série de coisas que não podemos fazer. Todo católico deve jejuar pelo menos duas vezes ao ano, no início da Quaresma e na Sexta-feira Santa. Sabe bem que a experiência do jejum é bastante mortificante, porque causa cansaço, sono, um incômodo muito concentrado no estômago e que se estende para o corpo todo, tirando-lhe o vigor. É que, à falta de alimento, o corpo perde ânimo, perde como que o princípio ativo de suas atividades por alguns instantes.
Assim, sem alimento, torna-se difícil agir, doar-se, trabalhar. Torna-se difícil toda e qualquer atividade, e toda atividade é impulsionada pelo amor.
Mas, quando nos alimentamos trazendo o que é exterior para dentro de nós, assimilamos suas propriedades e isto nos dá vigor e força. Vemos retornar a nós o princípio de nossa atividade, recobramos ânimo. E então podemos fazer o que é próprio do amor: doar-se e agir em direção a fora. E isto porque colocamos dentro de nós um alimento. O alimento fortifica não por si mesmo, não para que contemplemos apenas nossa boa disposição, mas para que a usemos em favor do que amamos, cumprindo nossos deveres.
De modo semelhante, quando conhecemos trazemos algo do mundo exterior para dentro de nós e o assimilamos. Esta verdade se imprime no nosso intelecto e alimenta-o. Diante da presença desta verdade, sentimo-nos como que alimentados. Se é uma verdade muito profunda (alimento bastante nutritivo e revigorante), diante dela terei um impulso de amor profundo ao objeto que lhe corresponde (a Deus, aos Santos, à Santa Igreja). Se for uma verdade profunda mas superficialmente assimilada, não terei tanto vigor para mover-se em direção a tais realidades. Se for uma verdade de caráter amoroso e unitivo, que nos apresenta a grandeza de Deus, é como um alimento excelente que nos predispõe a ações nobres (a uma doação de amor nobre). Se for uma verdade em si superficial, é como um alimento que, embora podendo ser saboroso, nos predispõe a amores supérfluos e perecíveis (ações insignificantes e pouco duradouras).
Pois quando tomamos café nos sentimos dispostos a ações enérgicas, porque tal é a natureza dos nutrientes do café; quando tomamos um chá de camomila, porém, sua natureza é causar sonolência ou relaxamento: não dispõe à ação. Assim, se a verdade for espiritual, dispor-nos-emos a ações espirituais, a uma entrega espiritual, a uma configuração com esta verdade espiritual – ser justo, ser nobre, ser fiel, ser temperante, ser humilde, etc.; se for sobrenatural e a virmos com certa clareza, como quando Deus ilumina nossa inteligência, tenderemos a configurar-nos ao amor que enxergamos por detrás delas, que é o amor divino. E configurar-se ao amor divino é a mesma coisa, no caso do ser humano, que ter as mesmas disposições do Coração de Cristo, haurindo dele tudo quanto necessitamos, assim como haurimos dos bons alimentos disposições análogas às suas potencialidades naturais: do café, disposição e clareza mental; da carne, vigor para trabalhos árduos; dos alimentos excessivamente gordurosos, indisposição e cansaço e assim por diante.
Aqui vemos que a verdade nos alimenta e acende em nós o amor. Sem que conheçamos certas verdades, não amaremos aquilo que corresponde a elas. Sem que conheçamos profundamente a Jesus, como podemos amá-lo verdadeiramente? Não teremos alimento necessário para acender em nós o princípio de ação que nos leva a configurar-nos com aquele que amamos. É como se não houvesse lenha o suficiente para manter aceso o fogo de uma fogueira. Mas, quanto mais lenha houver, e quanto melhor esta for, mais exuberante e consistente será o fogo – assim, quanto mais excelente e consciente o conhecimento, maior o amor.
Porque, diante da luz da verdade, nosso coração percebe que onde há luz há calor. E ele quer aquecer-se. Um coração frio é um coração que não pulsa mais: está morto. E o princípio vital do amor começa pelo conhecimento: não se ama o que não se conhece.
Mas, para que tenhamos claramente diante de nós estas verdades, não basta que simplesmente as memorizemos ou que as aprendamos superficialmente: precisamos meditá-las intensamente, segundo nossas necessidades e possibilidades, a fim de darmos ocasião a que o Espírito Santo aja em nossas almas e, por meio de uma graça atual, uma moção no nosso organismo sobrenatural, ilumine nossa inteligência – dando-nos maior clareza com respeito a uma verdade de fé – e, assim, convide nossa vontade, então fortificada pela iluminação da inteligência, que exercerá maior poder de moção sobre ela.
E, como o amor é unitivo, e como um dos resultados de toda união é a realização de certa semelhança entre os amantes e inclusive de um ser que compartilhe das semelhanças de ambos, igualmente nos assemelhamos ao que conhecemos porque só amamos o que conhecemos e nos configuramos ao que amamos. Configuramo-nos, portanto, de certo modo, ao que conhecemos. Se conhecemos coisas mesquinhas, amamos coisas mesquinhas e tornamo-nos mesquinhos.
Nosso horizonte de consciência fica restrito a realidades de ordem puramente pragmática. O que nos parece bom é o que conhecemos pelos sentidos e que nos dá prazer. Amamos, então, apenas isso e nada mais.
Além disso, o amor é voluntário. Não podemos pensar na virtude teologal da caridade, no amor a Deus, como algo que nos é imposto à força. Deve ser voluntário, e para que amemos voluntariamente precisamos conhecer qual é o fim a que aspiramos. Este conhecimento não se dá claramente, por uma visão intelectual de evidência, mas pela fé, ou seja, é um conhecimento de algo que não enxergamos por evidência.
É natural que tenhamos, no estado presente, de submeter-nos a Deus pela fé, assim como quando ensinamos algo a alguém costuma-se crer, de início, pela nossa autoridade extrínseca, e não porque tenha entendido de imediato. Faz parte da natureza das coisas um crescimento paulatino, um processo do imperfeito ao perfeito. Assim, nosso conhecimento vai do imperfeito (sem clara visão) até o florescimento na vida eterna, pelo lumen gloriae.


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