A presente tradução, realizada a partir do capítulo XIV da obra Ethics: The introduction to moral science, de John A. Oesterle, é publicada a propósito de um dos temas centrais do apostolado de nosso blogue, a verdadeira felicidade humana em sua ordem a Deus, único que pode realmente saciar-nos a alma. Ademais, antecede – e serve de complemento relativo – a publicação de um livro cujo propósito é analisar as máximas mundanas atuais e relativistas a respeito do tema da felicidade e tecer uma reflexão a respeito delas, contrapondo ao seu relativismo subjacente concepções sustentadas e fundamentadas há muitíssimos séculos no Ocidente, que hoje se encontra tão decadente.
Para maior aprofundamento, cf. Fim último e bem-aventurança.
XIV
A Ética é o estudo da felicidade humana e de como atingi-la. Estamos preocupados em estabelecer que há algum fim último pelo qual todos os seres humanos agem. Como notamos, os homens comumente falam de um fim, tal como a felicidade, ao menos no sentido de satisfação do desejo humano. O problema é em que consiste a felicidade e como ela pode ser atingida.
A felicidade consiste na direção de todas as nossas ações pela razão, o que quer dizer uma vida de virtude de acordo com a razão. Aqui, somos levados a investigar mais completamente o que a virtude em geral é, e trata-se do seguinte: o principal meio de atingir a felicidade. Para entender a virtude completamente, tivemos que distinguir os atos voluntários dos atos involuntários. Tais considerações nos permitiram indicar precisamente quando atos são moralmente bons e quando são moralmente maus, reconhecendo a reta razão como a medida fundamental intrínseca da moralidade. Estávamos então em posição de considerar as virtudes especificamente, ordenando-as todas sob as virtudes cardeais da fortaleza, temperança, justiça e prudência. A vida de ação virtuosa foi, pois, vista como a forma de vida mais produtiva de felicidade humana. Então tivemos de considerar a lei, uma vez que a felicidade de um ser humano é grandemente influenciada e formada por uma medida exterior de ação moral.
É evidente, entretanto, que nem todos os seres humanos levam uma vida de virtude ou agem de acordo com o espírito da lei moral. Portanto, para dar uma descrição completa de uma legítima vida moral, foi necessário examinar o tipo de vida que, ainda que não virtuosa atualmente, está a caminho de tornar-se virtuosa. Assim como a vida de continência, a incontinência, seu oposto, também foi estudada, uma vez que um certo número de seres humanos tende a uma falsa realização de felicidade mesmo sem se confirmarem propriamente no vício. Finalmente, já que os homens tendem a não viver de modo isolado, uma relação especial entre as pessoas é uma parte necessária da felicidade; em Ética, esta relação especial é considerada em termos de amizade, uma qualidade que, em seu estado perfeito, presume a virtude, ou ao menos a busca pela virtude, nos seres humanos.
Podemos então ver como a Ética reduz primeiramente as concepções de felicidade humana e como atingi-la. Estamos agora em posição de tomar um problema que ainda persiste sobre a felicidade humana e encarar três diferentes perguntas: 1) podemos obter a felicidade humana?; 2) podemos manter a felicidade humana?; 3) tal felicidade é plena? Devemos responder estas perguntas depois de considerar primeiramente algumas questões preliminares.
Os constituintes da felicidade
Vamos recordar o que já foi estabelecido sobre a felicidade. Demonstramos que deve haver algum fim último para a ação humana. Nenhum ser humano pode agir a menos que algo, embora implicitamente e vagamente, seja desejado por si mesmo, com tudo o que é mais desejado para ele. Todos os homens concordam, em atitude se não em palavras, com que a felicidade é tal fim último, ao menos quando compreendida como a satisfação e o preenchimento de todo desejo. Na tentativa de determinar objetivamente em que consiste a felicidade, chegamos indutivamente e analiticamente na posição de que a felicidade humana é principalmente uma vida de virtude de acordo com a razão, estendendo-se secundariamente a bens do corpo e bens externos.
Seja-nos permitido tentar explicar mais completamente o que agora parece constituir a felicidade humana. Deve incluir principalmente os bens das virtudes intelectuais e a atividade de tais virtudes, como a ciência, a compreensão, a sabedoria, a arte e a prudência, e as virtudes morais cardeais de fortaleza, temperança e justiça. Junto destes bens da alma, e incluindo o bem da amizade, a felicidade humana deve incluir bens corporais e bens externos, como a saúde, o prazer e um certo grau de riqueza.
