Saudade, passado e eternidade: Um esboço sobre o anseio humano

O presente artigo é um breve esboço do que está amplamente desenvolvido e elaborado no opúsculo “Nostalgia da eternidade e a missão existencial da cruz: Reflexões místicas”, escrito por mim e ainda não publicado.

I

Todos nós temos de deixar para trás boas e agradáveis situações, que são um bem, para agarrar-nos a bens maiores, o que não raro é um doloroso sacrifício dos primeiros. É como quando deixamos nossa família, nossa casa, nossa doce terra natal para irmos a lugares distantes a trabalho, estudar, formar nossa própria família e assim por diante. Sabendo que não podemos conciliar a atualidade do gozo de estarmos em nossa terra natal com a bondade (advinda de certa necessidade) de vivermos em terra longínqua, como que quiséramos ou que nos fosse possível fazer as duas coisas ao mesmo tempo, quando a cidade em que passaremos a viver é também boa para nós além das razões de bem relativas ao trabalho, quando este é o fator principal da ida, ou que a unificássemos em uma só, num mesmo instante de gozo ou de posse. Porque então haveria muitos bens enlaçados na unidade da nossa consciência: perceberíamos a amabilidade de uma situação na qual atualmente estão inseridos vários bens. 

Isso também ocorre no âmbito da consciência ou da memória. Recordamo-nos do passado com nostalgia e suavidade muitas vezes, ainda quando o presente seja excelente. Podemos recordar nossos tempos de infância mesmo quando estamos satisfeitos com nossa situação atual de adultos casados, por exemplo. Não quereríamos sacrificar nossos bens atuais em ordem a que voltássemos ao passado, mas que o passado se nos tornasse atualmente presente, não apenas no âmbito da consciência, pois então só haveria nostalgia, uma vez que o veríamos como algo que já sucedeu, mas da realidade mesma, razão por que se pode acrescer, aqui, ao presente o selo de domínio da temporalidade que mais tem consistência e o que de certo modo fundamenta os seus dois polos: o passado e o futuro. O primeiro está atualmente presente apenas na consciência, mas não realmente, porque já não é. O segundo se encontra na mesma situação, pois ainda não é. Por sua vez, o presente está inabalavelmente atualmente presente na consciência e na realidade, porque é a consumação hic et nunc do que é, uma manifestação ou desvelamento da realidade em seu desdobramento temporal. 

Por isso, a nostalgia que se refere a boas e antigas experiências é como o suave odor da amabilidade já experimentada e que nos traz à memória suas delícias. Ela pode, em uma de suas formas, ser a aura na qual se inserem fatos insignificantes e indignos de recordação, ou pode ser o legítimo adorno e afirmação psíquica e humana da bondade do que já passou, mas que deixou uma marca indelével nesta pequena história humana que é nossa biografia. Fixar-se nela tão somente com melancolia e lamentações seria, então, como que desprezar o presente realmente atual em função da triste impossibilidade de reviver o presente passado além dos limites da memória e dos fenômenos íntimos da consciência.  

Quanto ao futuro, se esperamos algo dele em definitivo não é senão que o presente ou agora se transfigure e se torne ainda mais consistente, ainda mais dotado de ser ou de perfeições, quer internas, quer externas. Viver o futuro, em vez de saudade ou nostalgia, gera ansiedade, porque antecipa algo que só o desdobramento silencioso do presente é capaz de tornar atual ou real, e porque dispõe a alma a considerar fortemente a ausência ou o vácuo amargo do momento atual que queremos preencher e tornar mais vivível. Só se vive psicologicamente o futuro porque se quer viver o presente com maior intensidade, portanto. E isto é evidente: é como se o presente se apresentasse universalmente como o único capaz de dar à luz as perfeições da existência, quando não já as retém em seu seio; o futuro seria apenas um modo de situar esse parto temporal para nós. Com efeito, a palavra “ansiedade” está ligada ao verbo “ansiar”, ou seja, desejar algo – talvez com veemência doentia –, e o desejo supõe a ausência do objeto amado. Ausência onde? – Em mim ou na realidade externa – e particularmente no agora vital em que estamos inseridos. Essa ausência, como vimos, pode produzir tristeza (percepção da ausência atual do amado ou, dito de outro modo, presença atual de um mal), saudade (percepção da ausência do que já vivemos, razão por que é certa tristeza quando não alívio), ou medo (percepção da ausência de capacidades atuais ou meios de suportar um mal futuro próximo), e assim por diante.  

