I
Toda paixão, quando intensa, acaba fazendo nossa atenção convergir para sua causa ou fonte próxima. Se não se conhece ou não se tem presente a fonte próxima ou remota da paixão ou força passional atual a exercer influência sobre o psiquismo, pode ser que a atenção se volte para a consciência de que não se sabe como erradicar o problema, quando a paixão é desordenada e de caráter negativo, como a tristeza ou o desânimo, e então, em presença de dois males atuais — uma fonte emotiva desconhecida ou esquecida, pouco clara ou esclarecida para o sujeito, e a percepção do mal que é não conseguir livrar-se da paixão desagradável nem encontrar uma solução para o estado a que ela leva o sujeito —, pode surgir um terceiro, que seria certa paralisia ou tentação a desesperar, ou uma fuga externa por meio de uma entrega a ações que concedam certo alívio mental, uma consolação envolta em melancolia, que acaba tendo predominância então, e daí é que vêm, por exemplo, um falar desenfreado e uma divagação contínua da mente.
Como a causa da paixão desagradável não é erradicada nem atacada ou contrariada em suas bases fundamentais, ela continua produzindo um mal-estar psicológico, o qual às vezes será duradouro. Enquanto a tristeza permanece sendo legítima tristeza, no sentido de que corresponde verdadeiramente à percepção de um mal, ainda que não o seja objetivamente, as alegrias com que se tenta apaziguá-la são meros paliativos com virtude quase insignificante, por sua superficialidade e pouca durabilidade. É como tentar diminuir o fétido odor do esgoto com um perfume.
Por isso, quem está num estado habitual de tristeza tem todas as suas ações imbuídas de fraqueza e desânimo, porque parece não ter vida suficiente em seu coração, vida que impulsione a atividade de uma forma intensa e minimamente expansiva, como num movimento descendente-ascendente de difundir os bens radicados na interioridade da alma sadia.
A alma triste traz na sua percepção de mundo e de si mesma uma aura de profunda melancolia, uma atmosfera de trevas espessas, o que lhe torna dificultoso concentrar-se em outra coisa que não nas causas da sua desventura. Quando estas não são conhecidas atualmente, vive-se não obstante em sua presença, e a vida toma uma aparência de insignificância ou de fardo contínuo. E, quando se buscam as causas da tristeza nessas condições, encontra-se um vazio interior, a ausência de objetos amados. Quem não tem consciência do que ama e em que medida ama o que ama, então, dificilmente encontrará a raiz de seus males.
Mas, se se chega à conclusão de que esse vazio interior existe por causa de uma suposta falta de sentido na vida, pode-se atribuir isto a que a vida seja em si mesma insignificante ou vazia, porque não preenche profundamente os anelos do coração, ou porque, podendo-o fazer, da parte do sujeito não existem condições específicas a que se possua o objeto amado, quer por causa de uma recusa deste, quer por incapacidade receptiva do sujeito. Em ambos os casos, o movimento fundamental do coração, que é amar, busca o amado e, não o encontrando, frustra-se, parece não exercer seus atos próprios. A manifestação psíquica disso é, conforme dissemos, um vazio interior e uma paralisia existencial pelo desânimo e suas consequências.
No caso de alguém perceber qual é a causa da sua tristeza, não convém que lhe dê demasiada atenção, porque a imaginação, sob o ímpeto desta paixão, fica desgovernada e produz muitas imagens enfadonhas e melancólicas, de forma que toma a dianteira impedindo a inteligência e a vontade de agirem bem para ordenar os afetos. Antes, deve buscar limitar a produção de imagens, então operada pela faculdade imaginativa, para que igualmente diminuam as possibilidades de interpretações sensitivas impróprias ou exageradas por parte da cogitativa.
Se alguém está triste e só o que lhe vem à cabeça são imagens de tristeza, a inteligência e a vontade ficam impedidas de exercer bem sua função de ordenar o apetite sensitivo, apreendem mal a verdade da situação, avaliam sua bondade sob a pressão negativa das faculdades inferiores, então desvirtuadas, e isso gera um círculo vicioso bastante doloroso.
