I
Todo homem quer ser feliz
É experiência universal da humanidade que ninguém permanece com os mesmos gostos, durante o arco completo de sua vida, que possuía na infância. Isso significa que aqueles interesses, aqueles anseios infantis que tínhamos vão, aos poucos, cessando e dando lugar a aspirações mais nobres e acomodadas à nossa maturidade. Todos concordariam comigo se eu dissesse que um adulto cujos dilemas são comuns a crianças de seis ou sete anos de idade é imaturo; e fariam o mesmo se eu afirmasse que uma criança de seis anos com dilemas próprios de um adulto de vinte e cinco é anormal. Para uma criança de cinco anos, ter dilemas de crianças de cinco anos é normal e faz parte de sua singela maturidade infantil; e assim por diante.
Mas a vida de um ser humano não se resume àqueles anseios ou desejos suscitados ordinariamente por determinada fase de seu desenvolvimento. Em cada uma delas, podemos encontrar um padrão, um fio que as conecta umas às outras em suas particularidades. Nenhum bebê chora porque soube que sua amada está namorando alguém que não ele, mas um adolescente sim. E nenhum adolescente, ordinariamente, fica alegre com a “notícia” de que terá ainda muitos anos de vida pela frente, para poder realizar seus anseios atuais, mas um idoso que desconfiasse que se lhe aproximava a hora da morte, ao receber tal notícia, muito se alegraria.
São inúmeras as causas de alegria e tristeza para cada um de nós, pode-se dizer até que tantas quanto potencialmente infinita é a multiplicidade das possibilidades humanas. No entanto, como dito acima, há em todas um denominador comum, algo que está presente em todas essas causas de nossos sentimentos. Refiro-me a quê?
Pensemos no motor central da ação humana. Todo ser humano age como age porque quer ser feliz, porque tem em vista a felicidade. Este agir supõe um o quê, um porquê e um como. Trata-se do objeto escolhido por fim de certa ação, por tal ou qual razão, mediante tais ou quais meios. E então suas ações podem obter-lhe tais ou quais bens, que são contemplados como tais por se adequarem como meios ao ideal de felicidade que se tem, um fim existencial perseguido por toda a humanidade desde Adão e Eva.
Encontramos, porém, muitos ideais de felicidade distintos. Para algumas pessoas, o que as faria felizes seria motivo de infelicidade para outras. São distintos os objetos buscados como meios acomodados à consecução da felicidade, ou como sua identificação concreta, cuja posse equivaleria à obtenção da felicidade mesma; contudo, é único o desejo de felicidade, que é objetivo e compartilhado por todo ser humano, podendo ser comparado a uma espécie de sede que se busque saciar com quaisquer tipos de líquido disponíveis, alguns dos quais podem proporcionar uma satisfação momentânea a essa sede, até mesmo ilusória, um efeito placebo; outros aumentam a sede, objetivamente falando, embora pareçam – coisa curiosa! – apaziguá-la; pois o homem é capaz de enganar-se a si mesmo: afinal, como dizia o poeta Eliot, a humanidade não está acostumada com excesso de realidade. Mas só um líquido é proporcional à “expectativa” da sede, isto é, possui virtualidade suficiente de satisfazê-la segundo sua medida requerida; ordinariamente, só um deles tem conaturalidade com ela segundo sua natureza.
Na ordem da natureza visível as coisas são assim, e isto faz parte da Sabedoria infinita de Deus. O que se acomoda à visão é o objeto enquanto iluminado, não o cheiro; o que se acomoda ao olfato e é-lhe como proporcional ou conatural é a fragrância, não o som; o que se acomoda à audição para ser o que é, enquanto meio pelo qual o ser humano se pode comunicar, é o som, é a vibração de inúmeras partículas que possui certa freqüência, etc.
Na ordem psicológica, também podemos verificar essa estrutura de acomodação e proporcionalidade, especialmente porque o homem é um pequeno cosmos; parece ser uma reprodução inteligente, livre e espiritual da totalidade do universo. Ora, ocorre que, nessa ordem, as coisas são mais subjetivas do que no restante do universo. Pessoas sentem medo de coisas que são indignas de tal sentimento; ficam alegres por pecados cometidos, o que lhes devia causar dor e remorso; têm grande disposição para coisas fúteis, mas quase nenhuma para ações nobres, etc.. É uma variedade que se dá pela desordem passional e intelectivo-volitiva do indivíduo humano, a qual faz com que este receba certo impacto negativo da realidade naquilo que diz respeito a seu bem verdadeiro, quanto a seu fim, e positivo, no que diz respeito, considerando-se seu fim, a seu mal.
