Fim último e bem-aventurança

           

            Fr. Reginauld Garrigou-Lagrange, A síntese tomista, sétima parte: Teologia Moral e Espiritualidade, I. Fim último e bem-aventurança.

            Em primeiro lugar, o Aquinate demonstra (q. 1) que o homem, ser racional, deve agir por um fim conhecido como tal – sub ratione finis – e por um fim último capaz de aperfeiçoá-lo plenamente, no qual possa repousar. Porque o fim é aquilo pelo que agimos, e é necessário um motivo supremo de ação pelo menos confusamente conhecido. Com efeito, não podemos proceder até o infinito na subordinação dos fins, como tampouco na subordinação das causas eficientes. E, como todo agente obra por um fim proporcionado, a subordinação dos agentes corresponde à dos fins, e o primeiro motor, ao motivo supremo de obrar. O fim último que será alcançado em último lugar na ordem da execução é o que primeiramente se deseja e se quer na ordem da intenção, pois é aquilo pelo que se quer todo o restante. Por isso deve ser conhecido como desejável, pelo menos confusamente; assim, por exemplo, a defesa da pátria para o general do exército. E por esta razão todo homem deseja a felicidade, cada qual deseja ser feliz, porém muitos não percebem que a verdadeira felicidade está em Deus, Soberano Bem, amado verdadeiramente mais que a nós mesmos e sobre todas as coisas.

            O Santo Doutor demonstra, na continuação (q. 2), que os bens criados não podem proporcionar ao homem a verdadeira felicidade, porquanto esta não se encontra nem nas riquezas, nem nas honras, nem na glória, nem no poder, nem nos bens do corpo, nem no prazer, nem na ciência, nem na virtude nem nos demais bens criados da alma, pois o “objeto de nossa vontade é o bem universal, como a verdade em sua universalidade é o objeto de nossa inteligência. Por isso, a vontade só pode descansar de uma maneira plena no bem universal. Ora, este não se encontra realmente em nenhum bem criado, senão tão somente em Deus, porque toda criatura possui uma bondade participada” (q. 2, a. 8). Para entender bem esta idéia, é preciso notar que o objeto que especifica nossa vontade não é um determinado bem deleitável, útil ou honesto, senão o bem em toda a sua universalidade, tal como o conhece nossa inteligência, muito superior aos sentidos e à imaginação. Contudo, o bem se encontra de modo limitado em todo bem criado e só pode encontrar-se como universal ou ilimitado no Soberano Bem, fonte de todos os outros, que é o próprio Deus.

            Esta é uma prova da existência de Deus, Soberano Bem. Esta prova apoia-se neste princípio: um desejo natural fundado não na imaginação ou no extravio da razão, senão na natureza mesma de nossa vontade e de sua amplitude universal, não pode ser vão ou quimérico. Pois bem, todo homem tem desejo natural da felicidade, e tanto a razão como a experiência demonstram que a verdadeira felicidade não está em nenhum bem limitado ou finito, pois, como nossa inteligência concebe o bem universal e ilimitado, a amplitude natural de nossa vontade, iluminada pela inteligência, é também ilimitada. Ademais, neste caso não se trata de um desejo natural condicional e ineficaz, como o desejo da visão beatífica, fundado neste juízo condicional: esta visão seria para mim a bem-aventurança perfeita se fosse possível que eu fosse elevado a ela e se Deus certamente me quisesse elevar-me a ela. O desejo do qual falamos agora é um desejo natural inato, fundado não em um juízo condicional, senão imediatamente na natureza mesma de nossa vontade e em sua amplitude universal. Não existe um desejo natural sem um bem desejável e sem um bem da mesma amplitude que este desejo natural. Deve existir, portanto, um bem sem limites, bem puro, sem mistura de não-bem ou de imperfeição, porque unicamente nele se encontra realmente o bem universal que especifica nossa vontade e que pode ser conhecido naturalmente de uma maneira mediata no espelho das coisas criadas.

            Sem a existência de Deus, Soberano Bem, a amplitude universal de nossa vontade, ou sua profundidade que nenhum bem finito pode abarcar, seria uma absurdidade radical, ou algo carecente de sentido em absoluto. É esta uma impossibilidade absoluta, que está gravada na natureza mesma de nossa vontade, cujo desejo natural se projeta não na idéia do bem, senão em um bem real (porque o bem não está no espírito, mas nas coisas), e em um bem real não restringido, que possua a mesma amplitude que o desejo natural que se inclina a ele.

            O objeto especificativo da vontade, no entanto, deve distinguir-se de seu fim último, inclusive natural. Este objeto especificativo não é Deus, Soberano Bem, o qual especifica imediatamente a caridade infusa, senão que é o bem universal conhecido naturalmente pela inteligência, o qual se encontra de um modo participado em tudo o que é bom, porém que, como bem ao mesmo tempo real e universal, só se encontra em Deus – Solus Deus est ipsum bonum universale, non in praedicando, sed in essendo et in causando. Bem observou-o Caetano (in I-II, q. 2, a. 7) ao dizer, com Aristóteles: “dum verum est formaliter in mente, bonum est in rebus”. Legitimamente, pois, por este realismo da vontade e da finalidade, passa-se do bem universal in praedicando ao bem universal in essendo.

            Por isso, se o homem tivesse sido criado em um estado puramente natural, sem a graça, só teria encontrado a verdadeira felicidade no conhecimento natural de Deus e no amor natural a Deus, autor da natureza, preferido a todas as coisas. É evidente, com efeito, que nossa inteligência, imensamente superior aos sentidos e à imaginação, foi feita, por sua natureza mesma, para conhecer a verdade e por isso deve tender ao conhecimento da verdade suprema, pelo menos da maneira que é naturalmente cognoscível no espelho das coisas criadas. E, pela mesma razão, nossa vontade, que foi feita para amar e querer o bem, tende naturalmente a amar sobre todas as coisas o Soberano Bem, pelo menos da maneira que Ele é naturalmente cognoscível (cf. I, q. 55, a. 5; II-II, q. 26, a. 4).

            Porém a Revelação faz-nos saber que Deus nos chamou gratuitamente a uma bem-aventurança essencialmente sobrenatural, a vê-lo imediatamente e a amá-lo com um amor sobrenatural, perfeito e inamissível. Santo Tomás faz consistir a essência da bem-aventurança suprema no ato essencialmente sobrenatural da visão imediata da essência divina, uma vez que por este ato tomamos posse de Deus; o amor precede esta posse sob a forma de desejo e segue-a sob a forma de gozo, de uma puríssima complacência, porém esta não a constitui formalmente. Ora, a bem-aventurança é essencialmente a posse do Soberano Bem (q. 3, a. 4-8). Mas a bem-aventurança é constituída essencialmente pela visão beatífica e implica, como complemento necessário, o amor ao bem supremo, o deleite que dele provém e também a glorificação do corpo e a sociedade dos Santos (q. 4, a. 1-8).

Resposta

  1. Avatar de Ética e felicidade humana | Lux Aeterna

    […] Para maior aprofundamento, cf. Fim último e bem-aventurança. […]

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