Baseando-nos no que foi dito acima, entende-se com mais claridade o início do presente texto. Ora, é da natureza mesma da nossa atual condição temporal e frágil que provém a necessidade de sacrificar bens em favor de outros, abraçando uma alegria sob pena da tristeza de abandonar algo que se ama. Daí que seja tão natural que encontremos uma consolação, ao deixar a pátria ou ao despedir-nos de pessoas que amamos quando morrem, em antecipando psicologicamente a atualidade do momento em que nos reencontraremos ou em que estaremos novamente todos juntos, tal como no passado. Não queremos abandonar por completo aquelas perfeições, aqueles amores dos tempos antigos, ainda quando atualmente haja perfeições maiores. Ora, perfeições maiores (às vezes relativas) não suprimem a bondade das menores necessariamente. Por exemplo, é relativamente bom tomar café da manhã em um restaurante de alta qualidade em uma cidade bela e organizada, mas esta experiência não satisfaz por si o desejo que possamos ter de voltar à antiga experiência de, por exemplo, nos alegrarmos ingenuamente com uma humilde refeição no campo, na casa de nossos avós, onde talvez houvesse uma carência geral muito maior que a do restaurante. Mas, nesse sentido, essa carência seria uma bondade, e uma bondade especial: era o que era, algo irrepetível – e àquilo que é verdadeiramente irrepetível nunca se admite substituição que implique em aniquilação do que se ama –, num contexto inalienável, portanto distinta da bondade do restaurante. Era uma carência adornada com a presença de pessoas e objetos amados, os quais talvez estejam ausentes naquele restaurante de luxo. Uma não anula a outra, mas certamente gostaríamos de ter ambos os bens, não simultaneamente em termos concretos, obviamente, pois isso ser-nos-ia impossível e impediria qualquer concentração da nossa atenção, mas na medida das possibilidades humanas, sem que um bem se viesse a perder para sempre, quer dizer, sem que o que para nós é irrepetível porque insubstituível, em sua unicidade ontológica, deixasse de repetir-se-nos a modo de manifestação ou concretização de sua presença. Porventura não é por isso que cada fase da vida tem suas alegrias próprias? Estas são a afirmação atual do nosso ser à bondade real e presente das perfeições do momento, e o fato dessas perfeições nos escaparem com tanta facilidade é o que nos pesa a alma, porque então é como se a sua afirmação espontânea se tornasse uma negação forçada: passou, não é mais, nem pode ser, apesar de relutarmos em querer que seja novamente! Quando escutamos uma música que nos faz estremecer o ser inteiro não costumamos querer ouvi-la novamente? Este bem escorre de nossas mãos, sedentas de manterem para si a bondade do que amam. E o que se mantém está, digamo-lo assim, à disposição; está certamente presente ou disponível para nós, em alguma medida.  

Precisamente, apenas no presente é que o amado pode ser possuído e desfrutado, conhecido e abraçado. Quando ele o é no passado, há saudade; quando o é no futuro, pode haver esperança, ou expectativa, ou ansiedade. Mas quando o é no presente há satisfação ou alegria, porque ele está presente a nós atualmente na plenitude do seu ser, do nosso ser e da realidade: isto sucede aqui e agora, isto é real, essa união é perfeita segundo sua natureza – razão por que o fato de o amado, quando se trata de uma criatura, estar presente na plenitude do seu ser supõe, por esta mesma razão, que o está também na totalidade da sua deficiência e debilidade, da sua pequenez e incapacidade de fazer-nos eternamente felizes.  

