Todos os corações humanos aspiram a uma verdadeira e duradoura paz, ainda que inconscientemente, sendo que esta está intimamente ligada com a felicidade ou realização do ser humano. Esta se encontra na posse de Deus no Paraíso, e, dado que já repousam na plenitude de felicidade que resulta da visão beatífica, os Santos que já estão lá encontram-se em posse de plena e profundíssima paz. E, mesmo no Purgatório, as almas que aí estão, ainda aquelas que precisam purificar-se bastante, sendo já Santas por se terem arrependido de todos os seus pecados e estarem absolutamente conformadas à Vontade de Deus, encontram-se em paz também – o que nos indica que a paz não necessariamente é a ausência de sofrimento, visto que as almas do Purgatório sofrem atrozmente as penas expiatórias que incidem sobre elas.
Pois bem, a paz das almas do Purgatório tem que ver com a conformidade com a justiça divina. Com efeito, uma vez confirmadas na graça de Deus, elas já não mais pecam e só querem o que Deus quer; têm pois sua vontade conformada à de Deus – desejam-no ardentemente, mas esse desejo não quer que seus sofrimentos terminem antes que isso seja expressamente desígnio do Senhor, senão que terminem segundo Suas divinas disposições. Se sofrem, e contudo não estão inquietas, pelo menos na medida em que sua vontade se encontra fincada na de Deus, querendo o que Ele quer, sua paz permanece mesmo com a justa aplicação do castigo divino devido a seus pecados. É como a paz do mártir cristão, que, não deixando de sentir intensamente as atrozes dores do martírio em sua carne, tem, na mais profunda intimidade de seu coração, uma inquebrantável estabilidade espiritual – razão por que não surpreende que, embora seu corpo agonize e espontaneamente suplique por libertar-se do sofrimento que padece, a alma se mantenha incólume em sua decisão de firmar-se ao preceito divino segundo o qual devemos, se preciso e sem exceção, dar nossas vidas por amor a Cristo, para não o negar. Não é uma paz exteriormente visível: a dimensão da sensibilidade do homem, em tais semelhantes situações, perturba-se verdadeiramente, pois a dor do martírio é evidentemente real.
No entanto, não há perturbação moral no íntimo da consciência, na medida em que esta, amparada pelo dom da fortaleza do Espírito Santo, por uma graça extraordinária, não hesita em derramar seu sangue por amor. A esperança de que há de conseguir-se um bem futuro superior à conservação atual da vida corpórea, a troco de esta ser por assim dizer desprezada, é como uma âncora do Altíssimo que se prende ao coração do homem fiel e permite-lhe sentir um antegozo profundamente espiritual do bem último a que se aspira, ainda não possuído evidentemente, mas cuja posse depende daquela fidelidade extraordinária que se verifica até o último suspiro do mártir agonizante. Essa esperança é profundamente espiritual e de modo algum pode reduzir-se a qualquer estabilidade corpórea ou sensível; donde parece que tocamos algo do que é a verdadeira paz – não a ausência de conflitos interiores por razão de sensibilidade, necessariamente, ou de dores, ou de sofrimentos, ou a posse de uma tranqüilidade mundana; senão que, em verdade, a certeza da consecução do fim ao qual o coração humano verdadeiramente aspira com todas as suas forças.
Quem padece a agonia da morte após ter recebido os últimos Sacramentos, corretamente, não vê necessariamente sua paz alterada; pode haver tendência a que ela se altere, mas não porque ela dependa estritamente – e aqui falo de paz espiritual – do que se sente ou se deixa de sentir. De certo modo, nossa paz verdadeira é a certeza da posse futura da consecução do nosso fim último, segundo as promessas do Senhor, estando nós confiantes no auxílio daquele que no-lo prometeu por amor. Quem nesta vida está preso ao amor de Deus já goza de semelhante paz; e quem, no Purgatório, já se sabe confirmado na graça divina está certo da irrevogabilidade de seu destino feliz, a despeito de sua condição atual penosa, e por isso goza de paz. Existe então paz, pois o fim está próximo: não o fim do sofrimento, mas o momento em que se receberá a coroa de glória destinada aos justos; e próximo na medida em que, no Purgatório, não é mais possível pecar.
