Alimento de vida eterna

A Santíssima Eucaristia é absolutamente central na fé católica, é como a medula espinhal da Santa Igreja e, evidentemente, o alimento principal e mais potente das almas a Jesus fiéis. Pela fé teologal, aderimos àquilo que Nosso Senhor disse aos doze apóstolos na Santa Ceia, a saber, que o pão e o vinho diante dEle eram Seu Corpo e Seu Sangue, “que será derramado por vós e por todos, para a remissão dos pecados”.

Nossos sentidos são absolutamente incapazes de reconhecer, nas espécies consagradas, o Corpo e o Sangue de Cristo, e também nossa inteligência e vontade não o podem fazer sem moção da graça divina que, movendo nossa vontade, faz com que nossa inteligência adira àquilo a que, por si mesma, ela é incapaz de chegar a compreender, a conhecer.

Como se vê, trata-se de algo que se refere às potências superiores do ser humano movidas pela graça, que é superior à natureza humana e mesmo à angélica; é sobrenatural, elevadíssima e um dom excelso e gratuito do Pai.

No entanto, a fé é infundida por Deus na ânfora do coração humano, de forma que, quando esta está fragmentada ou corrompida por más doutrinas, serve de receptáculo imperfeito e frágil para acolher e conservar intacto o dom divino recebido. É necessário, portanto, cultivar a inteligência e a vontade espirituais, preservando-as das más concepções de mundo.

Para isto, pretendo aqui fazer uma singela meditação acerca do excelso e magnífico mistério da Santíssima Eucaristia, do Corpo e Sangue do Senhor Jesus, nosso amado Redentor e Salvador, porque nosso coração só se inclina àquilo que vê como bom, e não podemos enxergar a bondade de algo sem antes conhecê-lo bem.

I

Em tribos primitivas e outras formas de organização humana, os símbolos são um dos recursos expressivos mais ordinários e eficazes, visto que sua potência semântica é mais abrangente, por assim dizer, levando em conta a inteligência geral de um povo, seu grau de cultura habitual, etc.. De fato, a linguagem dos símbolos mostra-se muito pouco abstrata e vale-se de imagens sensíveis para exprimir idéias.

Disso, porém, surgem, inúmeras vezes, imprecisões enormes nos princípios e nos fins das concepções adotadas e descritas com este recurso linguístico. Ora, Santo Tomás de Aquino, Doutor da Igreja, ensinava que um pequeno erro no princípio traz grandes conseqüências nas conclusões, assim como, de modo semelhante, um pequeno desvio não percebido no início de uma longa viagem faz que se chegue, a longo prazo, a um destino completamente diferente do que se buscava. Há, então, um problema bastante sério em dar-se ênfase apenas à imaginação.

Remetemo-nos, neste sentido, ao início da história humana. Adão, o primeiro homem, possuía, antes de pecar mortalmente, ciência infusa, uma sabedoria extraordinária, um conjunto de conhecimentos elevados em ordem à sua salvação e a de seus descendentes, devendo estes ser educados, naturalmente, por aquele que era chamado a ser o cabeça da humanidade. Por isso, a capacidade abstrativa de Adão era sublime; sua limpidez intelectual, extraordinária e penetrante. Não era perturbado por paixões quaisquer, dado que possuía harmonia interior completa, resultante da integral sujeição das paixões à inteligência e à vontade. Ele enxergava a realidade tal qual era, sem distorções movidas por interesses egoísticos e passionais; devia ser-lhe dócil e apreendê-la calmamente, racionalmente, docilmente. Devia dominá-la, por assim dizer, para sacrificá-la a Deus; ou seja, devia ser senhor dela para entregá-la ao seu Senhor absoluto.

Mas Adão não poderia ser senhor do mundo para entregá-lo a Deus se não fosse senhor de si mesmo, quer dizer, se não pudesse dispor bem de si próprio para o bem. Ocorre que o pecado destruiu esse senhorio, e Adão então tornou-se escravo de sua própria liberdade; perdeu os dons preternaturais que Deus lhe concedera e, sobretudo, o dom sobrenatural da graça santificante, pela qual participava da vida divina.

