Para quem é pura ferida, doença e miséria, curar-se é o equivalente a morrer. Porventura isso não é uma redenção e salvação? Antes de Cristo, ou melhor, sem Cristo, não éramos como ovelhas desgarradas e perdidas, destinadas à morte? Sem Ele, éramos pura ferida; com Ele, temos o remédio para salvar-nos de… nós mesmos. Para que nos curássemos, sendo nós apenas ferida viva e errante, tínhamos que morrer para nós mesmos e algo em nós devia, também, morrer; pois o remédio fundamental da miséria humana por excelência, o pecado, é Jesus Cristo e exige de nós uma morte, uma passagem, uma conversão.
Depois dessa morte é que se abre para nós uma vida nova, que consistirá, supondo, evidentemente, um processo de santificação operado pelo Espírito Santo, em dar continuidade à morte que iniciamos no Batismo; pois todo nascimento é um drama, uma crise, um sofrimento; antes de nascer por completo, tanto o bebê como a mãe choram e gritam de dor. É porque essa vida nova não é ainda o Paraíso: continuam pulsando, de algum modo, em nós as más inclinações que escorriam da ferida que éramos.
Quando, lavados pelas santas águas batismais, renascemos para a vida eterna, eis que em nossos corações é colocado um sinal indelével, que se assemelha à Cruz de Cristo. É pela cruz que Deus nos move a alma e fala em nós para transformar-nos interiormente.
A ferida da cruz em nós é a nossa vida após a conversão, que deve ser uma vida de renúncia, de abnegação, de mortificação, de amor, de entrega, de doação, de oração e elevação dos nossos corações a Cristo. É ferida de morte e de vida; sua cura está orientada à ressurreição final. Enquanto ainda a temos, continuamos a sofrer neste vale de lágrimas, e novamente só Cristo pode redimir-nos apaziguando as dores dessa ferida, que são como dores de parto, transfigurando-a em passos em direção à plenitude no Paraíso, como fez em Sua Ressurreição; ela se torna então uma ferida de amor. Nosso Senhor foi quem a fez em nós e só Ele no-la pode curar, transformando-a num anseio de amor cada vez mais profundo, cujo apaziguamento reside no repouso no coração de quem se ama.
Depois que Cristo vem até nós e conquista-nos o coração, já não há jeito: se antes já se tratava de uma dramática questão de tudo ou nada para nós, de vida ou morte, agora, pelo amado das nossas almas, esse tudo ou nada se torna cada vez mais claro em nossa carne, em nosso interior.
O Senhor Jesus vai-se tornando, na medida em que nos santificamos, irresistível para nós, e então torna-se-nos impossível viver sem Ele. A vida começa a apresentar-nos, de modo cada vez mais claro, o seu verdadeiro valor com Ele e por Ele, ela começa a ter sentido apenas nEle, à luz da fé. Cristo se torna efetivamente nosso tudo, nosso amado. Nunca deixou de sê-lo, mas nós não o reconhecíamos como tal; passamos, desde então, a enxergar que Ele é mais nós do que nós mesmos; que já não há “nós” quando não somos ou estamos com Ele; que paradoxalmente já não há “eu” quando Ele está em mim; que, quando Ele não está em mim por eu estar distante dEle, em inimizade com Ele, tampouco há “eu”, porque só sou verdadeiramente quem fui criado para ser nEle, com Ele e por Ele. Apenas somos quem verdadeiramente somos nEle. Nosso “eu” está preso a Ele por amor; é uma prisão de amor, ao mesmo tempo em que é uma suave liberdade de amor.
O Senhor, como se disse mais acima, torna-se irresistível à alma que o ama, e esta então já nada anseia senão por Ele só; e de tal forma ela se une a Ele que, sem deixar de ser o que é, por Cristo ela se torna mais ela mesma… Quando o encontramos e passamos a amá-lo, encontramos a nós mesmos, aqueles que o Pai quer que nos tornemos; conseqüentemente, quando estamos distantes do Senhor, mais distantes estamos de nós mesmos. É por isso que inúmeras pessoas dizem que não se reconhecem a si mesmas quando pecam: parece que perdem sua pessoalidade, sua identidade. Elas têm repúdio do que fazem em face do que são e do que se tornam, ao pecar, a despeito do que são ou do que se veem chamadas a ser. Por mais que, por sermos pecadores, nos distanciemos de Cristo a cada instante, só o fazemos porque o buscamos, porque ansiamos, em certo sentido, por Ele. E por quê? Porque queremos ser felizes, mas sem Ele. Nosso coração quer ser feliz e, por isso mesmo, embora inconscientemente às vezes, dirige-se a Deus, plasmando-o nas criaturas.
Nós tentamos encontrar a Cristo nas criaturas e deter-nos nelas, isto é, queremos encontrar nelas a nossa felicidade. Mas então só pioramos o estado da ferida que nos tornamos ou que somos; queremos curá-la enchendo-a de falsos alívios, de coisas que só a vão tornar mais profunda. Distanciamo-nos do remédio que nos pode curar abismamo-nos em nossa própria miséria e, então, recusando-nos a morrer para nascer; e aí é que verdadeiramente morremos, e para sempre.
Pois Deus é nosso verdadeiro Amado. Nosso coração busca-o, na maior parte das vezes, sobretudo quando pecamos, porém, cegamente, em meio às trevas, envolto das quais comumente tece sua existência. Quando vê as grandes pompas que se dão as reis e poderosos, diz: “Ah! Eis que encontrei meu amado!” – mas o diz às cegas, fazendo das grandezas ilusórias deste mundo um deus. Ele vê os prazeres do mundo e entrega-se a eles, como a amada se entrega ao amado; e diz: “Cá estou com meu amado!” – engana-se, porém, e jamais se satisfaz.
Nisso tudo, há um denominador comum: busca-se com amor o amado. E que amado? Qualquer um que pareça identificar-se com o objeto de seus anseios; identificar-se-á com o amado aquele que lhe pareça corresponder a seu anseio de felicidade.
Mas qual é, então, o verdadeiro amado de seu coração? Apenas aquele que de fato corresponde à sua felicidade; buscando esta, busca a Deus; por isso, disse uma vez São João Paulo II que o pecado consiste em fazer das criaturas nosso Deus.
Deus, que buscamos com amor, não é amado apenas por ser amável, mas também por ser o amor; e, por ser o amor, é sumamente amável.


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