Há, contudo, paz nas almas condenadas, ou naquelas que se encontram obstinadas em seu pecado, aqui na terra? Evidentemente, não. É claro que, se reduzíssemos a paz espiritual do justo às instabilidades dos sentidos, poderíamos aplicá-la também aos homens ímpios que não se encontrassem em meio a perturbações psicossomáticas, aquelas mais rudimentares e grosseiras de nossa natureza mesma. E a falta de paz dos réprobos poderia ser atribuída, também ou sobretudo, à dor intensa que transita em suas almas qual sangue a correr pelas veias; mas não se trata disso. Eles não atingiram o fim, nunca mais o atingirão; chegaram ao fim de suas vidas sem ter alcançado o fim de suas existências. Embora estivessem vivos, suas almas encontravam-se em estado de morte profunda; quando a distração dos sentidos cessou, toda a força maligna e horrenda que estava em gérmen nessa “morte em vida” irrompeu e cegou-lhes os olhos com suas trevas espessas. Ficará, desgraçadamente, para sempre inquieto o coração cujo destino não foi outro que não o abismo do Inferno. E no Inferno não há paz; por isso, não têm verdadeira paz aqueles que trazem o Inferno em seus corações.
Porém, por razão semelhante, e agora positiva, por assim dizer, podem ver irromper profundíssima paz aqueles que, estando na graça de Deus e sendo-lhe fiéis, sabem que possuem o Paraíso em gérmen em suas almas. Quando o Paraíso irrompe e desabrocha, após a morte, o repouso definitivo se dá, repouso esse que não é somente a perfeição, a flor da paz, senão que a definitiva saciedade do coração humano em Deus. Antes, ele estava sedento de Deus e sofria profundamente; sua sede de Deus, porém, nascendo do amor, conformava sua vontade com a dEle, e disso resultava a paz – pois o que se queria era o que se tinha: se se tratasse de sofrimento o que Deus queria, igualmente o quereria tal coração; se não o quisesse, não haveria paz, pois não haveria conformidade com a Vontade de Deus, que concretamente encontramos naquelas situações nas quais a realidade consumada é um fato tão impactante e inevitável para nós, a despeito de nós, melhor dizendo, que não temos senão que dar morte à nossa vontade obstinada.
Nesse sentido, a genuína paz parece confundir-se com a adesão da vontade à realidade atual, adesão essa, evidentemente, que se dá no seio mesmo da realidade aceita; mas não apenas isso. Não é simples resignação; é adesão da vontade movida pela graça – é aceitar a realidade porque esta é o canal pelo qual Deus manifesta, concretamente, Sua Vontade. E aceitar o que acontece pode – e é o que acontece de ordinário – causar-nos confusão sensível – por exemplo, quando nos perturba uma doença inesperada –, mas não espiritual, pois podemos não relutar diante do inevitável, nem nos inquietarmos com o impossível ou com fazer nossa vontade a todo custo. Pois não sempre podemos fazer nossa vontade, mas sempre podemos fazer a Vontade de Deus.
Portanto, apegarmo-nos à própria nossa vontade implica termos nunca paz verdadeiramente estável, mas sempre dependente de nossos sucessos e caprichos, que são imensamente instáveis. Ficaremos inquietos à espera de que suceda o que queremos, aquele nosso desejo, aquela resposta esperada que nos fará ver que podemos alcançar aquele objetivo na empresa em que trabalhamos, etc. etc.. Essa inquietude manifestar-se-á em dois níveis, a saber, nível sensível e nível espiritual; sensível porque, como já vimos, o impacto da realidade, à nossa revelia, causa-nos certos sentimentos dos quais não temos as rédeas em absoluto; espiritual porque nossa vontade se verá sempre confrontada com a verdade da realidade, e então ficaremos continuamente frustrados porque não se fez a nossa vontade. Parece-nos recordar o Pai-nosso; e também traz um eco funesto do Éden.