Desde então, aquelas verdades que Deus revelou a Adão foram sendo, paulatinamente, esquecidas, sobretudo na medida em que seus descendentes se iam entregando, cada vez mais intensamente, às desordens do pecado. Iam-se tornando cegos para a verdade mesma das coisas, para a realidade; enxergaram-na com olhos carnais; não só a fé foram perdendo, senão que a retidão da inteligência mesma. O impacto da realidade ia sendo então mais assimilado em termos imaginativos e reducionistas do que propriamente intelectuais, racionais, no bom sentido do termo. Começaram a nascer superstições, cultos idolátricos e rituais contrários à pureza da fé que Adão recebera no Éden. O estrito monoteísmo tornou-se politeísmo, a dominação do homem sobre a realidade se ia agravando cada vez mais, passando a ser sujeição amedrontada e insana, à qual muitas vezes se tentava confrontar por meio de magias e outros recursos supersticiosos e pecaminosos.

Quando se estabeleceu o povo hebreu, no Sinai, com a legislação mosaica e tudo quanto ela implicava, e aliás já bem antes disso, a humanidade já se encontrava em decadência deplorável, lamentável. Os descendentes de Jacó haviam sido libertados do Egito, um país onde o politeísmo chegava a níveis absurdos e irrisórios – o rio Nilo era cultuado, o Sol, o Faraó e assim por diante. Na Assíria e na Babilônia, a situação não era menos grave, tampouco o era em Canaã. De fato, o mundo estava envolto em trevas, a humanidade estava cega e perdida em seus pecados, sob as garras de Satanás. A sombra da árvore do conhecimento do bem e do mal pairava sobre os homens, e a antiga Serpente estava sempre à sua espreita. Parecia que o mal reinava sem exceção alguma, e mesmo o povo liberto do Egito não se mostrava muito dócil, apesar de ter sido constituído o primogênito das nações. E foi precisamente nessas circunstâncias que Deus escolheu Israel como tal, para, por meio dele, levar a salvação a todos os povos. Não há dúvida de que se tratou de uma condescendência e misericórdia extraordinárias de Deus, pois que os hebreus eram rudes e obstinados.

Nessas condições, não seria injusto dizer que o povo israelita estava cego pelo pecado, cego na mente, cego no coração e surdo à voz de Deus. Além de seus graves problemas espirituais, não se tratava de um povo intelectualmente bem desenvolvido; sabe-se que os hebreus eram pouco dados a tarefas abstrativas. Em Israel, isso se verificava de um modo todo particular; a própria linguagem hebraica se mostrava impregnada de símbolos, de notas acidentais dos seres, de usos metafóricos, em detrimento de certa riqueza de conceitos abstratos. Os Salmos não costumam expressar ideias abstratas sem recorrer a imagens sensíveis exuberantes e chamativas, poéticas; são belíssimos e inspirados por Deus, um fruto sublime de Israel, é verdade, e trazem verdades profundas, mas valendo-se sobretudo de imagens (o que em si não é um problema). Em suma, o povo israelita não era um protótipo do povo grego em termos de pensamento abstrato; era um povo simples, campal, guerreiro, rude e trabalhador, mas não intelectual.

Não obstante, o fato de valer-se de símbolos ajudava-o muito a não reduzir a realidade a um de seus aspectos, pois os símbolos aglomeram em si diversos significados, envolvem um arco de significação por demais amplo, abrangente. Nesse sentido, a linguagem é rica, conserva seu valor; jazia certo mistério por detrás do cosmos, do mundo, dos seres. Não se o colocava na cabeça, como diria Chesterton, mas abismava-se, em um grau menor ou maior, em sua grandeza. Hoje, faz-se o contrário. Seja como for, porém, tenhamos isto em mente: o mundo estava envolto em trevas espessas.  

Mas um raio luminoso nasce do oriente, colore o obscuro horizonte e dissipa as nuvens que o cobrem; é sinal de esperança, de que não está tudo perdido para a humanidade decaída. Como a aurora, aos poucos a luz vai destruindo o manto da noite e convidando o Sol a reinar. E este sol nasceu de fato; subiu do horizonte de Belém, a cidade do pão. É o Sol da justiça, aquele que veio iluminar os que jazem entre as trevas e na sombra da morte estão sentados. Nasce Jesus, o Salvador, o Pão descido do Céu.

