“Bem-aventurados os pobres… Bem-aventurados os que choram…”. Este importante discurso é bem paradoxal! Como Nosso Senhor pode ter a audácia de propor-nos como objeto de nossa beatitude coisas tão tristes e que todo homem normal considera como um infortúnio? Como pode Ele oferecer-nos um programa tão “irracional”? Para responder a estas perguntas, será útil recordar em que consiste a beatitude humanaa fim de ver como as bem-aventuranças são verdadeiramente a maneira real conducente à felicidade perfeita. Em um mundo marcado pelo mal, pelo pecado, pelo sofrimento e pela morte, as bem-aventuranças abrem um caminho de luz que restaura a obra de Deus com todo o seu esplendor. Longe de abolir a ordem natural, a lei evangélica se insere em curar e em transcender para conduzir o homem ao seu fim último: a felicidade perfeita – Per crucem ad lucem (Pela cruz à luz).
A beatitude e as bem-aventuranças
A beatitude é nosso fim último
Todo ser tem um fim ao qual se inclina, seja em mover a si mesmo em direção a este fim, seja em ser movido por qualquer outra causa. Assim como a pedra que deixamos cair se inclina em direção à terra através do efeito de uma força de atração. A flecha tende em direção ao alvo a que o arqueiro a direcionou. A planta tende a produzir a flor, depois ao fruto que corresponde à sua natureza. O animal, movido pelo instinto de conservação, vai em direção da comida quando tem necessidade; e ele segue também, para a reprodução, o instinto inscrito em sua natureza que permite a sobrevivência da espécie.
O homem tem um lugar à parte no universo. Pois ele é o único ser espiritual do mundo visível (os anjos são também espirituais, mas não têm corpo, pertencem ao mundo invisível). O homem é dotado de razão e, por conseguinte, de vontade livre, o que o faz o único animal capaz de dominar seus instintos, ao menos em parte, e de escolher, ele mesmo, a orientação de seus atos, ao menos no essencial: para ele é difícil parar de respirar ou de digerir, mas ele pode escolher entre sair para caminhar ou ficar em casa, de sentar-se à mesa ou de jejuar. «Isto que fiz, eu te juro, jamais qualquer animal teria feito», disse o aviador Guillaumet (Saint-Exupéry, Terra dos Homens, cap. 2, § 2).
Para Santo Tomás de Aquino, o homem é «princípio de seus atos, tendo livre arbítrio e o poder de realizar suas ações» (Suma Teológica, prólogo da Prima Secundae).
O homem é livre. Não menos, como todo ser criado, ele tende ao seu fim, e este fim é seu bem, sua felicidade.
«Sem qualquer dúvida, diz Santo Agostinho, nós todos queremos viver felizes e não há um indivíduo entre os homens que não concorde com esta afirmação, antes mesmo que ela seja emitida… vamos portanto descobrir o que é melhor o para o homem.» (Dos costumes da Igreja Católica).
«Todos nós queremos viver felizes». Mesmo aquele que se suicida pensa que será mais feliz morto que vivendo uma vida miserável. A liberdade não diz respeito ao desejo do fim, à felicidade – que nós não podemos não desejar –, mas às realidades nas quais fazemos consistir a felicidade e aos meios para alcançá-la.
Aristóteles já havia observado esta unidade a respeito do fim e a divergência quanto aos meios:
«Já que todo conhecimento, toda escolha aspira a algum bem, veremos qual é, segundo nós, o bem ao qual tende a política, em outras palavras, qual dentre todos os bens realizáveis é o Bem supremo. Quanto ao seu nome, em todo caso, a maioria dos homens está praticamente de acordo: é a felicidade, para a multidão das pessoas em geral assim como para as pessoas cultas; todos assimilam o fato do bem viver e de conseguir ser feliz».
«Pelo contrário, no que diz respeito à natureza da felicidade, não nos entendemos mais, e as respostas da multidão não se assemelham às dos sábios. Uns, com efeito, identificam a felicidade com qualquer coisa de aparente e de visível, como o prazer, a riqueza ou a honra; para uns é uma coisa e para outros é outra coisa; freqüentemente um mesmo homem muda de opinião a seu respeito: doente, põe a felicidade na saúde, e pobre, na riqueza; em outras situações, quando tem consciência de sua própria ignorância, admira quem tenha discursos elevados e acima de sua capacidade…» (Ética a Nicômaco, 1095 a 15).
