Todo mundo já deve ter passado pela experiência de ouvir alguém dizer sobre outra pessoa: Ela está cega de paixão, afirmação para a qual se aludem os mais diversos motivos, reduzindo-se porém todos ao denominador comum seguinte: a avaliação unilateral de um ou poucos aspectos, apenas, de um objeto, dirigida por um ou mais sentimentos. Inúmeros casamentos fracassam e chegam ao perverso e ilusório (quando se trata de Sacramento) divórcio por conta disto, ou seja, do fato de que o namoro e noivado que o precedem geralmente estão tão imbuídos de sentimentos imaturos que o casal se torna cego para os defeitos um do outro, ou, dito de outra forma, para a realidade que ambos são chamados a tornar-se. Efetivamente existe a constante possibilidade de sermos facilmente enganados pelo que sentimos, porque os afetos se movem diante da verdade sensível de um aspecto da realidade e a vontade, tornando-se cativa dessa consideração parcial, é convidada (ou impelida) a aderir ao bem sensível que lhe aparece como conveniente hic et nunc, ou seja, aqui e agora.
Podemos sentir-nos impelidos a entregar-nos a um objeto que nos mova os sentidos intensamente e justificar esta ação sob a afirmação de que teremos alívio posterior e que o nos inquieta deixará de mover-nos e inquietar-nos, atualmente e ulteriormente. Isto, porém, é falso e provém tanto da pressão que as paixões sensíveis veementes exercem sobre a vontade para que a inteligência considere apenas um aspecto do problema — que seria o de supostamente livrar-se do que a oprime ou abraçar algo certamente “inocente” — como de ação demoníaca, de tentação diabólica propriamente dita, pela qual a imaginação é movida a imbuir-se e embriagar-se de tal forma dos aspectos convenientes do objeto desejado que, obscurecendo a atividade ordenada da inteligência, toma ela, de certa forma, o papel desta para que sua avaliação instintiva se torne motor da vontade.
Nesta dinâmica, tanto a inteligência como a vontade espirituais ficam entorpecidas e mais fracas, sujeitas ao domínio de quaisquer paixões que surjam com força. Obscurecida a inteligência, já na ordem sobrenatural surgem problemas: a virtude teologal da fé se exerce com mais dificuldade e encontra terreno hostil à iluminação que ela deve fazer, por exemplo, no que diz respeito à Misericórdia de Deus e à eficácia da graça, dos Sacramentos e da prática das virtudes ornada pela caridade. E, enfraquecida também a vontade, sua ação regente torna-se mais fraca sobre as paixões, especialmente porque, não enxergando bem a verdade da realidade tal qual é, por conta das trevas em que se envolveu a inteligência, aderiu às falsas justificativas a que elas a levaram. E assim é que, falando mais concretamente, costumam surgir estados profundos de desânimo, pois, diante do chamado à salvação e à mudança de vida, por exemplo, o indivíduo em tais condições ou se desespera ou desanima, porque pensa que para ele não há possibilidade de alçar-se aos céus da virtude e da disciplina, pensamento este — ação da inteligência — que gera uma ação ou uma inação — ação da vontade —, a qual pode ser ou entregar-se completamente aos vícios, ou abismar-se num desespero e desânimo aterradores, por ver-se escravo das próprias paixões. Finalmente, como ninguém pode permanecer muito tempo em tristeza e aflição sem que busque um bem com que se consolar, a satisfação das suas paixões — ligadas ou subordinadas ao seu defeito dominante — aparecerá hic et nunc como única esperança de alegrar-se, de viver, de expandir sua atividade anímica às coisas reais (ainda quando não tão reais assim…) em vez de comprimir-se em si mesmo num certo esmagamento interior.