II

Ora, em toda a história da salvação, a condescendência de que Deus tem usado para com os homens tem se mostrado uma das características mais belas da Sua divina ação para com a humanidade pecadora e impotente. Apesar da miséria humana, o Criador sempre Se mostrou bondoso e paciente para conosco, embora nunca o tenhamos merecido por nós mesmos. Por exemplo, lembremo-nos novamente do caso de Israel: apesar de este o ter traído inúmeras vezes, Deus não o abandonou, senão que continuou a atraí-lo de volta a Si pelo ministério profético e por outras vias. A Encarnação do Filho eterno é o ápice dessa condescendência, dado que é o momento em que Deus “Se aniquila a Si mesmo, fazendo-se aos homens semelhante”, como diz o Apóstolo das gentes.

Toda a obra da Redenção operada por Cristo é um ato de infinita misericórdia e condescendência de amor; Ele fez-Se pequeno por nós, humilhou-Se para elevar-nos, para redimir-nos. O Rei se fez servo para elevar o servo à sua amizade, a um patamar superior. Por isso, quando inicia seu ministério, Nosso Senhor fala por meio de parábolas, que são forma simples de comunicar as verdades necessárias à nossa salvação para um povo simples e rude, de difícil entendimento. Ele Se vale dos detalhes da natureza, da estrutura do cosmos, dos animais comuns dos campos, dos lírios, dos ofícios correntes, de dramas humanos, enfim de tudo quanto possa ser compreendido, facilmente, por quem o escute.

Evidentemente, não todos o compreendiam em razão da cegueira a que já me referi; “os que tinham olhos não viam, os que tinham ouvidos não escutavam”. Isso é cegueira da mente, é uma dissolução da inteligência no domínio meramente carnal, material da realidade; é uma incapacidade de subtrair-se às notas sensíveis, que então passam a ser consideradas sobretudo em seus aspectos convenientes às solicitudes da carne. Sem essa abertura, a fé não pode permanecer durante muito tempo na alma humana, assim como não convém pôr vinho novo em odres velhos.

Pois bem, eis que essa condescendência e essa riqueza da Sabedoria infinita de Deus chegam ao seu ápice na pregação de Nosso Senhor. Toda a realidade é utilizada segundo sua razão de ser, contemplada e ordenadamente amada; ela é chamada a tornar-se um meio de elevarmo-nos a Deus, não de fazermos dela um deus. Seus aspectos mais profundos são desvendados, e o Bom Deus, Senhor de tudo, mostra-nos sua beleza imensa. Sim, a beleza, riqueza e ordenação a Deus da realidade, das criaturas.

No discurso do Pão da Vida, em Cafarnaum, temos um exemplo luminoso e absolutamente fundamental disso. Em meio a inúmeras metáforas e uso genial de símbolos, na sinagoga dessa cidade, um ano antes da Páscoa em que Jesus entregaria Sua vida para salvar-nos, sucedeu algo inesperado e, para os homens obstinados, escandaloso: Jesus disse que “quem não comer Sua carne e não beber do Seu sangue não terá vida” (cf. São João VI). Aqui já não se trata de lírios, nem de ovelhas, nem de passarinhos; trata-se de carne e sangue humanos como alimento para outros seres humanos. E mais: não é qualquer alimento, mas aquele que dá vida, vida que é eterna e que nos conduzirá à ressurreição feliz no fim dos tempos. É um alimento cuja virtude intrínseca produz comunhão, união e, sobretudo, um impacto tão profundo na eternidade quanto um pecado mortal, somente que em termos positivos, isto é, em ordem à consecução feliz do fim último para qual o ser humano foi criado, não em ordem à sua frustração eterna, que resulta do pecado mortal.

Há dois extremos a nível sobrenatural nisso: salvação e condenação; e outros dois extremos na ordem da natureza: alimento natural e sobrenatural, porquanto o primeiro tem virtude que se limita à conservação da vida natural, enquanto o outro fortifica a vida sobrenatural, conserva-a e a leva a seu desenvolvimento final e desabrochar na eternidade. Natureza e divindade parecem relacionar-se intimamente, aqui, por um integral dom divino de Deus que se dá a Si mesmo; o símbolo permanece símbolo ao mesmo tempo em que é realidade inegável: as espécies eucarísticas continuam com aparência e sabor de pão, que em certo sentido já é um símbolo, enquanto são substancialmente, verdadeiramente, corpo, sangue alma e divindade de Jesus. Não existe qualquer confusão ontológica nisso tudo; existe uma obra de amor cuja natureza é a de um insondável abismo diante do qual trememos e pelo qual somos atraídos, com a diferença de que, no abismo de amor divino, essa atração não implica a incerteza que há na obscuridade imensa que conduz à morte, senão que à claridade inefável que é a vida mesma.