Podemos então propor-nos duas questões:
– Que é a felicidade, a beatitude? Em que consiste o fato de ser feliz?
– E como atingir esta felicidade, a beatitude?
A beatitude é a satisfação perfeita de todas as nossas faculdades.
A inteligência do homem tem por fim a Verdade (universal), e sua vontade tem por fim o Bem perfeito. Nenhum bem particular pode saciar plenamente a vontade humana, que tende ao Bem absoluto. Apenas Deus, Verdade suprema e Bem infinito e perfeito, pode satisfazer totalmente à aspiração do homem ao verdadeiro e ao bem. «Vós nos fizestes para Vós, ó Senhor, diz Santo Agostinho, e nosso coração está inquieto [inquietum, quer dizer, sem repouso, agitado] enquanto não repousar em Vós» (Confissões, I, 1).
Javé é aquele «que farta a tua boca de bens», quer dizer, tua existência ou teu desejo, na Vulgata (Salmos 103, 5).
A beatitude perfeita não poderá, portanto, existir senão no Céu, quando o homem contemplará face a face a Santíssima Trindade «E a vida eterna é esta: que te conheçam, a ti só, por único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste» (João 17, 3). Tal visão provocará um amor sem fim e uma felicidade eterna: a beatitude.
Aqui embaixo, não podemos ter outra senão uma beatitude imperfeita, um antegosto da felicidade eterna. Este antegosto nos é dado sobretudo na contemplação. Nossa felicidade não pode ser outra que uma imperfeita na terra, pois não podemos ver a Deus face a face, não o conhecemos senão pela fé, «em espelho, em enigma», diz São Paulo (1 Cor. 13, 12). Por outro lado, somos submetidos a todas as vicissitudes terrestres. Nosso estado psicológico está frequentemente em mudança, com alternâncias entre um belo céu azul e nuvens escuras; alegrias e dores se sucedem por vezes bem rápido… são tempos de exílio, do pobre.
Como chegar à beatitude?
É precisamente a Moral que nos indica o caminho conducente ao nosso fim: a beatitude. A Moral, em uma perspectiva cristã tradicional (agostiniana e tomista, assumindo a sã filosofia realista de Aristóteles, fundada na natureza das coisas e no bom-senso), não é fundada antes de tudo no dever (como queria Kant), mas na felicidade. A Revelação e a filosofia natural concordam neste ponto: «andai em todo caminho que eu vos mandar, para que vos vá bem.», diz o Senhor ao profeta Jeremias (7, 23). E Aristóteles, como vimos, pôs como o fim da ética e da política a felicidade.
O dever tem o seu lugar, um lugar importante. Com efeito, a felicidade à qual tendemos é uma felicidade que não é sempre perceptível imediatamente, uma felicidade que está além dos sentidos. Também nossa marcha em direção a ela supõe frequentemente que renunciemos a bens particulares imediatos, bens agradáveis ou úteis aos nossos interesses, para que não falte nosso bem profundo, verídico, último, que é o «bem honesto». O dever, que nos prescreve fazer o «bem honesto», pode portanto nos parecer oposto à nossa felicidade, mas é uma ilusão: um verdadeiro dever está sempre ordenado ao nosso bem mais profundo, à nossa beatitude.
Nosso dever é então muitas vezes de abraçar algo difícil, até doloroso à nossa natureza, para adquirir um bem superior, que não é necessariamente deleitável e que pode até mesmo parecer contrário às nossas aspirações profundas. Por exemplo, o homem casado que se apaixona por outra mulher deve ter um profundo sentido do bem honesto para compreender que seu bem mais alto, ao mesmo tempo em que comum, é que ele se mantenha fiel (o amor, ao nível sensível e afetivo, fá-lo-á ver as coisas de uma forma toda diferente e enganadora!). O esportista suportará diversas renúncias, exercitar-se-á ao preço de numerosos esforços, para vencer a corrida: «E todo aquele que luta de tudo se abstém; eles o fazem para alcançar uma coroa corruptível; nós, porém, uma incorruptível.» (1 Cor 9, 25). Enfim o soldado ou o bombeiro que se devota até dar a própria vida pela sua pátria, ou para salvar vidas humanas, mostra que o bem verdadeiro supera nossa vida terrestre e justifica o que diz o Evangelho: «Pois quem quiser salvar a sua vida a perderá; mas quem perder a vida por minha causa, este a salvará.» (Lc 9, 24).