A felicidade humana, conseqüentemente, não é um fim último no sentido de que consista em apenas um único bem. Parte da dificuldade em tentar resolver o problema de de que se constitui a felicidade humana tem sido a suposição de que um único objeto deve realizar o todo da felicidade humana; esta é uma complicação desnecessária do problema, já que agora é evidente que nenhum objeto único naturalmente conhecido e desejado poderia completamente satisfazer à busca humana pela felicidade. Por outro lado, a felicidade não consiste em uma coleção heterogênea de bens, mas em uma ordenação hierárquica de bens. A felicidade humana é una, portanto consiste na unidade de um todo ordenado, uma unidade que surge de uma hierarquia natural de bens objetivos. A ordenação destes bens em um todo unificado de acordo com sua relativa importância é baseada na hierarquia natural dos poderes humanos e dos objetos que especificam suas operações. Nossos poderes vegetativos, por exemplo, são direcionados ao bem do corpo, principalmente à saúde, e pelo bem da saúde é que fazemos uso de bens externos, como os da riqueza por exemplo. Nossos poderes de conhecimento e desejo estão interessados nos bens do conhecer e do gozar, bens maiores que a saúde física no sentido de que somos saudáveis para podermos aproveitar a vida, não o contrário. O bem do gozo, por sua vez, é alcançado através da vontade. Este último bem é duplo: o bem buscado pela vontade em termos de amizade, honra e semelhantes, e o bem buscado no alcançar da virtude moral, da perfeição moral de nossa própria vida. Há, finalmente, o bem próprio do intelecto, o bem encontrado no conhecimento em si, no entender e contemplar todas as verdades que podemos conhecer.
Os constituintes da felicidade humana, portanto, abrangem o seguinte em uma ordem ascendente do menos importante para o mais importante:

Está claro, no nosso presente estado de investigação, que aquilo que estamos chamando de “bens da alma” constitui principalmente a felicidade. Há uma pergunta, entretanto, sobre a importância dos bens da alma em relação uns aos outros. É esta pergunta que gera o problema da contemplação versus ação. Este problema pode ser declarado mais precisamente perguntando-se o que é melhor para o homem: atingir perfeição intelectual pelo conhecimento e contemplação ou atingir perfeição moral e boa ação humana, cujo princípio é a vontade. Este mesmo problema pode ser posto em termos diferentes: é a contemplação ou a perfeição moral que constitui, acima de tudo, a felicidade humana? Estas duas questões não são a mesma coisa: uma pergunta qual é maior para o homem, enquanto a outra pergunta qual, acima de tudo, constitui a felicidade humana. Ao responder a ambas, podemos resolver um problema que é importante e difícil. Tal problema surge, deve-se notar, apenas por presumir-se que ambas são essenciais para a felicidade humana. A dificuldade está em tentar determinar qual tem primazia.
Seja-nos permitido primeiro considerar qual é maior para o homem. Se a felicidade consiste na melhor operação que podemos realizar, e se a operação da razão em si é a mais excelente que temos, então a vida da razão tal como se constitui na contemplação, especialmente porque inclui um conhecimento natural de Deus, pareceria, mais que tudo, constituir a felicidade. Este argumento baseia-se em verdades tiradas da Psicologia, segundo a qual o poder da razão é maior que o da vontade e amamos em termos daquilo que conhecemos. Além disso, a contemplação da verdade parece ser o bem mais nobre e, portanto, o maior bem que podemos alcançar. A contemplação é também mais contínua e mais duradoura que qualquer outra operação que temos. É buscada, mais que tudo, por si mesma e é, acima de tudo, autossuficiente. Finalmente, a contemplação aperfeiçoa o homem atenciosamente para aquilo que sua natureza especificamente é, racionalidade.
Mesmo assim, mesmo garantindo que a contemplação da verdade é o maior bem que o homem pode alcançar, faz sentido dizer que a contemplação mais que tudo constitua a felicidade para o homem? O que é maior em si mesmo talvez não faça o homem mais feliz como um ser humano. Pois, enquanto parece ser verdade que a contemplação é a resposta para a primeira pergunta que fizemos, nomeadamente, que uma vida de contemplação é maior, em si mesma, que uma vida de ação, não faz sentido que esta seja a resposta para a segunda pergunta e que isto constitua a felicidade humana mais perfeitamente. Há, de fato, ao menos duas razões para pensar que uma vida de contemplação não constitui felicidade completa para o homem.