No início do capítulo 6 do Evangelho de São João, em que Jesus faz o mencionado discurso do pão da vida, fundamental à fé eucarística, relata-se um milagre de multiplicação de pães. O Senhor atravessa o lago de Tiberíades e é seguido por uma grande multidão, “porque [ela] via os milagres que [Ele] fazia em benefício dos enfermos” (VI, 2). E o Apóstolo amado ressalta que “se aproximava a Páscoa”.

É algo bastante previsível que muitos o buscassem se pensamos na grande atração que Jesus causava nas multidões ao fazer milagres: inúmeras pessoas recorriam a Ele pedindo socorro quer porque estivessem enfermas, quer porque tivessem parentes doentes, paralíticos, cegos, etc.. Isso não pede muitas explicações; a presença de enfermidades entre os homens correntemente foi considerada um mal pela esmagadora maioria dos povos que já passaram pela terra; por isso, quando aparece alguém que tem poder sobre esse mal tão comum que são as doenças, e especialmente sobre a morte, porque Jesus ressuscitava os mortos, imediatamente a sensação é de que se trata de alguém detentor de poder divino sumamente conveniente à salvação humanidade, ainda que se tome essa salvação de um modo carnal. Não é à toa que as doutrinas mais destacadas da Antigüidade para explicar o mal no mundo fossem de caráter dualista, atribuindo o mal a divindades ou forças hostis, que fariam oposição às “forças benévolas” ou “divindades do bem”. Essa batalha se exteriorizaria sobretudo nas guerras, nas doenças, na morte, no sofrimento; e, dentro do homem, no conflito que é causa dessa exteriorização. Evidentemente, o povo judeu não era dualista, mas vivia em meio a pagãos que conservavam resquícios implícitos ou explícitos desse tipo de doutrina.

Seja como que for, importa dizer que, na ordem prática, exerce uma influência extraordinária aquele que se opõe a essa exteriorização do mal dando, por exemplo, visão aos cegos, movimento aos paralíticos, etc.. As pessoas espontaneamente sentem um ímpeto ardente de segui-lo e pedir-lhe auxílio, socorro em seus males; parece que a salvação lhes veio do alto e que Deus ouviu seus clamores.

Nos relatos de multiplicação de pães que encontramos nos Evangelhos sinóticos, percebemos claramente uma das manifestações desses males físicos que há milênios acometiam (e acometem) a humanidade: a fome, a necessidade de alimento. Não necessariamente se tratava de uma multidão mendicante, senão que de uma multidão que, por recorrer a Jesus por causa de seus sofrimentos físicos, estava faminta. Enfrentaram a fome em razão de um bem maior, para seguir a Cristo e pedir-lhe milagres. Muitas dessas pessoas podiam estar interessadas apenas nisto, em ver milagres, em vislumbrar o inacreditável, o surpreendente, o extraordinário; em saciar sua curiosidade, ou em experimentar um sabor de esperança de libertar-se de suas dores.

Nosso Senhor olha para elas e vê que “eram como ovelhas desgarradas, sem pastor, e sentiu compaixão delas”, conforme nos diz outro Evangelho (aplica-se bem o mesmo aqui). É um lugar deserto, Jesus está sobre um monte, em posição de autoridade; e o monte é lugar de oração e de encontro com Deus, o que foi muito insinuado no Antigo Testamento em diversas ocasiões. Ele vê aquele povo padecendo do mal da fome, da necessidade, buscando felicidade e alguma salvação, embora sem saber qual exatamente – pois ovelhas sem pastor caminham, dado que querem chegar a um fim, como é da natureza mesma da criatura; caminham, no entanto, sem rumo, porque seu rumo, nesse sentido, não vem de uma escolha arbitrária, senão de seu pastor, que lhes é superior e que sabe levá-las a “prados verdejantes”. Aquela situação era um símbolo da miséria espiritual humana: cegueira, dureza de coração, talvez interesses, uma mistura de sinceridade e egoísmo, alguns com fé pura e esperança humilde; havia de tudo ali. E Jesus se compadece deles e opera-lhes um milagre sublime, ao que, entusiasmados, querem fazer dEle rei. Nisso está, novamente, um reflexo de sua dureza de coração, pois “seus pensamentos não são como os pensamentos de Deus”. A salvação, para eles, tinha um caráter demasiado material e mundano, carnal; talvez quisessem uma restauração do Éden nesta vida, não uma restauração de suas almas pelo Espírito Santo. Dureza, cegueira, busca de felicidade, sofrimento, dor, impacto da realidade sensível, expressão de corações em lágrimas e de pedra: nada tão humano, nada tão real e triste!

