Orgulho e algumas de suas formas

Apesar de a soberba ser considerada um vício supracapital, fonte de todos os vícios, raiz de todos os males interiores do ser humano, e ter um caráter espiritual tão profundo e funesto que se pode chamar um vício verdadeiramente diabólico, isso não tira dele sua humilhante ridiculeza. No fundo, todos os pecados são ridículos, absurdos e desprovidos de sentido. Analisemos, pois, em alguns de seus aspectos, este que se ufana por exercer papel de imperador sobre os demais vícios.

I

Como o orgulho pode dirigir-se a qualquer objeto, pois é o desejo desordenado pela própria excelência e esta pode estar em qualquer coisa que se refira positivamente ao indivíduo orgulhoso, e qualquer coisa pode se referir à sua excelência (pois esta, no caso do vício do orgulho, depende de uma subjetividade desordenada), os demais vícios, as demais paixões podem se subordinar aos objetivos do orgulho (resumidos num amor desordenado à própria excelência).

A soberba pode valer-se, então, das demais paixões como instrumentos para atingir suas finalidades, a despeito da moralidade dos meios empregues para tanto e dos próprios fins. A paixão da ira pode ser uma reação adequada, nesse sentido, de quem quer defender algo (ou a si mesmo) para manter sua imagem ou fama supostamente respeitável ou admirável, ou para manifestar uma qualidade real ou ilusória externamente (vaidade). Nesse caso, a ira estaria a serviço da vaidade, nascida, por sua vez, fundamentalmente da soberba.

Já quando se pretende defender ou manter a excelência ou imagem desta mediante omissões, vê-se que a isto subjaz, muitas vezes, interiormente, a predominância de um apetite irascível débil, comumente manifestado por um temor de expor-se a si mesmo para não ser humilhado, quando há este risco. Como a ira ou cólera não condiz adequadamente como meio a que se cumpram aqueles objetivos nessas situações, o modo de assegurá-los é por via de timidez, de inação e assim por diante.

Mas, quando o orgulho se vale de uma compleição dada a manifestações vorazes de cólera, a ira torna-se seu combustível principal quando vertida em hábito. A mera superioridade, aparente ou não, que as pessoas iracundas e obstinadas e irreverentes manifestam exteriormente produz certo respeito ou medo em pessoas temerosas ou tímidas, mais com tendência a uma maior neutralidade ou passividade, e essa percepção faz que o orgulhoso sinta mais perfeitamente afirmada sua excelência.

A forma ordinária de manifestação do orgulho nesse caso é a exteriorização dessa aparente superioridade ou perfeição, de uma força que se impõe aos demais. Quem é respeitado ou temido exerce poder sobre os demais e pode impor-lhes inclusive um modo de pensar, ainda que esporadicamente; portanto, não raras serão as vezes em que o orgulhoso se verá em ocasião de exercer um relativo domínio psíquico sobre outras pessoas.

Agora vejamos um caso concreto. Alguém irascível (mas sobretudo orgulhoso) vê que um homem virtuoso e de autoridade faz algo que, se realizado por um “qualquer”, sequer despertaria a sua atenção altiva. Mas pode ser que esse algo se refira direta ou indiretamente a ele (ao orgulhoso), de modo que pode haver as seguintes reações:

1) ignorar a situação;

2) perceber que, ignorando a situação, o homem de autoridade ou outras pessoas perceberiam que houve uma inibição causada nele por um certo respeito à autoridade, a modo de manifestação mais ou menos implícita de sua inferioridade, por um receio de se opor. Nesse caso, o orgulhoso teria que se opor à ação da autoridade utilizando uma justificativa qualquer (reivindicando, por exemplo, um direito sobre algo), para não parecer amedrontado pela coragem do outro e, assim, não ver feridos seu amor-próprio e sua autoimagem (novamente a vaidade entra aqui, mas subordinada ainda ao orgulho);

3) não se impor, mas justificar sua não oposição com argumentos interiores autossugestivos acerca das razões pelas quais não se impôs, tentando se autoconvencer de que não o fez por covardia, o que lhe seria um verdadeiro e inadmissível ultraje a seu “ego” inflado. 

Em todos os casos, o orgulhoso busca manter sua imagem de “excelente” limpa pelo menos para si mesmo, interiormente. Por isso há quem se justifique imensamente tanto para os outros como para si próprio: no primeiro caso, ele o faz por vaidade (nutrida pelo orgulho); no segundo, pelo próprio orgulho em si, comprazendo-se em si próprio e se perdendo em sua subjetividade, ignorando o parecer (muitas vezes correto) do próximo, que pode até lhe ter dado conselhos salutares, ou lhe ter feito algo sem relevância, mas que não surte efeito por ser visto pelo orgulhoso como uma espécie de afronta à sua autossuficiência.

Por isso os orgulhosos são tão chatos, pois agem como se o mundo girasse em torno deles, e qualquer coisa pode ferir seu amor-próprio desordenado e desencadear um ataque de ira.

Porém, mais especificamente, a ira subordinada à defesa de sua autoimagem está ligada com a vaidade, como vimos, sendo que algumas das filhas desta são a discórdia e a disputa. Mas nesse caso o problema costuma ser mais uma segurança interior da manifestação de sua excelência a partir da exterioridade, de sua imagem e fama para os demais. Isso tem, sim, algo a ver com o orgulho, mas se dirige mais ao exterior.

Por isso, uma outra filha da vaidade é a hipocrisia, que é quando o indivíduo se compraz por aquilo que não é, ou finge ser (e o manifesta exteriormente) o que não é. Ele quer parecer ser, pois os outros vêem o que parece ser; enquanto o orgulhoso quer ser, ou pelo menos sentir interiormente que é (haja autoengano!), e por isso o orgulho pode coincidir com a ausência de manifestação exterior da própria excelência (pela timidez).

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