A primeira razão é que contemplação parece ser muito elevada para um ser humano. O homem é racional, mas, precisamente sendo racional, ele não é completamente intelectual. Uma vida de contemplação devotada simplesmente a adquirir conhecimento caracteriza um ser que é apenas e somente intelectual. A natureza humana é complexa – animal e também racional –, portanto a satisfação do homem inteiro, como um ser composto, não consistirá em algo pertencente a apenas uma parte dele, mesmo que seja a melhor parte. Nós então devemos reconhecer que a contemplação está acima do homem em vez de apropriada a ele. A segunda razão é baseada em fatos de experiência. Em geral, os seres humanos não são necessariamente mais felizes quando estão engajados na contemplação. Mesmo a pessoa mais contemplativa precisa de algo a mais em função de ser feliz na forma como os seres humanos são felizes. Ademais, a maioria dos seres humanos não parece levar uma vida de contemplação em nenhum sentido desenvolvido do termo.
A vida feliz, de acordo com a complexa natureza de um ser humano, portanto, é realizada mais em uma vida de ação, ou seja, em uma vida de perfeição moral originada de uma vontade bem ordenada. Falando absolutamente, esta vida de virtude moral é felicidade em um sentido secundário, pois a felicidade perfeita consiste em contemplação e na vida de razão em si. Mas a vida de acordo com a virtude parece ser o tipo de felicidade que beneficia a natureza complexa do homem. Entretanto, uma pergunta surge. Se o homem deve ser feliz como homem, pode a vida de virtudes morais, a qual parece estar conectada principalmente com a vontade e as paixões, satisfazer suficientemente à parte intelectual da complexa natureza do homem?
Esta pergunta é respondida ao relembrar que a virtude moral é ordenada e direcionada pela prudência, uma virtude ao mesmo tempo intelectual e moral. Como vimos, a prudência é tanto uma virtude intelectual quanto uma virtude moral. A vida de ação moralmente virtuosa, portanto, direcionada e desenvolvida pela virtude intelectual da prudência, é a vida mais condutiva à felicidade para um ser que tem uma complexidade de natureza como a humana. Por isso reconhecemos que o tipo de felicidade realizável pelo homem não é o mais alto grau de felicidade realizável; a felicidade humana não é a felicidade perfeita. Embora através da prudência e da virtude moral o homem se disponha à vida contemplativa no grau que ele possa atingir, e assim podemos dizer que a contemplação também constitui a felicidade humana. Como estamos dizendo desde o início, contudo agora mais completa e inteligivelmente, felicidade humana é a vida de virtude em concordância com a razão – ou seja, uma vida de ação moralmente virtuosa baseada na prudência, junto a qualquer grau de contemplação que seja possível ao homem. Todos os outros bens, externos e corporais, serão buscados secundariamente e na proporção em que contribuem para atingir a felicidade humana como a conhecemos e entendemos.
Podemos obter tal felicidade?
Podemos agora considerar esta pergunta e as outras duas que levantamos no começo deste capítulo. Nosso primeiro problema é se todos os seres humanos ou mesmo a maioria podem e atingem a felicidade como a conhecemos e compreendemos. Algumas pessoas certamente parecem estar exclusas de poder atingir tal felicidade, os mentalmente insanos por exemplo. Outras pessoas são seriamente afligidas, na maior parte de suas vidas, pela pobreza ou má saúde ou pesados fardos de responsabilidade. Poderíamos facilmente multiplicar instâncias ilustrando quantos seres humanos, em função de variadas razões e circunstâncias, parecem impedidos de atingir a felicidade. Por isso, a conclusão de que uma boa quantidade de indivíduos não atinge a felicidade humana parece inevitável, e podemos até mesmo imaginar até que ponto a maioria dos seres humanos atinge uma vida de virtude de acordo com a razão.
Podemos manter tal felicidade?
Permitamo-nos admitir, entretanto, que os seres humanos possam atingir a felicidade. Podemos garantir que uma pessoa seja capaz de superar as limitações de má saúde ou pesados infortúnios e atingir um real nível de felicidade. Podemos reconhecer que em muitos casos a insanidade pode ser curada e a destituição, aliviada. Em uma palavra, seja-nos permitido admitir que os seres humanos são capazes de atingir a felicidade neste ou naquele tempo particular. Fazendo esta admissão, podemos apenas parecer chegar na mais difícil pergunta sobre se a felicidade, uma vez alcançada, pode ser mantida.
