O Matrimônio católico e seus inimigos

I

Dentro de todo estado de vida, há uma realidade ideal à luz da qual se deve configurar o viver concreto, para que aquela se atualize neste, especificamente, em uma pessoa determinada, segundo suas circunstâncias particulares, que nunca podem ser tais que, enquanto o indivíduo viva em tal ou qual estado, qualquer possibilidade de aperfeiçoamento se dissipe.

Revoltas subjetivas e desordenadas contra essas realidades objetivas e queridas por Deus, como o são, por exemplo, o Matrimônio e um ofício árduo, simplesmente impedem que o sujeito que as vive se realize, sendo que são precisamente circunstâncias no seio das quais ele se pode efetivamente realizar, a despeito de seus devaneios infantis, de suas fugas idealísticas ou, até mesmo, de suas alegações de que, em verdade, o que não passa de idéia é dizer que se pode viver intensamente uma realidade tão cheia de sofrimentos e dificuldades como o Matrimônio católico, fazendo, nesse caso, e apenas nesse caso, uso da realidade, da qual, ironicamente, ele mesmo foge no ato mesmo de usá-la para justificar suas tolices.

Assim, todo ato de reclamação ou revolta contra sua própria realidade, na medida em que fere um genuíno e atual chamado de Deus para uma pessoa, é mais um problema interior do que exterior; é mais questão de não saber germinar — ou permitir-se germinar — em solos ditos “ruins” do que de absoluta infertilidade do solo.

II

No Matrimônio, as finalidades o unitiva e procriativa têm de andar juntas. Se esta última for deliberadamente impedida mediante o uso de preservativos e anticoncepcionais, por exemplo, já não se estará vivendo mais um Matrimônio santo, e então a sexualidade que lhe é própria, uma vez desvirtuada, torna-se não mais caminho de santificação do casal, senão ato egoísta que, visando sobretudo a um prazer pessoal e fugindo às grandes responsabilidades de uma vida genuinamente cristã, se converte em uma rampa para o Inferno.

Por incrível que isto possa parecer, são muitos os que se opõem à santidade conjugal. Quanto a estes, que se opõem aos ensinamentos da Igreja a respeito do Matrimônio afirmando que são por demais rigorosos, “atrasados” e não sei mais o quê, é interessante notar o fato de que essas pessoas que perguntam, ironicamente, quantos filhos temos, por exemplo, ou que dizem que só quem tem filhos pode opinar a esse respeito, não terem assimilado intelectualmente — quando falo de assimilação intelectual aqui, não estou falando evidentemente de algo restrito a intelectuais, mas de uma compreensão autêntica e suficiente de uma realidade — a experiência de ter filhos: o simples fato de alguém ter-se tornado pai ou mãe parece conceder-lhe autoridade suficiente para determinar a verdade sobre a criação dos filhos, traduzida, geralmente, como uma “dura realidade sobre a qual só pode opinar quem a vivenciou”, a despeito de qualquer objetividade apreendida e claramente elucidada da experiência humana à luz de ideais genuínos, legítimos e passíveis de realização.

Não deveria opinar quem não viveu tais ou quais experiências, dizem. Mas, e quem viveu mas não assimilou a situação, esse não deveria crer que também sua opinião não é de grande valor?

Por exemplo, certas mulheres engravidam sem querer e veem-se incapazes de educar seus filhos adequadamente; proporcionam-lhes, contudo, o suficiente à sua subsistência. Diante das dificuldades da vida, que são muito comuns para todo mundo, especialmente a pobreza, elas chegam, então, à conclusão de que é duro criar filhos, de que são ridículos aqueles que defendem um Matrimônio aberto à vida, por aparentemente não condizer com a realidade, e não aceitam os argumentos, por mais fortes que estes sejam, que contrariam essa conclusão absurda a que chegaram em razão de sua incapacidade de assimilar intelectualmente uma situação humana extremamente comum, embora profunda e rica, obviamente.

Sob a ótica da ignorância, a riqueza da maternidade e do Matrimônio esvai-se nas trevas da mentalidade mundana; quando, então, a Igreja apresenta esse tesouro fantástico para o mundo, a suposta armadura argumentativa da “realidade” é vestida por muitos, especialmente por falsos católicos, aqueles que, não sem razão, são chamados, aqui no Brasil, de “católicos de IBGE”.

É como alguém que se casa sem a devida preparação: não sabe o que é o Matrimônio, não discerniu a vocação, mas, de forma precipitada, deixa-se levar pelo ímpeto de paixões ou de suas próprias ilusões, à vista de uma pessoa que, não raro, só conheceu superficialmente e com a qual não quer ter reais e profundas responsabilidades. Ademais nem sequer contraiu um Matrimônio válido na Igreja: foi ao cartório e pronto. Pouco tempo depois, o sujeito vê que está dando tudo errado, que o casamento não está sendo como ele sonhou, e então nasce em sua mente a ideia de que esta é a “dura realidade da vida”. Quando vê o que a Igreja ensina sobre o Matrimônio, sobre o caminho de santificação que ele é, sobre toda a sua profundidade, discorda prontamente, argumentando que “a realidade é diferente”.

Em resumo: esses sujeitos opinam à força de sua experiência pessoal de fracasso; o problema, causado muitas vezes por sua imaturidade, é então exposto sob as vestes da suposta “dura realidade”, precisamente porque a reduziram aos limites de sua falta de virtudes humanas básicas. No final das contas, muitas pessoas concordam com isso, pois viveram o mesmo. E quem há de discordar de algo aparentemente tão verdadeiro, não é mesmo?

Obs.:

Que fique claro que não estou dizendo que não seja duro criar filhos ou viver uma vida conjugal sã, senão que essa dificuldade jamais pode aparecer como razão suficiente para o casal não ser aberto à vida, por exemplo, ou para afirmar-se a impossibilidade de viver santamente um Matrimônio.

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