Assim, não é mera atribuição extrínseca da mente a uma realidade um valor objetivo ou subjetivo tal ou qual; a nobreza não é uma ficção ou uma invenção, mas uma possibilidade real que se pode atualizar em quem atua nobremente. Mas pode existir uma recusa instintiva a ações nobres, e é aí que se dá a desordem interior no domínio dos afetos, e não ainda a nível intelectivo-volitivo, pois um bom uso atual das faculdades superiores pode coincidir com um desequilíbrio afetivo claro em face da verdade das coisas reais.
Pois bem, em termos de ação propriamente humana, tudo começa pela inteligência e vontade, que são faculdades espirituais completamente distintas das de ordem sensível, como o é a imaginação por exemplo. Enquanto a primeira tem por objeto a verdade, o ente inteligível, a segunda tem por objeto o bem. E acontece que a vontade nunca pode ser, em hipótese alguma, atraída por algo que, no momento, se lhe apresente como um mal, pois, tendo por objeto próprio o bem, não pode ser movida senão por bens, e isto sem qualquer exceção. Ademais, não existe algo que seja em si mesmo um mal, pois o mal em si não existe; é apenas uma carência, uma ausência, algo que, relativamente ao todo de nosso fim, se nos apresenta como desordenado, parcial, prejudicial; atém-se apenas a um aspecto daquilo que para o agente seria um bem por corresponder a certa necessidade momentânea por exemplo.
Nesse sentido, pode-se dizer que, de certa forma, objetiva e subjetivamente nós só somos movidos por bens, nunca por males. Ninguém quer o mal senão vendo nele um bem; pode até chamar de mal a ação que realiza, sem contudo ater-se ao que isso significa de fato. Seria como alguém dizer que tal mal é um bem para ele porque corresponde ao fim deliberadamente escolhido por ele mesmo; parece implicar um ponto de vista, uma perspectiva de todo e fim que há no sujeito, algo escolhido por ele mesmo.
E quem não quer ser feliz? Ninguém, embora muitos possam afirmar que desejam a infelicidade e a desgraça. Mas isso não contradiz o que acima foi dito, pelo contrário, reforça-o de modo aparentemente paradoxal, visto que querer a infelicidade é tomar a infelicidade por um bem e, portanto, buscar nisso a própria felicidade. Não é possível à visão não ter por objeto as coisas sensíveis enquanto iluminadas; fecham-se os olhos, mas estes conservam tendo o objeto de sempre. Homem algum deixa de ter, quanto à sua vontade espiritual, por objeto o bem, ainda que esteja inconsciente; a vontade não precisa estar perseguindo atualmente um bem para tê-lo por objeto. Faz parte da natureza da vontade, e, ainda que não houvesse vontade espiritual atualmente, sua definição permaneceria a mesma, assim como não é preciso haver, necessariamente, objetos triangulares para que o triângulo conserve sua essência, suas propriedades essenciais.
Portanto, todo homem quer ser feliz e só se move por bens, nunca por males; há uma objetividade muito clara nisso, uma certa necessidade. É impossível desvincular-se dessa estrutura antropológica do próprio ser humano para reivindicar uma capacidade impossível de recair na natureza do homem. A liberdade não pode ser absoluta, e há regras para a felicidade, pois ela possui um quid e um conjunto de “critérios de obtenção”, por assim dizer. Para ser feliz não basta decidir ser feliz, mas é preciso respeitar a ordem estrutural daquilo que é a felicidade real e verdadeira para o ser humano, o que é algo que antecede toda e qualquer deliberação ou decisão do homem, pois que se encontra dado em sua condição existencial, sobretudo quando pensamos na felicidade sobrenatural a que somos chamados e que independe de nossos méritos próprios ou capacidades.