As beatitudes
O sermão da montanha
Para que possamos chegar à beatitude, Nosso Senhor nos indicou o caminho, traçou-nos o programa. Seu ensinamento é de alguma forma resumido no grande discurso reportado por São Mateus (capítulos 5 a 7), que chamamos «O Sermão da Montanha».
Neste sermão «está reunida toda a moral do Evangelho, toda a arte cristã de viver», segundo Santo Agostinho…
“Teólogos e exegetas reconhecem que ele constitui, no Evangelho de São Mateus, um condensado do ensinamento de Jesus sobre o Reino dos Céus e sobre as formas que conduzem a este. Ele é a explicação do anúncio central da pregação de Jesus: «Convertei-vos, pois o Reino dos Céus está próximo.»” (Padre Pinckaers, O. P., A busca da felicidade, p. 8 e 11).
É útil colocar este sermão em seu contexto.
O Evangelho de São Mateus pode ser dividido em sete partes:
Uma parte introdutiva, o Evangelho da infância; depois, cinco partes compostas cada uma de uma seção narrativa seguidas de um discurso relacionado a elas; enfim, a história da Paixão e da Ressurreição.
O Sermão da Montanha é o primeiro discurso e o mais importante. São Mateus reuniu o ensino de Jesus sobre as condições para entrar no Reino dos Céus, sobre o espírito que deve animar seus discípulos. O sermão forma assim um verdadeiro discurso-programa da vida cristã.
Na seção narrativa que o precede, onde é contado como Jesus tomou a sucessão de João Batista e de sua pregação no deserto, o ensinamento de Jesus é reunido em uma frase: «Arrependam-se, pois o Reino dos Céus está próximo» (4, 17). O sermão vai expor este ensinamento sobre o arrependimento, a conversão e o Reino.» (Padre Pinckaers, ibid., p. 18).
Bossuet dizia a respeito dele (Meditação sobre os Evangelhos, Exortação): «De todos os sermões de Jesus Cristo, os mais notáveis pela circunstância do tempo são, primeiramente, aquele que Ele fez em uma montanha no começo de sua pregação, onde são inclusos os principais preceitos da nova lei e onde vimos qual é seu espírito. Segundamente, aquilo que Jesus fez até o fim de sua vida» (do dia de Ramos até sua morte).
As bem-aventuranças
«Se o Sermão da Montanha é o resumo de toda a doutrina cristã, as oito bem-aventuranças são o resumo de todo o Sermão da Montanha…».
«As beatitudes são então o resumo de todo o sermão; mas um resumo agradável: pois a recompensa está unida ao preceito; o Reino dos Céus, sob outros nomes admiráveis, à justiça; a felicidade, à prática.» (Bossuet, Sermão de Nosso Senhor na montanha, 1º dia).
Note-se que as beatitudes foram também mencionadas por São Lucas (6,20-23), mas de uma forma mais breve: Lucas não menciona mais que quatro bem-aventuranças: a dos pobres, a dos que têm fome, a dos que choram e a dos odiados e perseguidos pelos homens. Mas ele dá logo em seguida quatro maldições opostas: a dos ricos, a dos saciados, a dos que riem e a dos que são louvados por todos.
São Mateus situa assim a cena do ensinamento das bem-aventuranças por Nosso Senhor:
«E Jesus, vendo a multidão, subiu em um monte…» (Mt 5, 1). Jesus subiu em uma colina próxima de Cafarnaum na Galiléia, de onde se tem vista para o lago de Tiberíades. A montanha simboliza a elevação do Reino dos Céus e da doutrina divina que o conduz, seu caráter propriamente sobrenatural.
Para reencontrar Deus, Jesus fez-se elevar como Moisés no monte Sinai, como Elias no monte Carmelo, como Nosso Senhor, com Pedro, Tiago e João, no monte Tabor. Sair de seu lugar, de seu pequeno conforto, para partir em peregrinação, subir até um santuário (Nossa Senhora de Chartres…) ou fazer retiro também é uma boa forma de se dispor a escutar a Deus e a reencontrá-lo. «Duc in altum… Avance ao largo, em alto mar…» «Sai do teu país», «Suba mais alto». A vida cristã não é jamais uma vida tranquila, «confortável». Se queremos reencontrar Deus, e segui-lo para chegar à felicidade eterna, devemos nos engajar no caminho estreito, fazer esforço, arriscar a vida…
Na montanha, Jesus senta-se: posição do mestre que ensina com autoridade, de seu púlpito, ex cathedra. Seus discípulos aproximam-se e Ele põe-se a instruí-los. E nós, também fazemos o esforço de aproximar-nos do Mestre para escutar sua Palavra?