Nessas circunstâncias, Jesus experimenta Filipe: “Onde compraremos pão para que todos tenham o que comer?” (VI, 5). Naturalmente, consegui-lo parecia impossível. Contudo, era inegável que Jesus fizera inúmeros milagres anteriormente; não devia parecer, então, muito sensato duvidar de que Ele pudesse fazer outros. Tudo isso devia ser um caminho, uma abertura do coração para a ação divina que ia aos poucos movendo os corações daquela multidão que o seguia; mas, presa a uma observação limitada da realidade, puramente material e carnal, como foi dito, cada milagre tomava a aparência de um fato particular entusiasmante, embora às vezes com pouco impacto interior. A aparência agrada, e a realidade sensível, quando transfigurada, é deliciosa e fonte de imensa alegria; contudo, a fé exige uma dilatação do coração para os confins da eternidade. Vemos que o discurso do Pão da Vida está sendo inteligentemente preparado, e os corações dóceis o receberão não por seu impacto sensível, que de ordinário é desagradável, mas por sua realidade profunda, que só pode ser vista pela fé. É impossível negar o fato exterior do milagre dos pães, mas é possível atribuir-lhe uma causa não sobrenatural, por mais que isso seja improvável e até mesmo absurdo; mais fácil ainda é obstinadamente negar-se a crer que “só terá vida em si quem comer a carne do Filho do Homem”. Isso, primeiramente, pode obstruir os corações porque parece atentar contra a sensibilidade dos homens, essa sensibilidade incoerente que se escandaliza com as palavras do Filho de Deus ao mesmo tempo em que justifica suas próprias atrocidades com indiferença; não é à toa que se costuma fazer um deus dela (da sensibilidade); e o resultado disso é, muitas vezes, a obstinação em uma opinião própria, autônoma, independente de Deus, da realidade, da verdade. Quando vemos, alguns versículos adiante, discípulos de Jesus o abandonarem “por suas palavras serem demasiado duras”, entendemos melhor isso.

Pois bem, após esse milagre de multiplicação de pães, ocorre, pela noite, outro: Jesus caminha sobre as águas. Que extraordinário desenvolvimento! Primeiro, Jesus é o pastor que conduz suas ovelhas a descansar em prados verdejantes (“Ora, havia naquele lugar muita relva”, diz-se no versículo 10), o que nos remete ao salmo 22: “O Senhor é o meu pastor, nada me faltará [não me faltaram bens; ora, o alimento e a saúde, na ordem corporal, são bens fundamentais]”; e também: “Eu serei vosso Deus, e vós sereis meu povo”; e, mais significativo ainda:

“Vós não fortaleceis as ovelhas fracas; a doente, não a tratais; a ferida, não a curais; a transviada, não a reconduzis; a perdida, não a procurais; a todas tratais com violência e dureza. Assim, por falta de pastor, dispersaram-se minhas ovelhas, e em sua dispersão foram expostas a tornarem-se presa de todas as feras. Minhas ovelhas vagueiam em toda parte sobre a montanha e sobre as colinas, elas se acham espalhadas sobre toda a superfície da terra, sem que ninguém cuide delas ou se ponha a procurá-las. […]

Pois eis o que diz o Senhor Javé: ‘Vou tomar eu próprio o cuidado com minhas ovelhas, velarei sobre elas. Como o pastor se inquieta por causa de seu rebanho, quando se acha no meio de suas ovelhas tresmalhadas, assim me inquietarei por causa do meu […]

Eu as apascentarei em boas pastagens, elas serão levadas a gordos campos sobre as montanhas de Israel; elas repousarão sobre as verdes relvas, terão sobre os montes de Israel abundantes pastagens. Sou eu quem apascentarei minhas ovelhas, sou eu quem as farei repousar – oráculo do Senhor Javé. A ovelha perdida eu a procurarei; a desgarrada, eu a reconduzirei; a ferida, eu a curarei […]”

(cf. Ezequiel XXXIII).