II
Subjetivismo contemporâneo
Não há dúvida de que vivemos num mundo repletos de neuróticos, de pessoas cujo senso de proporções e de captação da realidade está completamente obscurecido pelo exacerbado valor conferido à interpretação subjetiva que se dá ao resultado do impacto individual com o real. Trata-se de um desvirtuamento das capacidades cognoscitivas humanas em favor de uma supervalorização absurda dos interesses pessoais, nascidos do egoísmo e correntes entre o homem desde o início de sua existência aqui na terra.
G. K. Chesterton antevia uma piora drástica desse quadro há quase um século dizendo que chegaria o dia em que se teria que provar que a grama é verde e o céu, azul; e, no mesmo sentido, o pensador inglês dizia que a diferença entre o louco e o poeta é que este coloca a cabeça no mundo, enquanto aquele, o mundo na cabeça. Pois bem, o que acontece quando temos um mundo em nossa cabeça? – Enfeitamo-lo com nossos caprichos, fazemo-lo à nossa imagem e semelhança, isto é, exatamente segundo nossos gostos, segundo nosso querer egoísta e rebelde; em suma, eles não são mais que nosso eu transfigurado em imagens. E a dissociação entre o mundo criado pelo fantoche das próprias emoções e o mundo real, este que está à nossa volta e que foi pensado pela Sabedoria eterna de Deus, causa um choque imenso no psiquismo de quem, longe de ser poeta, justamente é chamado de louco. Parece-lhe que tudo à sua volta está contra ele qual inimigos confessos; e o escândalo está em que a realidade não se curve a ele, o que, aludindo ao Gênesis, se pode muito bem expressar deste modo: ele não é um deus.
No entanto, penso que, embora não haja muitos loucos afirmando que a grama não é verde, essa soberba oculta é mais que suficiente para esconder, sob moldes sutis, tolices como essa: pois, segundo seus princípios, atribuir a cor verde à grama seria uma coisa válida apenas no âmbito do sujeito que o afirma, mas não uma afirmação que se adéqua à coisa sobre a qual se está afirmando algo, à qual se está atribuindo um predicado. Tratar-se-ia apenas de um ponto de vista, uma opinião pessoal, nada mais; e o que não percebem é que não é menos opinião pessoal e subjetivismo o que venham a afirmar a partir do momento em que pregam aos quatro ventos que não existe verdade objetiva ou absoluta, mas que tudo é relativo. Exatamente; relativo ao sujeito que fala, mas não relativo, apenas, a quem afirma que tudo é relativo ao sujeito que fala, senão que válido para todos. Incrível raciocínio, como se vê; a loucura parece produzir frutos geniais às vezes.
Mas, no atual momento, a grama e o celeste firmamento não têm atribulado tanto os corações das multidões neuróticas e dos supostos intelectuais, os tais dos formadores de opinião, como a antiga afirmação universal e objetiva de dois sexos biológicos distintos. É que parece que a grama pode identificar-se com o céu, e então não nos caberia interferir numa tão justa decisão; e o céu pode querer fazer-se grama, ou dizer-se grama, o que talvez já seria um caso mais delicado para nós, visto que, supondo que a grama se tenha dito céu, anteriormente, as coisas poderiam tornar-se confusas e a grama perderia seu direito de ser céu, uma vez que este é grama. Interesses inanimados, os conflitos intracósmicos parecem perdurar pelos séculos.
Em meio de contradições e falácias tão patentes como as de nosso tempo, não causa o menor espanto que elas se tenham estendido a todas as dimensões da vida humana, inclusive – e sobretudo – naquilo que ela tem de mais importante e fundamental. Não são outra coisa o relativismo religioso, a defesa de uma suposta liberdade quase absoluta e ilimitada no que concerne ao sujeito, etc. etc.. Portanto, os princípios e as máximas por detrás dos quais estão essas estruturas de pensamento de que boa parte da civilização ocidental está imbuída atualmente, tendo adquirido um tão grande alcance e chegado à esfera da religião, como se vê, atacaram também os alicerces da vida humana – o que é dizer o mesmo, no fim das contas. Sim, desta vida humana, que é feita de tempo e um impulso que nos impele à nossa própria perfeição, realização e… felicidade.