É uma pergunta difícil de responder, pois parece ser ainda mais difícil manter a felicidade do que alcançá-la. A dificuldade de ser capaz de continuar em um real estado de felicidade é grande para qualquer ser humano, não importa o quão favoráveis sejam suas condições e circunstâncias, pois há sempre um futuro obscuro [à nossa frente] e a influência onipresente da possibilidade. Um homem genuinamente feliz na segunda-feira pode sentir-se miserável na terça-feira.
Felicidade essencial e felicidade relativa
Podemos responder às seguintes perguntas até certo ponto distinguindo entre felicidade realizada essencialmente e felicidade realizada relativamente. A felicidade humana realizada essencialmente é a vida de ação moralmente virtuosa baseada na prudência com qualquer grau de contemplação que seja possível. A felicidade humana realizada relativamente estende-se ao aproveitamento de bens externos e corporais, ambos para o bem que têm de si mesmos e para sua utilidade em realizar a vida de felicidade essencial. Precisamos também ter em mente a distinção entre felicidade objetiva, os bens objetivos constituindo tanto a felicidade essencial quanto a relativa, e a felicidade subjetiva, o alcance e posse de tais bens.
Podemos responder à primeira pergunta dizendo que seres humanos podem e atingem tanto a felicidade essencial quanto a relativa à medida que procuram aquilo que objetivamente constitui a felicidade humana. Ao mesmo tempo, devemos reconhecer que a felicidade objetiva será alcançada em graus variados por diferentes pessoas. Objetivamente, felicidade essencial e relativa são as mesmas para todos; subjetivamente, há uma realização proporcional.
Uma vez atingida, a felicidade essencial pode ser mantida, mas devemos advertir que é mantida por várias pessoas em proporcionais e variados graus. A vida de virtude de acordo com a razão, de fato, é uma condição permanente que podemos esperar possuir. O homem de boa razão e ação virtuosa é ao mesmo tempo também formado e permanentemente constituído no saber e agir tão humanamente quanto possível. Todos nós podemos ambos atingir e manter tal bem formado estado em proporção à nossas habilidades e poderes, já que virtudes intelectuais e morais são qualidades permanentes da alma. Não obstante, como veremos adiante, devemos qualificar nossa resposta à segunda pergunta. Alcançar a felicidade essencial não necessariamente garante que esta será mantida. Devemos também levar em conta o ponto teológico do efeito do Pecado Original e a necessidade de graça sobrenatural tanto em obter quanto em manter mesmo uma perfeição natural.
Felicidade relativa, consistindo em bens corporais e externos os quais são requeridos para a integridade ou preenchimento da felicidade humana, pode não ser mantida. Podemos, por exemplo, não ser capazes de manter boa saúde; podemos estar sem dinheiro suficiente; podemos perder uma variedade de bens sociais. A perda de algum ou mesmo da maioria desses bens vai sem dúvida afetar materialmente a felicidade humana, mas ela não precisa afetar a felicidade humana essencial. É claro, há vezes e ocasiões em que a perda de certos bens externos ou físicos contribui para uma melhor realização da felicidade essencial. Em qualquer caso, enquanto não tendemos a manter a felicidade relativa em plenitude, devemos reconhecer que, embora tais perdas diminuam o preenchimento da felicidade humana, sua necessidade não diminui a felicidade essencial.
A felicidade humana é a felicidade completa?
Finalmente, chegamos à terceira pergunta, a pergunta mais difícil, a mais interessante e a mais importante. É a felicidade humana em seu melhor, abrangendo tão completamente quanto possível tanto a felicidade relativa quanto a essencial, a felicidade completa para um ser humano?
Podemos responder a esta pergunta de uma forma simples. Felicidade essencial e relativa é a felicidade tão completa quanto seja possível para um ser humano. É a felicidade completamente proporcionada à natureza humana; serve verdadeiramente como um fim ao qual a natureza humana tende; é um fim que os homens bem ordenados buscam realizar. É importante reconhecer, nesta conexão, que um fim último para os seres humanos não é uma condição estática; não é um fim atingido completamente e perfeitamente todo de uma vez. A vida humana é sucessiva, não simultânea; dinâmica, não estática. A realização que o homem tenha de seu próprio fim, conseqüentemente, dar-se-á em conformidade com a natureza que ele tem, o que supõe uma sucessiva e contínua realização. A felicidade humana é atividade no melhor modo humanamente possível. A este respeito, então, podemos dizer que há uma plenitude para aquilo que descrevemos como felicidade humana, especialmente felicidade humana essencial.