O sentido das bem-aventuranças
Nosso Senhor traça em algumas linhas a carta da nova lei. Em oito bem-aventuranças, Ele resume tudo o que constitui o Reino dos Céus. «Beati… Felizes… ou Bem-aventurados»: esta palavra é repetida como um leitmotiv; o motivo é indicado claramente: é a felicidade, a beatitude que nos é proposta.
Mas esta felicidade não é uma felicidade terrestre, de acordo com a sabedoria limitada deste mundo. É «o Reino dos Céus» que é proposto, é a filiação divina, é a visão beatífica. A desproporção entre o nível natural – aquele que a razão pode alcançar – e o nível sobrenatural, ao qual somos chamados por Deus, faz-se evidente.
O homem foi criado para ver a Deus e regozijar-se dEle sem cessar. Mas o pecado original deixou-o cego a este fim. Seu espírito está em trevas e não enxerga mais que apenas Deus pode satisfazer todo o seu ser. A concupiscência o cega e o conduz aos bens aparentes, fugazes e enganadores. A fraqueza de sua vontade o torna incapaz de mover-se com constância ao bem; e a malícia impulsiona-o ao mal, separa-o de Deus (Adão e Eva fugiram da presença de Deus depois do pecado, cf. Gn 3,8).
É pelas virtudes que o homem está disposto a fazer o bem e assim ir em direção de seu fim. Mas, no estado ferido em que se encontra, a virtude natural é insuficiente. O homem precisa absolutamente da graça, das virtudes sobrenaturais e mesmo dos dons que o dispõe a receber as moções do Espírito Santo, para poder agir verdadeiramente na linha de sua vocação sobrenatural, para poder tender ao Reino dos Céus, que é seu fim verdadeiro. Para Santo Tomás (Ia IIae, q. 69), as bem-aventuranças distinguem-se das virtudes e dos dons como os atos distinguem-se dos «habitus», das disposições. As bem-aventuranças são, portanto, os atos que nos orientam ao nosso fim eterno.
A progressão das beatitudes
Os Padres, em particular Santo Agostinho e Santo Tomás, anexaram as beatitudes às virtudes e sobretudo aos sete dons do Espírito Santo, dos quais são atos iminentes. Eles então contaram sete bem-aventuranças em progresso em direção aos atos mais elevados, como os dons se elevam do temor de Deus até à sabedoria. A oitava bem-aventurança é como a recapitulação de todas as outras e seu critério, «a confirmação e a manifestação de todas as precedentes» (S. Tomás, ibid., a. 3, ad 5). Com efeito, se alguém vive verdadeiramente de acordo com o espírito das bem-aventuranças e as põe em prática, de uma parte ele terá necessariamente de enfrentar a perseguição do mundo, que odeia a Cruz do Cristo e a vida sobrenatural, e de outra parte ele não se deixará de modo algum abater nem derrotar por estas perseguições. Esta oitava bem-aventurança redobra-se ela mesma em um duplo «Beati», manifestando sua importância (versos 10, 11 et 12).
Aqui está como Santo Tomas manifesta esta progressão das beatitudes.
Os homens fazem consistir em geral a felicidade em três gêneros de vida: para uns, é a vida voluptuosa, a abundância dos prazeres; para outros, é a vida ativa, virtuosa (fazer o bem, devotar-se); para outros enfim, é a vida contemplativa.
A vida voluptuosa não é na realidade outra que uma beatitude enganadora, falsa, contrária à razão. O homem que quer alcançar a beatitude deve, portanto, separar-se do obstáculo constituído pelo fascínio desordenado dos prazeres. Para isso a beatitude dos pobres em espírito ajuda-o a compreender que a felicidade não consiste na afluência dos bens exteriores (riquezas e honrarias), e ela (esta bem-aventurança) ajuda-o a desviar-se dela (da vida voluptuosa) temendo perder os bens eternos. Ela é então ligada ao dom do temor e à virtude da humildade.
A vida voluptuosa também consiste em seguir sem freio suas paixões. Estas são movimentos quer da faculdade ou «apetite» irascível, que nos fazem gastar nossa energia para obter um bem árduo ou levantar-nos contra um mal, quer do apetite concupiscível, que nos empurra aos bens agradáveis, ao prazer. Quanto ao apetite irascível, é a bem-aventurança dos mansos que nos faz moderar nossas paixões e dá-nos uma perfeita posse de nós mesmos. Ela está ligada ao dom da piedade.