III
Para se chegar a um termo, é necessário que se percorra um caminho, sem o que uma das condições requeridas para a consecução do fim visado, ficando inerte, mostrar-se-á sempre intimamente unido ao próprio fim e, portanto, indispensável para se alcançá-lo. E a relação entre a condição ou meio e fim visado não deve ser simplesmente uma arbitrariedade, senão que um nexo real e profundo de causa e efeito, de meio suficiente para determinado fim, ou conjunto de meios, se se quer. Porquanto pode haver o inconveniente de querer-se tal ou qual fim e, elegendo-se meios inadequados ou insuficientes à sua consecução, jamais vê-lo alcançado, por haver sempre uma espécie de obstáculo intransponível no caminho percorrido para chegar a ele. Seria semelhante a observar, de longe, altos cumes de uma cadeia montanhosa extremamente bela. Não todos eles são capazes de atender às expectativas de quem, observando-os, quer alcançá-los; mas alguns o são. Pode-se então incorrer no erro de escolher-se escalar uma montanha demasiado alta, ou, pelo contrário, muito baixa; a primeira causaria frustração por ser impossível de escalar, enquanto a segunda, frustração por não atender àquelas expectativas que havia a seu respeito. Por outro lado, quem escolhe a montanha correta sabe que há diversos modos de escalá-la, diversos caminhos pelos quais travar sua aventura, uns mais árduos, outros, mais fáceis. A menor orientação imprecisa de como agir prudentemente em tais situações poderia implicar fracasso, frustração e até mesmo morte.
Nesse sentido, não basta uma capacidade operativa suficientemente desenvolvida para chegar-se a determinado fim, como o é a subida de uma alta montanha; é preciso uma orientação intelectual igualmente suficiente às necessidades de tal aventura. É preciso conhecer qual seria o melhor caminho a seguir, o melhor equipamento, o melhor horário, enfim uma série de condições circunstanciais propícias a que aquele indivíduo concreto que pretenda escalar uma montanha chegue a seu cume sem arriscar-se gravemente ao erro. Assim, além das condições atuais de quem age – orgânicas por exemplo –, há a objetividade da situação concreta, a qual envolve tanto as condições subjetivas-objetivas do indivíduo como as condições objetivas e inexpugnáveis da natureza, além da relação evidente que há entre ambas. Um simples querer não altera em nada essa realidade, mas a realidade é capaz de alterar o querer a que este, configurando-se a ela segundo sua verdade, possa alcançar seus fins almejados.
Portanto, a subjetividade, na maior parte das situações humanas, é mais uma inimiga que uma amiga; não se depreende o que se deve ser do que se é atualmente; se fosse assim, estaríamos sujeitos às vicissitudes de nossa natureza e desmentiríamos a liberdade que pulsa em nossos corações, uma vez que contrariaríamos esse impulso à perfeição que temos e que só se realiza mediante um reto uso da própria liberdade, sem o que o mero desenvolvimento conjunto das faculdades sensitivas, exercendo um influxo de domínio sobre as faculdades superiores, consistiria no crivo absoluto do desenvolvimento geral do ser humano a despeito de si mesmo, e isso equivaleria a contrariar a natureza humana em seus movimentos mais profundos e a condená-la à frustração e sufocamento de seus ideais espontâneos mais elevados.
Quando saímos da infância e passamos à adolescência, uma série de possibilidades de atualização abre-se ao nosso horizonte de consciência e então ansiamos, impetuosamente, por desdobrá-las. É uma abertura a operações mais sofisticadas das mesmas faculdades, outrora presentes, obviamente, mas com certas limitações. O fato de haver tantas possibilidades e um fim visado mostra-nos a necessidade de um bom uso da liberdade, portanto de nossas faculdades espirituais, aquelas mais elevadas; pois, se não se o faz, o resultado das escolhas feitas diante desse novo horizonte potencial que se nos abriu poderá ser drástico.