Não obstante, nós ainda somos forçados a admitir que mesmo a felicidade humana essencial não é a felicidade no sentido completo e próprio do termo. Podemos detectar uma incompletude radical da felicidade humana ao retornarmos, novamente, à experiência.
Estamos cientes, antes de tudo, de que a vida humana no seu melhor e mais feliz momento é ainda mais ou menos compatível com a aflição de grandes males. Assim, como vivemos nossas vidas, somos relativamente cientes de que estamos sujeitos constantemente e infinitamente a vários males; além disso, estes males nunca podem ser completamente eliminados. Quando algum é exterminado, outros nascem, e alguns nunca são completamente removidos. Há, por exemplo, um mal constante afetando a mais elevada parte de nós (o intelecto), o mal da ignorância. Não dizemos a ignorância pela qual somos responsáveis e poderíamos remover, mas uma ignorância surgindo simplesmente da limitação de nosso poder de saber. É uma ignorância da qual somos necessariamente sujeitos, dado o pequeno tempo que temos para aprender e o quase infinito grau de conhecimento que sabemos querer atingir.
Há males surgindo de tendências desordenadas e movimentos do apetite, ambos na vontade e nas emoções. Mesmo o mais ordenado ser humano não é completamente livre de alguma inclinação desordenada em seu apetite. De certa forma, de fato, quanto mais moralmente ordenado um ser humano é, mais é ciente de tais inclinações em si mesmo, muito embora ele possa ter controle racional sobre elas por todo ou na maior parte do tempo. Não obstante, tais inclinações desordenadas nunca são completamente apagadas. Os fatos da experiência sugerem que há uma natural, talvez inevitável, contrariedade na natureza humana entre o apetite e a razão. Embora possamos ser bem sucedidos em superar esta contrariedade, temos um grau de infelicidade em reforçar o que parece ser uma guerra contínua de maior ou menor intensidade dentro de nós mesmos.
Além disto, somos forçados para baixo pelas inevitáveis doenças do corpo.
Para ter certeza, podemos notar que as necessidades corporais doentes não tocam a felicidade essencial em nós, tão logo percebamos que mesmo a mais perfeita condição do corpo não garante a felicidade essencial. Não obstante, como sabemos por experiência, males afetando o corpo nos afetam intimamente. A união íntima do corpo e alma é uma garantia suficiente de nosso ser tão ser afetado. Há suficiente evidência de que doenças corporais podem induzir doenças psicológicas e até mesmo morais. Não seria realista negar que males deste tipo, mesmo que não diminuam seriamente a felicidade essencial, certamente impedem-nos de sermos completamente felizes.
Poderíamos resumir o que foi dito dizendo que não há garantia de felicidade permanente para nós, e certamente a esse respeito a felicidade não é completa para nós. A qualquer momento, podemos ser seriamente afetados por males afligindo o intelecto, o apetite e o corpo, sucessivamente ou de uma vez só. Experiência ampla manifesta a tenuidade de nosso controle da boa condição do intelecto, apetite e corpo. Dissemos, anteriormente, que podemos manter a felicidade essencial, implicando isto portanto uma permanência em uma vida de virtude de acordo com a razão. Mas também notamos que essa asserção estaria sujeita a uma qualificação. A qualificação é que, enquanto alguém pode ser capaz de manter a felicidade essencial por algum tempo, ainda parece não ter garantia de que alguém pode ser permanentemente feliz, essencialmente ou relativamente. Mesmo o poder da razão em si pode ser danificado ou perdido através da idade ou da doença; e a virtude, embora difícil de perder uma vez adquirida, mesmo assim pode ser perdida.