Muitas vezes, porém, julgamos que a nossa felicidade está em uma criatura, ou melhor, em um bem criado, porque parece-nos brotar deste bem um manancial de luz e perfeição capaz de prover-nos para sempre a nossa satisfação máxima. Certamente, fazemo-lo antes mesmo de ter as devidas experiências com este bem criado a que saiamos de nosso engano ao assimilá-las em sua justa medida, pois participamos da plenitude do que tomamos por fim quando experimentamos algo de seus similares imaginativamente ou nas nossas vivências cotidianas. Trata-se de experiências muito próximas e não raro sensíveis, que estão ao alcance de todos os homens. Podemos enxergar nelas um reflexo da glória suprema que será obter aquele bem sumamente amado, como ser maximamente rico ou famoso, fins nos quais plasmamos, ainda que sem saber, caracteres próprios da felicidade celestial sobrenatural. E assim, como é inevitável que o façamos todos, também essas pequenas experiências são adornadas com algo da eternidade, então vista sob o prisma de glórias mundanas e coisas semelhantes. Por outro lado, podemos com limpidez enxergar nos bens desta vida reflexos legítimos da eternidade à qual aspiramos como fim – na medida em que Deus mesmo se confunde com a eternidade. Por que razão, então, à primeira vista podemos enxergar na eternidade algo tedioso? 

Há inúmeras formas de rastrear o problema, e uma delas é considerando-o sob o seguinte aspecto. Seguramente, porque comparamos a eternidade com a experiência que temos do tempo atual, com suas fragmentariedades e debilidades, é que pensamos que ela é tediosa ou fastidiosa. Quando experimentamos um bem ou adquirimos uma perfeição, vemos que o tempo, como Cronos a devorar seus filhos, se estende e difunde seu domínio na medida em que se alimenta das nossas perfeições, das bondades que amamos. Diante dos bens múltiplos que supomos na eternidade, julgamos que a “infinita durabilidade” desta os sugará por completo e os tornará insuportáveis pela sua repetição e pelo desgaste que isso causaria neles e em nós. Mas é evidente que chegamos a tais conclusões quando pensamos na eternidade como o tempo sublunar estendido indefinidamente e sem novos fluxos de mudanças, na medida em que estas se contrapõem a uma monotonia geral, a um clima cinzento. Nossa condição diária de experimentar bens perecíveis e que só podem ser desfrutados de um modo progressivo com alternações entre descansos e outras tarefas faz que não conseguimos imaginar um bem absoluto, perfeitíssimo, uno e em si mesmo imperecível e inesgotável, nem tampouco, por conseguinte, na nossa condição de fruir de suas delícias pela elevação do nosso intelecto pelo que, em Teologia, se chama lumen gloriae. Plasmamos, num movimento algo inverso do que o que faz quem toma por fim último uma criatura, nesse bem infinito a bondade múltipla e débil das criaturas, julgando ser impossível que ele nos possa satisfazer por toda a eternidade, dado que logo se nos tornaria repetitivo ou cansativo, como quando não queremos mais comer, por fastio, certa comida pelo número de vezes em que a comemos diariamente. Nesse sentido, o mais próximo que teríamos de um bem permanente nesta vida seria a nossa liberdade de, vendo-nos insatisfeitos, buscar outras ordens de bens nas quais vivermos a fim de desfrutar de seus elementos progressivamente. 

Mas pensemos que todos aqueles bens recordados do passado, os possíveis, os presentes e os futuros estivessem de modo perfeitamente coeso presentes atual e realmente para nós, exterior e interiormente também, e pudéssemos desfrutar desta condensação de bens imensa com todas as nossas forças, e a afirmação dessa realidade fosse tão intensa em nós que o presente parecesse suspender-se numa atualidade sublime e imóvel que nos fizesse perder a sensação de que o tempo está passando e consumindo aquelas perfeições para si. Seria como que um presente estático de fruição perfeita num bem igualmente perfeito, por assim dizer, e a única coisa que faria então que um presente estático e o mesmo bem fruído continuamente se tornassem fastidiosos seria o fato de o tempo consumir-lhes a perfeição, de eles mesmos estarem sujeitos a isso por suas carências intrínsecas e de nós não nos subtrairmos por completo desta sua condição de debilidade, sendo nós também muito limitados. 