Segundo, Jesus caminha sobre as águas. Ora, para o povo judeu, só Deus tinha poder sobre as águas, que são tão imprevisíveis e difíceis de conter; o mar adapta-se a tudo e por isso mesmo não está sob nosso controle; as águas escorrem por entre nossos dedos, não fazem o que queremos, não se sujeitam a nossos caprichos; nelas há uma quantidade imensurável de animais desconhecidos e perigosos para o homem; viajar pelo mar foi sempre um perigo, dificultoso, às vezes angustiante. É a incerteza da natureza opondo-se à tentativa do homem de exercer domínio sobre ela sem Deus, em detrimento da vontade de Deus! Ele é quem tem domínio absoluto sobre as águas, quem fez “jorrar abundantemente as águas do firmamento” no dilúvio, quem abriu o Mar Vermelho para Moisés e o povo israelita passarem e quem o fechou para se vencerem as tropas egípcias que os perseguiam; quem verteu em sangue as águas do Nilo, considerado um deus pelos egípcios; quem abriu as águas do Jordão; e quem, na aurora da criação, “pairava sobre as águas”. Na escuridão da noite, Jesus “pairava sobre as águas”, caminhava sobre elas numa circunstância em que os ventos eram “rijos”. Isso diz muita coisa sobre Ele.

Finalmente, chega o dia seguinte e a multidão, vendo a ausência de Cristo, dirige-se a Cafarnaum. Encontrando-o, Jesus diz-lhes: “Em verdade, em verdade vos digo: buscais-me não porque vistes milagres, mas porque comestes dos pães e ficastes fartos. Trabalhai não pela comida que perece, mas pela que dura até a vida eterna, que o Filho do Homem vos dará.” (VI, 26). É interessante notar aqui que perguntam a Jesus que milagre Ele faz para que creiam, “para que o vejamos e creiamos em ti?” (VI, 30). Impressionante! Eles haviam sido alimentados no dia anterior com pães milagrosos, e permaneciam incrédulos! Como que testemunhando contra si mesmos, citam o maná do deserto, alimento milagroso dado por Deus aos hebreus libertos do Egito em sua viagem pelo deserto. Ora, a despeito de um milagre tão patente e excepcional, o povo israelita continuava obstinado e cedendo à incredulidade. Embora enxergassem sensivelmente, continuavam cegos espiritualmente; o milagre enquanto fato era-lhes patente, mas o que estava por detrás dele, a realidade sobrenatural que devia ser aceita pela fé, não, porque suas paixões os escravizavam, fazendo-os, como dizia São Máximo Confessor, situarem as coisas segundo sua dureza de coração, suas desordens, não segundo sua profundidade misteriosa, sua realidade mesma.

Mas prestemos atenção à resposta de Jesus: “Trabalhai não pela comida que perece, mas pela que dura até a vida eterna […]”. A experiência dos israelitas com o maná milagroso, descido do céu, era de que ele perecia e não concedia incorruptibilidade, nem qualquer virtude excepcional, embora viesse como dom do Incorruptível por excelência. Era um alimento simbólico e real ao mesmo tempo: simbólico porque seu sabor lembrava-os do “leite e mel” de Canaã, como que lhes antecipando certo gozo da chegada na Terra Prometida – é curioso lembrar que não demorou muito para os hebreus se aborrecerem com o maná –; real porque era pão de verdade, alimentava mesmo, restaurava as forças perdidas, etc.. Esse pão de origem sobrenatural era natural, era um dom de Deus, em certo sentido, em ordem à conservação da vida dos israelitas. E continuava sendo, quanto a essa conservação, semelhante aos demais alimentos, visto que todos perecem e não impedem o homem de perecer; eles dão vida, mas não a vida pela qual o homem anseia e seu corpo vibra de desejo, não a vida perdida no Éden. É verdade que quisera o homem poder viver intensamente o máximo de suas capacidades e desfrutar essa sua vida sem temer que lhe sobreviesse um término; os alimentos seriam apenas meios para isso, porém meios absolutamente ineficazes quanto à expectativa geral e, no fundo, mais importante. Porque não se vive intensamente, com o máximo potencial, nem se desfruta da vida vislumbrando-se um fim após o qual já não há esperanças. E, além disso, é de experiência comum que a vida enfrenta perigos diariamente e que sua intensidade se vê arrastada por diversas vicissitudes que são contrárias às expectativas de felicidade do ser humano. Frustram-se tais expectativas diante da perecibilidade da vida que se pode conservar por meio de alimentos igualmente perecíveis; a perecibilidade é o selo inegável da existência humana em suas dimensões terrenas. E, no entanto, há mesmo esperança. Por quê?