Há ainda outra dificuldade, ainda mais profunda e séria que a falta de permanência. Para a felicidade ser completa em qualquer sentido real do termo, deve ser atingida de tal modo que ponha em descanso todo esforço e desejo. Quando dizemos “pôr todo desejo para descansar” não nos referimos à cessação ou eliminação do desejo no sentido de chegar-se a um estado de inércia. Dizemos, em vez disso, a satisfação e completa realização de todo desejo, um estado de completa realidade. Nada sobra para ser desejado e não há desejo para buscar mais nada, precisamente porque atingimos uma experiência de ser completamente atualizado. Tal estado de existência certamente seria a felicidade completa, a posse completa de tudo o que poderíamos querer. Mas a coisa mais evidente que aprendemos de nossas experiências em todos os períodos da vida é que nunca atingimos, ou mesmo chegamos perto de atingir, uma satisfação tão completa de todo esforço e desejo. Quanto mais aprendemos, mais desejamos saber aquilo que ainda não sabemos; o desejo de saber apenas aumenta à medida que aprendemos mais coisas. Nenhuma pessoa jamais soube, ou poderia saber, de forma a satisfazer a todo desejo por conhecimento. Semelhantemente, não há objeto que satisfaça completamente ao nosso amor tal como agora experienciamos o amor. Como nosso conhecimento, nosso amor apenas aumenta à medida que amamos diferentes pessoas e experienciamos diferentes objetos. Tanto nosso conhecer quanto nosso amar, do ponto de vista de suas capacidades, esticam-se para algo infinito, e não seremos completamente felizes com nada limitado, não importa quão grande e maravilhoso possa ser.
Um indivíduo pode ser tentado ao desespero, confrontado com esta afirmação de que a felicidade completa parece ser impossível. Há, claro, o fato da morte, e a morte parece ser uma resposta no sentido de que pode ser a única forma de trazer um fim a todo desejo e esforço. Mas o homem naturalmente se revolta em face da morte, e a consideração da morte induz à tristeza ao invés de à alegria e felicidade.
Para alguns, a morte é o fim, mas no máximo é um fim apenas no sentido de ser a última realidade em uma sucessão de eventos temporais. Nunca é um objetivo. Nunca é um fim no próprio sentido de ser o primeiro na intenção, pois nenhum ser humano vive simplesmente para o propósito de morrer. A morte compreendida como mera aniquilação revolta toda tendência do homem; nenhum ser humano descansa contentemente na convicção de que tudo será como se nada tivesse sido, de que aquele que agora é deixará de ser, como se jamais tivesse sido. Portanto, a morte não pode ser uma resposta eficaz aos nossos anseios.
Felicidade absoluta e felicidade proporcionada
Nossa experiência traz-nos ao reconhecimento, mais cedo ou mais tarde, de que a felicidade completa[1] não é possível nesta vida e que é possível,[2] mas não nesta vida. Somos então levados a ver que deve haver uma vida eterna para além da vida atual. Uma vida eterna significa, primeiramente, uma vida de imortalidade. Podemos saber pela razão que o homem, com respeito ao princípio de vida que nele há, a alma, é incorruptível e, portanto, imortal. Neste sentido, o homem sobrevive à morte, morte agora entendida como a separação de corpo e alma, os princípios dos quais o ser humano é composto. Podemos, pois, falar de uma imortalidade natural e ter certeza disto sem, contudo, compreender muito sobre o que tal vida seria.
Mas vida eterna toma completo e concreto sentido quando, iluminados pela Revelação, a entendemos em termos de uma vida sobrenatural. Para os cristãos, essa vida sobrenatural é uma certeza feita conhecida por Deus através de Cristo; é feita inteligível através de oração e ensino e é confirmada por sinais e milagres. É uma vida que começa aqui na terra ao viver em estado de graça, um estado de amizade com Deus. A amizade natural não permite uma afinidade ou amizade [profunda] entre Deus e o homem, porque não há base natural para eqüidade proporcional entre Deus e o homem, mas através da graça tal amizade é possível. A vida de amizade com Deus, tal como a experienciamos agora, é, como o nome “vida” diz, não estática, mas dinâmica, como é a vida de virtude, e isso culmina na visão intelectual de Deus mesmo. O “ver a Deus face a face” figurativamente expressa um modo de conhecer e amar infinitamente elevado, acima dos poderes naturais que o homem tem. A expressão visão beatífica significa completo entendimento e alegria finalmente realizados. Tal felicidade é completa e absoluta.