Considerando isto, então, acrescentemos à palavra nostalgia o complemento da eternidade para seguirmos com nossa reflexão. O que seria a “nostalgia da eternidade” que às vezes parecemos experimentar na nossa vida? Esta nostalgia não é recordar um passado não vivido como se ele nos tivesse manifestado realmente, mas sentir no coração um toque da fragrância da perfeição de que aqueles momentos eram símbolos fugazes e débeis, capazes porém de remeter-nos à realidade à qual servem modestamente com suas frágeis luzes. Dito de outro modo, nesta nostalgia vemos naqueles fatos passados uma certa semelhança com a eternidade porque quiséramos juntar aos desejos e perfeições do presente a amabilidade do que passou em síntese, e porque a época ou o momento do qual temos saudade já se nos apresenta não como um futuro próximo a manifestar-se e concretizar-se e ser fruído, mas como a concentração da amabilidade e bondade de várias alegrias e seus respectivos objetos num só instante, que costuma ser expresso por frases como “Naquela época da minha vida fazia tanto frio; víamos diariamente pelas ruas passar jovens casais de mãos dadas e sorrisos ingênuos no rosto”, pois então se tem de uma só vez toda a bondade de inúmeros seres num só instante presente, e isto de algum modo faz que pensemos na eternidade, porque uma aura de saudade percorre toda uma fase da existência, unifica toda aquela multiplicidade numa só declaração, de que era bom, de que passou e não mais voltará.  

Podemos também pensar da seguinte forma. Olhando para o firmamento em noite de céu aberto e fora do alcance das ofuscantes luzes da vida urbana, é-nos possível contemplar uma ou duas estrelas de uma vez, focar o nosso olhar em suas unidades sem nisto incluir qualquer princípio de unificação, e ao mesmo tempo podemos observá-las numa visão de conjunto, como que vendo-as a todas sem ver uma em particular. E este espetáculo é tanto mais admirável e estonteante quanto mais estão visíveis os astros e límpido o céu… Diante da unificação ou simplificação de todas esses antigos seres, vemos surgir uma bondade superior, a bondade da ordem deles, da sua redução e elevação ao que chamamos de céu estrelado, tanto mais perfeito quanto mais sintetiza em seu seio todas as estrelas e constelações; ou seja, trata-se de um bem consistente e denso. Se antes, pela vista de pequenas belezas, poderíamos descrevê-las uma a uma e dar-lhes um nome próprio, agora pela elevação da multiplicidade a uma deslumbrante unidade superior parece que não temos tempo nem palavras para descrevê-la; o primeiro impacto, a admiração que antecede as lágrimas ou o tímido canto de louvor que espontaneamente nascem diante do resplendor do ser produz uma absorção do nosso ser inteiro naquele objeto, e ficamos nele fixados, como que sendo convidados a participar da sua unidade sublime ao unificarmos a atenção e palavras, que de fato se reduzem ao nosso espanto e silêncio. Este então se apresenta como superior à linguagem discursiva, aos conceitos; o que sai de nós é uma palavra silenciosa, um verbo luminoso: a elevação tranqüila e pacífica do nosso coração, que se rende à Verdade e Bondade que então são contempladas em pálidos reflexos. Como fruto deste amor admirável, a paz se sobrepõe à inquietação, sendo esta um princípio de dissolução claro do ser, ao passo que aquela reflete a unidade deste.  

Ora, todo amor, quanto mais intenso é, mais absorve o ser; se este amor se apresenta como algo único – esta mulher, este filho que acaba de nascer, etc. –, não prestamos atenção mais, nos momentos de êxtase, ao transcorrer progressivo do tempo, às fragmentariedades das ações humanas, às vicissitudes do clima nem das nossas paixões: somos um só para um outro, e então parece que vivemos um só instante de amor, um condensado em que todo o nosso coração é derramado e elevado. Parece que uma gota dos céus da eternidade fecunda este presente em que o amado está conosco, e por isso algumas pessoas dizem de momentos irrepetíveis de suas vidas: “Era como se o tempo tivesse parado: foram cinco horas que não percebi passarem”. Esse detimento do tempo se dá pela elevação do coração, suspenso por sobre a multiplicidade do passageiro e do que ainda não foi assimilado na síntese superior operada pelo amor que o eleva.  