Não é raro que isso aconteça com pessoas que têm problemas de luxúria e veem nesta uma evasão eficaz de suas angústias e amarguras. Sabe-se bem que um dos efeitos próprios deste vício é dissolver a clareza com que a inteligência enxerga a realidade e, por conseguinte, o sentido mesmo da vida, num mútuo influxo de corrupção da vontade, da inteligência e da afetividade, tornando-se esta infecunda e particularmente desordenada. A virtude que se lhe opõe, a castidade, não sem razão é chamada de virtude angélica, fazendo alusão à pureza da vontade e capacidade penetrativa da inteligência dos anjos agraciados. Ora, ocorre que, conforme dissemos mais acima, sob o influxo da luxúria, quando surgem no coração um abatimento paralisante pelo desânimo, sendo a inteligência obscurecida e não havendo luz para que a vontade se mova sob seu calor, há a tendência de considerar-se a castidade como antídoto ineficaz para combater a luxúria, uma vez que então a vontade estará sendo fortemente movida por impulsos sensíveis e pouquíssimo pelas luzes da verdade e da graça. E como o que parece eficazmente movê-la, para dar evasão ao natural desejo de expansividade do ser humano, são apenas paixões veementes, aquilo a que não estejam ligadas estas parece ser incapaz de servir-lhe de tratamento. Com efeito, não se subtraindo aos sentidos e, com um ato firmíssimo e como que puramente volitivo de decisão e adesão do ser inteiro àquilo que, ainda que hic et nunc estando pouco presente em sua luminosidade e em sua potencialidade de fazer reverberar a corporeidade, rejeitando completamente a avaliação passional de que está tudo perdido, o indivíduo não consegue perceber que, apesar da aparente ineficácia sensível imediata dos atos próprios da castidade, porque podem estar imbuídos de dor e sofrimento, uma vez que será difícil praticá-los e que isto implica em conter o ímpeto do apetite sexual, que é tão forte, ele não pode perceber, dizia, que cada ato desta virtude, embora realizado secamente, é caminho eficaz para um porvir em que o hábito da castidade se consolidará e dar-lhe-á inclusive alegria e paz.
É necessário haver luta, sangue, suor e lágrimas para que a virtude surja. Sem isto, estas perfeições próprias das faculdades humanas não podem florescer gloriosamente como marcas distintivas de um coração ordenado. É verdade que, no momento da tentação, parece difícil suportar, ou quase impossível de suportar, por muito tempo — pela vida inteira — a pressão e a dor causadas inicialmente pela mortificação das paixões em ordem à aquisição das virtudes, mas esta avaliação momentânea do nosso homem velho, segundo a linguagem de São Paulo, não deve, em hipótese alguma, suprimir o ato contrário àquele a que a paixão induz, senão que deve ser contraposta pela esperança volitiva e seca de que é a partir dessas pequenas mortes interiores e confrontos que essas paixões desordenadas vão perdendo sua força e dando lugar a uma paz interior e a um caráter robusto e firme. Pelo contrário, a idéia de que é satisfazendo a essas paixões que elas se acalmarão é absolutamente errada e mesmo, às vezes, colocada pelo demônio nas almas, e amiúde uma justificativa da inteligência movida pela vontade submissa às paixões que esta quer justificar. Aqui se verifica, na ordem da interioridade humana, quanto é verdadeira aquele dito segundo o qual a guerra precede a paz. Se o indivíduo se rende ao inimigo sob pretexto de que quer estar em paz com ele, verá que se tornará seu escravo e lhe estará sujeito sempre, não tendo assim qualquer paz verdadeira, sobretudo quando a consideramos em sua capacidade de implicar aquietação da vontade no objeto amado, e não se pode dizer que quem escraviza ama o escravizado e que este ama seu opressor pela concordância volitiva de ambos em um mesmo objeto de amor e no mesmo sentido. E por fim, quanto mais se alimenta um apetite carnal e desordenado, mais se o torna insaciável e faminto. Se se dá muito ao corpo, este vai exigir mais e mais; se se lhe recusam coisas supérfluas, porém, ele se verá contente com pouco e mais forte e vigoroso, obediente à alma.


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