Nós nos temos, é claro, movido do nível da Filosofia para o nível da Teologia e, em relação à pergunta a respeito do fim último do homem, da Filosofia Moral para a Teologia Moral. Temos, de modo semelhante, ido de o que poderia ser chamada felicidade proporcionada para felicidade absoluta. Há, deve-se garantir, um salto de uma para a outra, um salto que não poderia ser conhecido sem a Revelação e não poderia ser atingido sem o auxílio da graça. Ao mesmo tempo, entretanto, podemos reconhecer que há um legítimo sentido no qual a ordem natural é aberta à ordem sobrenatural. Essa pergunta da felicidade última do homem abre a mente do homem para a ordem sobrenatural. O que agora falta ser dito depende de ambos os conhecimentos, natural e conhecimentos obtidos através da Revelação, conhecimentos filosóficos e conhecimentos teológicos. Apenas dessa forma podemos resolver completamente as questões finais e dificuldades sobre os fins últimos do homem.
Pusemos o plural fins em itálico. A natureza humana tem dois fins últimos correspondentes às duas distintas ordens, natural e sobrenatural; ou poderia ser dito que o homem tem um fim último duplo. Nesta distinção está a resolução do problema da felicidade do homem.
Deveremos usar o termo felicidade proporcionada para designar o fim último natural do homem, o fim proporcionado por sua própria natureza. Como vimos, é uma vida de virtude de acordo com a razão, uma vida de contemplação e ação. Já sabemos que é uma vida que pode ser atingida pelo homem em sua vida temporal, terrena, embora sua permanência não possa ser garantida. É o único tipo de felicidade ao qual o homem, por natureza, é ordenado. Ele a obtém sucessivamente através de um tempo de vida normal, principalmente por meio da virtude. Não é felicidade perfeita e absoluta, um grau de felicidade a que o homem não é chamado [por sua própria natureza humana apenas], nem sequer conceberia uma felicidade tão perfeita como realizável caso não fosse sobrenaturalmente revelada. Mais ainda, os fatos de nossa experiência revelam um anseio por algo que seria tal felicidade perfeita, e podemos ver novamente a abertura da vida natural para a sobrenatural. Apenas a fins de comparação com a felicidade perfeita conhecida pela fé e realizável de um modo sobrenatural podemos falar de felicidade natural como “felicidade imperfeita”. Este ponto não detrata do fato de que a felicidade natural é verdadeiramente um fim último em sua ordem e que é realizável.
Deveremos usar o termo felicidade absoluta para designar a felicidade completa e perfeita, aproveitada na visão beatífica. Pode ser atingida e mantida pelo homem eternamente. Satisfaz completamente, em um grau infinitamente além da capacidade humana, a todo desejo humano por conhecimento e amor. Excede, de fato, todas as qualificações que poderíamos imaginar como necessárias para a felicidade perfeita. É um fim dado com total gratuidade por Deus ao homem.
A relação entre um fim natural e um fim sobrenatural
Estabelecemos até agora que o homem tem dois fins últimos distintos. Talvez seja mais claro dizer que a felicidade do homem é dupla: a felicidade natural, que é proporcionada à natureza humana, e a felicidade sobrenatural, que excede completamente a natureza humana. Posto desta forma, vemos que o termo “felicidade” ou “fim último” não é unívoco, quer dizer, completamente o mesmo em sentido, mas análogo.
A diferença de sentido vem do fato de que o objeto da felicidade difere nos dois casos. A felicidade natural consiste nos bens do corpo e bens externos, todos realizados em uma ordem hierárquica. O objeto da felicidade sobrenatural é Deus mesmo, sobrenaturalmente conhecido e amado. A similaridade de sentido é a satisfação do desejo humano, naturalmente e sobrenaturalmente.
Já indicamos, entretanto, que, comparado ao fim sobrenatural, o fim natural é imperfeito, não com respeito à natureza humana, mas com respeito à felicidade em si. Podemos ir ainda mais longe quando falando comparativamente. Assim como Deus é totalmente e a criatura, como se não fosse, assim a felicidade natural é como nada comparada à felicidade sobrenatural. Este modo comparativo de falar salvaguarda duas distintas, mas relacionadas, verdades: 1) o homem de fato não é ordenado apenas à felicidade natural; 2) a ordem moral natural tem um fim último genuíno. Dois erros são, portanto, exclusos: 1) a felicidade absoluta do homem é a felicidade natural; 2) a felicidade do homem é apenas sobrenatural. Conseqüentemente, para compreender toda a verdade sobre a felicidade humana, devemos ver a distinção entre a ordem natural e sobrenatural assim como entender que a ordem natural é remida e aperfeiçoada através da ordem sobrenatural.


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