Porém, caso a vontade ordene à inteligência que apreenda a verdade das coisas apesar da tempestade passional a ocorrer interiormente, se a inteligência se dirige a bens superiores, dará lugar a uma percepção mais significativa da realidade em sua universalidade, bondade, beleza e ordem. Contemplar a bondade da Criação, sua beleza, seu esplendor são remédios muito eficazes para combater a tristeza porque aperfeiçoam a inteligência e a vontade.
Há vezes em que as causas da tristeza não são muito profundas, então convém que rapidamente paremos de imaginar o mal da nossa situação atual, ou de recordar tristemente o passado ou de antever consequências desastrosas no futuro e nos lancemos a um olhar calmo sobre a realidade, com um movimento corporal e uma atitude psíquica que orientem as paixões a um apaziguamento, a uma movimentação menos intensa, para que aja melhor a inteligência.
Se permitimos que nos momentos de tristeza sejamos arrebatados por essa paixão desagradável, sua repetição e prolongamento se arraigarão cada vez mais nas nossas faculdades inferiores, e isso criará uma sedimentação passional profunda em decorrência da aquisição do hábito de dar-lhes muito espaço nas nossas almas.
Por outro lado, se não lhe damos importância e até nos burlamos dela e de suas causas — porque muitas vezes são tão desordenadas que chegam a ser irrisórias —, logo perdem força e se esvaem. Para preencher corretamente a brecha que deixam, devemos antepor-lhes considerações a respeito dos inúmeros bens que possuímos, sobretudo os interiores, espirituais, porque são nossos maiores tesouros. Não se trata de ter um simples pensamento “positivo” autossugestivo, mas de entrar em contato com verdades elevadas e amá-las.
Ocorre que muitas vezes nossas condutas dispõem nossa imaginação a desordenar-se e produzir conteúdos que serão usados para interpretarem-se certas verdades, o que causará uma visão distorcida da realidade e, possivelmente, uma mentalidade pessimista ou muito temerosa. Isso sucede quando, por exemplo, desde a infância a mente infantil se acostuma com filmes e histórias de terror, de desgraça, de sofrimento; expressões de desânimo, desalento, falta de força e vigor e assim por diante. Essas imagens dão uma forma específica ao psiquismo do indivíduo, que terá disposição maior a estados de tristeza por avaliações negativas da realidade.
A memória carnal também não deve ser alimentada com lembranças funestas em estados de desânimo, pois disso resultaria uma maior e mais intensa e grave produção de imagens, de possibilidades e de focos passionais. A uma imagem hostil de futuro corresponderia uma paixão de temor, então, e uma impressão mais ou menos duradoura na mente; a uma imagem de tristeza, um peso no coração; a uma imagem de injustiça, um sentimento de raiva e de frustração, etc..
II
Nosso desejo fundamental leva-nos ao bem supremo. Por isso, ele se move naturalmente aos objetos desta vida como meios, enquanto meios, e é daí que provém o mal-estar interior quando os tomamos, com uma decisão livre, por fim. Porque o desejo se dirige fundamentalmente ao fim; está, pois, ligado a ele como a fome está ligada aos alimentos capazes de saciá-la.
Para saciar a fome podem ser necessários vários meios: levantar-se, procurar alimento, cozinhá-lo, colocá-lo em um prato etc.. Se se busca saciá-la com o ato de cozinhar, ou com o ato de cozinhar e vender, surge uma frustração, porque toma-se o meio por fim e portanto não há objeto correspondente ao desejo; resta neste um vácuo, um vazio.
Mas no caso da fome sabemos claramente que andar não a sacia, mas pode disfarçá-la — há coisas que disfarçam a fome sem saciá-la objetivamente, isto é, com seu objeto próprio. E porque ela é sensível e imediata é que percebemos com maior clareza, por uma espécie de intuição sensitiva, que andar não resolve o problema da fome, não a sacia do modo como ela exige ser saciada, isto é, mediante um alimento próprio que suprima seu ímpeto, e não com artifícios que a sufoquem ou escondam, pois escondê-la ou suprimi-la com algo que não seja seu objeto próprio não implica uma satisfação verdadeira e condizente com a necessidade real, que é de nutrir-se e responder a um impulso interior.