A bem-aventurança dos aflitos isola as paixões desordenadas do concupiscível ao fazer-nos ver a vaidade dos prazeres terrestres, ao lado dos benefícios divinos. Esta visão sobre o real valor das coisas humanas e divinas vem do dom da ciência.
A vida ativa dispõe-nos em relação ao próximo, seja em dar-lhe o que lhe devemos (virtude da justiça), seja mesmo em dar-lhe algo espontaneamente, com generosidade.
A bem-aventurança daqueles que têm fome e sede de justiça dispõe-os perfeitamente ao exercício da justiça e demanda o dom especial da fortaleza.
A bem-aventurança dos misericordiosos faz-nos exercer em certa medida mais alta a liberalidade. Ela é ligada ao dom do conselho, pois não há conselho mais alto que aquele de ter misericórdia se nós também queremos obter misericórdia.
A vida contemplativa já é a bem-aventurança final, ou ao menos seu começo. É porque esta vida é posta nas recompensas: «Eles verão Deus», «eles serão chamados filhos de Deus»; é a vida eterna. O que vem a seguir são «os efeitos da vida contemplativa». Por esta o homem adquire pureza de coração, que torna o ver espiritual mais lúcido, efeito do dom da inteligência.
Em relação aos outros, ele torna-se um artesão da paz, pois «a paz é a obra da justiça» (Is 32, 17). É o dom da sapiência, que o torna capaz de estabelecer esta «tranquilidade da ordem», que é a paz.
Aqui recapitulada em tabela esta correspondência das bem-aventuranças e dos dons de acordo com Santo Tomás, seguiremos aqui a ordem geralmente admitida, que coloca a bem-aventurança dos pios antes da dos aflitos. Em certos manuscritos, e na apresentação das bem-aventuranças ao curso da peregrinação, a ordem é invertida entre a segunda e a terceira bem-aventurança.
I. Em relação à vida dos prazeres (obstáculo à verdadeira beatitude):
I. Felizes os que têm uma alma de pobres, pois deles é o Reino dos Céus – Temor.
II. Felizes os mansos, pois possuirão a terra – Piedade.
III. Felizes os aflitos, pois serão consolado – Ciência.
II. Em relação à vida ativa (que pode dispor à verdadeira beatitude):
IV. Felizes os que têm fome e sede de justiça, pois serão saciados – Fortaleza.
V. Felizes os misericordiosos, pois obterão misericórdia – Conselho
III. Com relação à vida contemplativa (ela não é outra, se é perfeita, que a verdadeira beatitude):
VI. Felizes os corações puros, pois verão Deus – Inteligência.
VII. Felizes os artesãos da paz, pois eles serão chamados filhos de Deus — Sabedoria.
VIII. (Manifestação e confirmação das sete primeiras beatitudes): Felizes os perseguidos pela justiça, pois o Reino dos Céus é para eles. Felizes sois vós quando sedes insultados, perseguidos e sofredores de falsas acusações por toda sorte de infâmia por minha causa. Estejais em alegria e felicidade, pois vossa recompensa será grande nos céus: foi assim que perseguiram os profetas, vossos predecessores.
Conclusão
As bem-aventuranças são verdadeiramente a carta da nova lei. Elas nos traçam um caminho de luz, exigente e nada fácil, mas que nos leva à alegria perfeita, à verdadeira felicidade. Nossa beatitude não será perfeita senão no Céu – «Eu não te prometo a felicidade nesta vida, mas na outra», disse Nossa Senhora a Santa Bernadette. Entretanto Deus é bom, «rico em misericórdia», e Ele nos faz provar frequentemente um sabor da beatitude perfeita, mesmo entre as dificuldades. Ele sempre dá sua graça para resistirmos às tentações e para cumprirmos nosso dever. Aos que procuram o Reino dos Céus de Deus e Sua justiça Ele dá todo o resto. Aos que tudo deixaram para segui-lo Ele dá o quíntuplo, Ele dá o cêntuplo, mesmo aqui embaixo.
O mundo está ferido pelo pecado e se opõe, dessa forma, a Deus e ao verdadeiro bem. O Diabo, que é «homicida desde o começo», busca matar os homens e conduzi-los à perda eterna. É a Cruz do Cristo, a graça do Espírito Santo e a prática das beatitudes que podem salvar-nos.
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Tradução feita a partir deste arquivo: clique aqui.


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