Após o pecado original, Deus disse a Adão que desde então ele teria de tirar da terra seu sustento, com o suor de seu rosto e o esforço de seus braços. Como vimos, o pai da humanidade foi expulso do Éden junto com sua esposa, Eva, e então começa sua jornada de trabalho árduo para conseguir o sustento diário. A realidade então se lhe torna, de certo modo, hostil; Adão já não a pode mais dominar em ordem a Deus, para sacrificá-la, senão que é de algum modo dominado por ela, porque perdera o domínio de si mesmo ao pecar. Para ele, não há esperança de redenção alcançada por si mesmo, com suas próprias forças, derrame-se quanto se derramar de suor e lágrimas. Adão podia trabalhar o máximo possível para adquirir alimentos perecíveis, é verdade, mas nenhum esforço humano é capaz de conceder virtude de imperecibilidade capaz de comunicar-se por um alimento. O labor sofrido do homem era feito em ordem à conservação da vida natural, mas não da sobrenatural; pois não somos salvos por nossos esforços. Dependíamos absolutamente de um auxílio divino extraordinário para readquirirmos aquela vida perdida, no Éden, por nossos primeiros pais, a vida imperecível, a vida da graça; e o primeiro sinal de que ela se aproximava foi a generosa e diária chuva de maná celestial, no deserto do Sinai. “Que é isto?”, perguntavam os hebreus ao ver aquele alimento desconhecido. “Isto é meu corpo, que será entregue por vós e por todos…” seriam as palavras que nos esclareceriam melhor a dúvida deles, séculos depois. É a realidade consumada daquilo que outrora era tão somente figura. É o pão descido do céu, o único que vale todo o esforço de que somos capazes. Por esse pão devemos mover nossos corações, pois o que mais os atrai é aquilo que os ajuda a chegar na eternidade; ora, eles pulsam continuamente pela eternidade.

Retornando ao início do discurso de Jesus em resposta àqueles judeus, em Cafarnaum, vemos um desenvolvimento esplêndido da doutrina em razão da qual o sacrifício eterno do Redentor seria celebrado, ao longo dos séculos, nos altares católicos, até o fim dos tempos. Diferentemente das outras vezes em que Nosso Senhor usara de metáforas e símbolos, no célebre discurso do pão da vida, Ele não deixa transparecer qualquer sombra de poesia ou figura de linguagem em suas palavras, razão por que são consideradas tão insuportáveis e duras, aos ouvidos de muitos, que houve como uma apostasia instantânea entre Seus discípulos. Comer carne e beber sangue não são coisas, na linguagem corrente, comumente usadas para expressar poeticamente realidades sublimes, e o é muito menos quando se trata de carne e sangue humanos. Essas palavras, unidas à insistência de Jesus em que é de sua carne e de seu sangue que deveriam alimentar-se os homens, foram imediatamente interpretadas de um modo grosseiramente carnal, cafarnaítico, rude e incrédulo.