Ora, pode ocorrer de o que a cogitativa tome por fim, em sua interpretação ou valoração “instintiva”, seja confusamente o que a inteligência sabe que é apenas um meio, e todos os meios são apetecidos limitadamente e apenas na medida em que se acomodam à consecução do fim almejado. Este fim, porém, pode não agradar aos sentidos, que então rejeitariam os meios enquanto tais apenas e quereriam repousar neles como em fins, obrigando relativamente as faculdades superiores a semelhante recolhimento.
Se o apetite sensitivo inclina a vontade a mover-se aos objetos que lhe agradam e que são meros meios como a fins, haverá certa informação dos sentidos numa espécie de reconhecimento de que o que lhes agrada ou lhes satisfaz é o que deve ser maximamente apetecido e buscado, sem o que não se obterá a felicidade.
O indivíduo passa, então, a ser movido com muita veemência por prazeres e objetivos mundanos, mas fica desanimado diante do chamado universal à santidade, por exemplo, que exige sacrifícios. A oração começa a parecer um simples meio para que, com a consciência limpa, se volte a desfrutar intensamente da vida em se derramando nela, em se satisfazendo todas as suas numerosas exigências.
Se o prazer, portanto, é tomado como fim, quando é frustrado completamente nasce certo desespero. Mas, se há um conflito entre as faculdades superiores e inferiores, a dor de ter de mortificar a ânsia de prazer com sacrifícios aos poucos vai diminuindo e a interioridade, ordenando-se.
Antes disso, porém, a valoração dos sacrifícios e de atos de virtude poderá ser desordenada, causando tristeza por suas exigências e necessárias abnegações, já que é mau o que não corresponde à obtenção do fim.
III
Porque Deus não se apetece de imediato como um bem sensível próximo ou desejável, segundo a percepção habitual da natureza humana, facilmente o indivíduo preso à realidade sensível e ao imaginário conclui que só há fonte de felicidade possível nesta vida — portanto só esta é depositária de esperança. Não se vislumbram outros bens para além destes que vemos ou podemos degustar atualmente nesta breve existência.
Lembremo-nos do famoso clamor Vaidade das vaidades, tantas vezes atribuído a Salomão. Esta atitude metafísica do Eclesiastes reside numa apreciação das criaturas segundo sua perecibilidade e incapacidade de satisfazer o coração humano. Daí que quem dela se aproxime veja que esta vida se mostra insuficiente. Isso dá lugar à morte de muitos amores! A inquietação profunda que provém dessa morte se manifesta de múltiplas formas, porque ela será como que o apetite tentando buscar aquilo que corresponda aos seus anseios. Percebe-se uma deficiência fundamental no amor, que é o que nos move; se aquilo que amávamos nos parece insignificante, buscamos imediatamente outro amor — porque amamos amar.
Já quem elege por fim existencial algo que não Deus plasma e coloca nas criaturas uma expectativa que só Deus pode saciar, considerando-as como o bem sumamente saciativo, e isso gera uma profunda inquietude, porque, à vista de que elas não saciam, por experiências de frustrações contínuas, parece que nada mais é capaz de saciar o desejo humano. Daí surge, novamente, um desespero, quer porque Deus pareça supostamente impossível de alcançar-se ou de comprazer alguém, quer porque não se creia nEle ou porque os meios para atingi-lo pareçam muito excelsos e distantes.
A partir de uma nova apreciação das criaturas, então, buscam-se novas consolações e surge novamente a mesma busca pela felicidade. Mas, tanto mais seja a consciência da perecibilidade das criaturas e da sua incapacidade de satisfazer-nos plenamente, quando temos consciência da dimensão dos nossos anelos mais profundos, maior será o desespero a que chegaremos se não dirigirmos nossa vontade ao Sumo Bem, que é Deus mesmo.
IV
Pois bem, estas três considerações podem servir de base a uma reflexão a respeito do vício capital da acídia, de certos estados de tristeza e assim por diante. Exprimem também algo de como precisam estar ordenadas as nossas faculdades segundo seus lugares próprios na hierarquia interior da natureza humana.


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