Contemplando estes céus que plasmastes

Contemplando estes céus que plasmastes […] (cf. Salmos VIII)

Esta experiência do salmista é um brado universal do coração humano. Não chega a ser anseio, mas conecta-se com um anseio fundamental. Por natureza o homem é um ser religioso, por natureza tende a Deus; ao mesmo tempo, por natureza é um ser débil e infinitamente inferior a Deus, Santidade suma e infinita, Bondade e Beleza eternas. Há, portanto, uma inexprimível distância entre Deus e o homem, um abismo tão aterrador que é chamado infinito. E de fato: é humanamente intransponível o abismo que há entre Deus e o homem.

Por isso, o salmista, contemplando a Criação visível em seus esplendores invisíveis, deixando-se compenetrar pelo orvalho da paz divina que é irradiado pelo insondável firmamento, pela noite, diz com profunda admiração: “Que é o homem, para que penses nele com tanto carinho?” – sim: que é o homem, ó homem? Que sou eu, que sou homem? E mais: que sou eu diante da Criação visível, tão visível quanto eu? Que sou eu diante da abóbada estrelada, da abóbada iluminada pela aurora, visíveis como eu, mas de beleza e grandeza aparentemente tão maiores que a minha? Eis uma das causas do espanto! É o homem uma criatura frágil, pequena e aparentemente insignificante em face da Criação visível, da qual ele mesmo faz parte; que é, pois, ele diante de Deus, diante de Quem o conjunto da Criação – visível e invisível – desvanece, treme e parece retornar, acuada, para o abismo do nada?

Em Deus encontra o homem sua realização, sua plenitude, sua salvação, sua redenção, sua verdadeira felicidade: profunda e interminável. O coração humano clama por Deus, quer a Deus, inclina-se naturalmente a Deus. Trata-se de algo espontâneo; ele quer repousar em quem o criou. Ele quer encontrar a paz que está na realização de si, no repouso e na plenitude de seu ser. E esse mistério agrava-se quando, reconhecendo que seu coração só encontrará descanso em Deus, ao mesmo tempo depara-se com esse abismo insondável que há entre ele e Deus. Nunca serão satisfeitos os anseios humanos, nossos anseios? Viverá o homem em eterna frustração, separado para sempre de Deus?

Para responder essa questão, precisamos prestar atenção em outro detalhe do brado do salmista: ele não reconhece apenas a pequenez humana, mas também o benevolente olhar divino sobre ela. Exatamente: sobre a pequenez humana, que, por assim dizer, se identifica com o homem; este é essencialmente pequeno, frágil, débil e dependente de Deus. O Criador como que nos olha desde a altura inexprimível de Sua Majestade, e sobre nós não recai primeiramente Sua Justiça a condenar-nos às chamas do Inferno, que merecemos tanto, senão Sua infinita Misericórdia, que nos olha com carinho e em nós pensa.

É maior que toda a Criação, é mais penetrante que a inteligência dos Serafins o olhar de Deus; recaindo em nós, ele, então, supera algo desse abismo que nos separa. Por quê? Porque Ele sabe que dEle precisamos, porque Ele é a Suma Bondade, infinitamente bom e amável; Ele se compadece de suas miseráveis criaturas, ainda que sejam tão rebeldes como nós, seres humanos. Não pousa sobre nós seu olhar divino sem deixar-se de imprimir em nós uma marca profunda, um efeito universal, um transbordamento de corações, um chamado eterno à paz do Criador. Deus Pai não nos observa com indiferença; Ele quis socorrer-nos por pura bondade quando, na verdade, merecíamos o fogo do Inferno, e nisto é que está nossa esperança: em Sua infinita Bondade e Misericórdia.

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