Como anteviam com eloquência os gregos, operar estas maravilhas na alma humana é próprio da presença da Beleza, que atrai e cativa o coração; reconhecer sua obra é uma ode à Verdade, que ilumina a inteligência; e render-lhe homenagem pelo devotamento do próprio ser é glorificar a Bondade, que tudo fecunda e, assim, eleva à perfeição os seres. Se pois a Beleza é tão fundamental, se ela aparece como algo determinante no amor que temos às demais criaturas, suprimi-la é criar condições a que a alma se fragmente, envelheça e morra de fome, sem ter onde haurir a consistência de que precisa para seguir vivendo em ordem a seu aperfeiçoamento. No Inferno reina a fealdade por excelência, enquanto o Paraíso é caracterizado por sua infinita beleza. Na verdade, para falar com mais precisão, o Paraíso é Deus mesmo, que é a eterna e subsistente Beleza… Não há como enfastiar-se de contemplar o sumamente e infinitamente amável, absolutamente rico em uma unidade tal que absorve por completo o ser amante, que já nada pode desejar frente ao infinitamente desejável, então atualmente possuído pela visão beatífica. A Beleza divina é sempre antiga e sempre nova: sendo a mesmíssima e identificando-se com o próprio Deus, é como se fosse tudo ou, por assim dizer, variada, no sentido de que sempre há razão para se manter intacta a primeva admiração em toda a sua plenitude, porque não se esgotam as maravilhas da perfeição divina jamais, ainda que ela permaneça sendo una e não diversificada nem fragmentada, como em se tratando das perfeições criadas. Nesse sentido se pode dizer que Deus é infinitamente interessante, nunca pode causar tédio – este supõe imperfeições e debilidades e males, ainda em meio de diversidade de perfeições, o que quer dizer: uma causa proporcionada ao tédio –, é passível de ser fonte de suma fruição com a mesma intensidade e sem qualquer desgaste e sem monotonia.  

Ora, o que supõe o desejo de novidades contraposto a esta senão a percepção de que os mesmos amores já não nos bastam nem nos satisfazem, precisamente porque são limitados? Sendo limitados e débeis, ou sendo os mesmos de sempre, podem cansar-nos, e por isso buscamos outras coisas, novas perfeições. Mas esse movimento faz que busquemo-las em variedade, o que por sua vez indica que cada ser que nos apetece não o faz senão a título de bem temporário e limitado, razão por que buscamos quebrar sua monotonia particular com a experiência de um derramamento no diverso: se cada ser individualmente vem a causar-nos tédio, a atitude de buscar vários e diferentes amores vem de que a bondade de cada qual seja para nós limitada, mas potencialmente infinita, de certo modo, nossa capacidade de alternar de objetos e de nessa contínua fruição diversificada não deparar com tédios particulares, embora nisso haja o perigo funesto e próximo de encontrarmos um tédio muito mais perigoso e nocivo, que é o que subjaz a essa atitude de busca de novidades: o tédio do geral, da falta de sentido, da busca mesma por uma coisa após outra, desgastada continuamente porque tornada um fim às custas da insignificância do que se obtém elementarmente. Pois, fragmentado o amor, fragmenta-se também o ser que ama, e então o tempo não se suspende nem se eleva a um patamar superior: torna-se um fardo pesado; não tem sabor de eternidade senão quando se considera esta sob a perspectiva da irreversível agonia dos condenados. E que atroz monotonia há no Inferno, inundado de amores diversos e desordenados! Essa monotonia é enegrecida pela fealdade suprema que desfigura aquelas almas para sempre perdidas, que viam talvez tédio em servir a Deus, em praticar a virtude e até mesmo no próprio Paraíso! Supor neste qualquer sombra de enfado não é senão exteriorizar a mesquinhez do próprio coração e uma pequenez letárgica de espírito.  