Além do mais, convém refletir sobre o quão absurdo é revoltar-se contra a realidade inevitável – não se entenda, porém, com “realidade inevitável” uma resignação covarde frente a situações que podem ser mudadas às custas de sofrimentos demasiado árduos: trata-se desta realidade cotidiana que constitui o tecido de nossa vida, cujo delineamento não depende estritamente de nós, pelo menos não quanto a seu caráter externo de circunstâncias que não criamos, ou até que criamos, mas que não controlamos afinal. Revoltar-se contra a realidade é revoltar-se contra a Vontade e Sabedoria divinas; o mundo não foi criado para espelhar nossos desejos egoístas. E, se o próprio Deus permite que males terríveis sucedam nesta mesma realidade em que vivemos e com a qual nos defrontamos diariamente, por que lançar objeções a essa expressa manifestação da Vontade de Deus? Não é que Ele queira que este ou aquele indivíduo peque, mas, se este ou aquele individuo peca, Ele o permitiu; e Deus não age contra Sua Vontade.
Assim, aceitar as realidades que nos afrontam – buscando, claro, realizar nelas o bem, na medida de nossas possibilidades, enfrentando-as, se for preciso – exige de nós compreender que a essência de nosso bem verdadeiro não está na exterior manifestação dos fatos, sejam eles adversos ou não; e que não consiste nossa felicidade em que se conforme o mundo aos nossos anseios, tantas vezes desvirtuados e desorientados, desordenados – senão que na íntima confiança em que Deus, por meio das adversidades, quaisquer que sejam, pode sempre conduzir-nos, por meio delas, se lhe formos dóceis, a nosso fim último, a uma maior santidade, a uma maior união com Ele, etc. etc..
Tudo isso pressupõe, evidentemente, uma fé sincera e humilde nas promessas do Senhor e na supremacia absoluta de Sua diviníssima Majestade sobre todas as criaturas; enfim, em Sua Providência e em Seu amor paternal para conosco. Somente assim é que pode haver paz verdadeira para nós, pois então, caminhando na senda da justiça, podemos ver em todas as situações, externas ou internas, uma oportunidade de crescer na graça, de mortificar nossa vontade e de amar mais a Deus, cumprindo Sua Vontade, instaurando em nossas almas miseráveis e corrompidas, pela ação da graça, algo da primitiva justiça original que contornava as almas de Adão e Eva, nossos primeiríssimos pais, pelo menos na medida em que, submetendo-nos à divina Vontade, colocamos em nossa vontade as rédeas da realidade, da verdade, do amor de Deus sobretudo, para que nela passe a brilhar a sublime paz do justo, do humilde, até que, finalmente, do resplendor se chegue ao calor intenso do amor, à santidade.
Santo Tomás não dizia arbitrariamente que a amizade verdadeira consiste em amar as mesmas coisas e rejeitar as mesmas coisas. Isso supõe um direcionamento volitivo igual nos amigos, um fim compartilhado, um amor comum, um critério de vida comum. Nesta vida, amar a Deus – pela graça, estamos em amizade com Deus, lembremo-nos disto – supõe conformar nossa vontade à dEle, e para isso não basta que o exprimamos somente com nossas palavras, senão que com nossas ações, que às vezes saem de recônditos mais íntimos da alma que algumas palavras, quando proferidas com irreflexão e sem genuína conformação à sua verdade. Portanto, só conformamos nossa vontade à de Deus na medida em que aceitamos tudo o que nos suceda por amor a Ele, em paz, sem nos inquietarmos espiritualmente, como se males físicos e exteriores nos impedissem de atingirmos o fim para o qual fomos criados – nossa união com Ele.
Com efeito, apenas nós mesmos é que podemos, ao pecar, dar-nos esse terrível impedimento, do qual resulta o Inferno em nossas almas, a inimizade com Deus. Ademais, basta que sejamos generosos – sempre implorando o auxílio da graça, sem a qual nada podemos fazer em ordem à nossa salvação eterna – ao fazer aquilo que está em nossa competência, dentro de nossas capacidades e obrigações, sempre com amor, quer se trate de resistência mais “passiva”, quer se trate de ataques “agressivos” ao mal manifesto diante de nós, não visando com isso, em primeiríssimo lugar, ao “sucesso” tomado em seu aspecto simplesmente mundano, temporal, senão que eterno: a realização do bem, da vontade de Deus, segundo a moção de sua graça.


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