E agrava-se mais a situação quando sabemos que era proibido pela legislação mosaica o consumo de carne e sangue humanos, prática tão comum na Antigüidade entre povos e tribos de cultura degradada e hostil, ligada a cultos e rituais de sacrifício humano, evidentemente, a certas divindades. Repugna aos sentidos a simples ideia de alimentar-se de um outro ser humano. Nosso Senhor não provocaria um tal escândalo nos judeus, em razão do qual tantos o abandonariam, sem um motivo proporcional a tais consequências; quer dizer, qual sentido há em valer-se de uma metáfora aparentemente absurda e de sérias conseqüências sem grave motivo e sem explicações ulteriores? Nesse caso, bastaria a Jesus explicar o significado de suas palavras, dizendo-lhes por exemplo que não se tratava de algo literal. Porém, Ele fez o contrário: intensificou suas palavras e as manteve firmemente. Os judeus perguntavam-se: “Como pode este homem dar-nos de comer a sua carne?” (v. 52). Ora, a palavra “comer”, em grego, aqui, é “paghein”. Jesus responde-lhes que “Quem come minha carne e bebe o meu Sangue tem a vida eterna” (v. 54), tornando mais literal ainda o sentido de suas palavras, visto que se trata, em grego, da palavra “trogo” (τρωγω), que significa “mastigar”, “comer”. Sentidos semelhantes, mas ambos sustentam a literalidade inequívoca das palavras de Nosso Senhor.

Reconheçamos, portanto, que Jesus falava seriamente quando dizia que temos de comer Sua carne e beber de Seu sangue. Não se trata de metáfora, mas de uma realidade profunda e decisiva em ordem à salvação eterna de nossas almas. Quanto maior é a ciência daquele que nos fala algo que não conseguimos entender de imediato, maior é nossa tendência a confiarmos na coerência e profundidade do que se disse. E, quanto maior é a profundidade e virtude daquele que fala, maior é o peso de suas palavras, a carga significativa, semântica, que, por vezes, se reforça pelas circunstâncias imediatas, específicas e gerais, porque há maior profundidade naquilo que se diz após terem-se considerado diversas dimensões da realidade e as interligado.

Há pessoas que falam apenas o que retiveram da apreensão imediata dos sentidos, sem terem assimilado e abstraído bem a essência íntima do que viram ou ouviram, do que viveram; são as pessoas superficiais, de pouca inteligência ou levianas, que observam a realidade sob um filtro de utilidade meramente prática, incapazes de enxergar-lhe a verdade. Isso não sempre é culpável, como se percebe; mas é real e produz graves conseqüências quando se enraíza intimamente numa sociedade – não preciso dizer que a nossa sofre desta enfermidade, correto?

Ocorre que Jesus é Deus, a Sabedoria eterna do Pai, o Filho unigênito, o Onisciente, o Todo-Poderoso. É preciso dizer mais para que concluamos que Suas palavras não são vãs, nem superficiais, nem ditas com fins puramente pragmáticos? Qual era a finalidade do ensino do Senhor, de Suas parábolas? Era fazer uma “transformação social”, como afirmam muitos hoje? É evidente que não! A transformação intencionada por Cristo é sobretudo espiritual, é uma sobrenaturalização de nossas almas. Para isso, Ele tinha de atentar-se tanto às condições específicas e circunstanciais de Seus ouvintes como ao porvir de Sua Igreja. Suas palavras, Sua doutrina, enfim, têm caráter universal e são um abismo de significados espirituais; é a doutrina do próprio Deus, são verdades reveladas pelo Filho de Deus. Não há sentido em abster-se de considerá-las inesgotavelmente significativas e muito acima de nossas miseráveis capacidades intelectivas; precisamos humilhar-nos diante do mais humilde versículo das Escrituras e compreender que se trata de algo dito sob inspiração divina. Deus não se engana, nem engana ninguém, nem precisa ser ensinado a ensinar; é o Mestre por excelência, a Verdade mesma.

Por isso, quando fazia o discurso do Pão da Vida, Jesus falava com palavras, atos, sua vida, as circunstâncias, a divina Providência em torno de todos, enfim. Tudo isso há de ser considerado; tudo estava em jogo; os corações não eram vazios imensos – de certa forma, eram-no sim –, mas tinham expectativas, memória do passado, conhecimentos atuais, talvez superstições, talvez alguma sabedoria. Nosso Senhor considerava tudo isso e abarcava, além do mais, todas as outras possibilidades humanas que seriam, futuramente, o cenário em que Sua doutrina seria ensinada aos homens. Assim, podemos compreender melhor a Sabedoria divina no universo e em sua ação nas almas por meio da pregação de Jesus.

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