Aqui, vem novamente ao caso o firmamento como exemplo. Embora ele seja o mesmo sempre, em quantas ocasiões não nos vemos alegres ou espantados por contemplá-lo mais uma vez, como crianças ingênuas a quem tudo parece uma novidade, um motivo de espanto e admiração? É monótono o céu noturno? Mas desde que critério se chega a esta conclusão? O que faz que para uns festas voluptuosas e ruidosas sejam extremamente entediantes e cansativas – monótonas! – na mesma medida em que encontram suas delícias em um ambiente a céu aberto, na escuridão da noite, em um local qualquer na natureza, enquanto para outros esta segunda situação é que não interessa em absoluto – o que é que o faz senão o amor? Quando se ama intensamente e o amor é perfeito, nunca se vê no amado uma causa de enfado ou tédio, e se estamos em disposição de amar perfeitamente e sem as debilidades próprias da nossa condição corporal aquele que é sumamente amável e sem sombra de imperfeição, que tédio nisso haveria? O amor desordenado às diversões não é suficientemente intenso porque não é uno nem selado com a nobreza da Verdade; é um amor vago e disperso, ainda quando concentrado de todo nos prazeres; é-o por seus efeitos, pois dissolve a personalidade; sendo pois um amor imperfeito e intrinsecamente sujeito às debilidades da carne, é por si, da parte do sujeito, capaz de diminuir progressivamente e perder forças, além de cansar da real monotonia dos prazeres vãos a que se entrega, em si mesmos imperfeitos e por isso incapazes de satisfazer por completo a alma, fontes contínuas de frustração e cansaço. Enquanto o verdadeiro amor avigora e transcende e ao mesmo tempo transfigura o tempo, o falso debilita o espírito e, prendendo-se ao tempo, que é seu algoz, pois o consome e lhe diminui as forças próprias e as perfeições do objeto vão que ama, torna-o insuportável. Como resultado desta vida dissoluta, nada se tem no coração que o mantenha quieto e firme: diante do silêncio, foge-se, como quem diz que, porque ama desordenadamente, não consegue viver senão fugindo do ambiente interior insuportável criado por esse amor, utilizando-o porém como via de escape de seus próprios frutos amargos! Buscam-se numerosos e indefinidos prazeres não porque estes suprimam o tédio, mas porque, causando-o na alma, tornam-na de tal modo cativa que ela já não vê que se esgota em apetecê-los quando se esvaem e escorrem por entre as mãos que os buscam ansiosamente.  

Para concluir e fazer jus à intenção de fazer deste texto uma continuação do breve artigo O Paraíso é tedioso?recordemos a memorável definição que deu Boécio da eternidade: a posse total, perfeita e simultânea de uma vida interminável (interminabilis vitae tota simul et perfecta possessio). Não há, na eternidade, como que um passado no qual vemos, com nostalgia e saudade e triste, bens amados que não mais existem, nem um futuro no qual o amado ainda não está presente e cuja vinda, próxima ou remota, nos inquieta o coração. Nela há o máximo de consistência, razão por que se trata de um indefectível e absolutamente tranquilo presente. Nossa perfeita satisfação não dará lugar a um instante no qual nos veremos novamente insatisfeitos, pela satisfação primeva ter passado e se nos escapado: eternamente suspensos por amor àquele que é infinitamente amável e belo, estaremos sempre gozando de sua presença e, ao mesmo tempo, satisfeitos, sem mais nada por desejar, porque tudo teremos quando o possuirmos, pois este que é nosso tudo é o próprio Deus. Ele não como as criaturas, cuja beleza, por maior que seja, é limitada e cansa-nos, de forma a buscarmos outra unidade de beleza na diversidade de outros elementos, cada qual com seu selo indelével e uno de, sendo o que é, fazer resplender sua existência gloriosamente.  

Num eterno presente, Deus será tudo em todos, de forma que seu ser para nós tudo suprime-nos toda falta ou carência, e onde não há carência não pode haver tédio.  

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