Dado que assim se nos apresentam as possibilidades humanas e a necessidade imprescindível de um reto uso de nossa liberdade em face delas e dos meios de se as alcançarem, fica evidente que o subjetivismo pelo qual se defende uma arbitrariedade completa na vida humana quanto àquilo que há nela de mais importante vai de encontro à própria condição humana, a fim de sufocá-la e mantê-la na mesquinharia, sob o pretexto paradoxal de estar-lhe assegurando a liberdade que ela perde simultaneamente ao ato de submeter-se a si mesma para lutar consigo mesma. Parece estranho, confuso e incoerente, mas é isso mesmo: há certas anomalias do pensamento que só são expostas com muita dificuldade, quer porque seus supostos fundamentos sejam ocultos sob formas simples e enganosas, capazes de convencer as massas com facilidade, quer porque certos movimentos psíquicos não podem ser expressos senão de um modo confuso e obscuro, tal é a dificuldade de apreendê-los.
Pensemos agora em um relativista moderno extraordinariamente rico, que faça o que quer e considere absolutamente sufocante seguir as normas da moral para ser feliz. Para um indivíduo assim, a lei moral-natural inscrita no coração do homem é uma simples redução de seu arco operativo e, portanto, de sua felicidade. Qualquer limitação se lhe afigura como um mal inaceitável e parece sufocar sua natureza. Não lhe vem à cabeça que, abismando-se numa vida libertina e repleta de concessões a tudo quanto haja de imoralidade, se lhe fecham as portas do imenso horizonte de possibilidades de aperfeiçoamento que há no bem, nas virtudes, no amor. É impossível a um homem servir a dois senhores com a mesma intensidade e atenção, sem que lhe seja preciso desprezar um para agradar ao outro e vice-versa. É igualmente impossível querer realizar-se por meio de uma abertura potencialmente infinita a toda e qualquer possibilidade que se afigure aos instintos interessante e deleitável: quando se fecha uma porta, abre-se outra; e, abrindo-se uma porta, fecha-se outra. Exatamente assim acontece na ação moral: não há como ser intensamente vicioso e virtuoso ao mesmo tempo e na mesma medida. Não há como praticar ações de impaciência e manter-se intacto para praticar, com certa perfeição, os atos próprios da paciência.
Pois bem, na vida humana todos nós precisamos das virtudes. Sem elas, a vida torna-se um fardo insuportável quando não repleta de distrações e prazeres ofuscantes e excessivos, que, aliás – não posso deixar de dizê-lo aqui –, acabam por tornar-se igualmente fastidiosos e insignificantes, razão por que se acabam procurando mais e mais doses de prazeres diferentes e intensos, até chegar ao ponto em que, sobrevindo o desespero, o suicídio parece tornar-se a única alternativa viável para alcançar-se a paz. Ora, os prazeres e diversões lícitos da vida humana só são legitimamente integrados nela, a título de sadio complemento ativo subordinado ao fim, quando vividos virtuosamente; senão haverá um ciclo interminável de frustrações. E, além disso, a virtude mostra-se ainda mais necessária nos momentos de dificuldade, que constituem boa parte do tecido da vida humana, pois que, evidentemente, a realidade não obedece a nossos caprichos e, portanto, costuma contrariar-nos amiúde. Sobrevindo grandes fardos sobre nossos ombros, precisamos de força para suportá-los, sem o que somos esmagados por eles; não sendo por eles esmagados, tornamo-nos mais fortes. E esse é o papel da virtude no psiquismo humano.
Dada a importância da virtude para o ser humano, ocorre algo sumamente interessante aqui: ela, ainda que considerada sob seu aspecto meramente exterior, é requerida para alcançarem-se fins ilícitos, conseqüentemente não correspondentes ao fim verdadeiro do homem. Indivíduos como Nero, Napoleão, Hitler, Stalin e Mao Tsé-Tung, para manter-se no poder e alcançar o que almejavam, não podiam agir de forma absolutamente arbitrária; era-lhes necessário um critério de eleição dos meios que correspondessem aos fins escolhidos por eles. E, geralmente, os meios, ainda quando ordenados ao mal, não se adequam aos caprichos individuais do homem vicioso; as contrariedades aparecem, e aceitá-las, pelo menos em certa medida – aceitação meramente exterior, sem submissão interior e ausência de reclamação é muito pobre e insuficiente – é condição imprescindível para chegar-se ao objetivo visado. Elas são aceitas, é verdade, pelos homens viciosos, mas à condição de servirem a seus fins maléficos, ou seja, de corresponderem a um capricho principal, ao qual serão sacrificados os demais, aqueles menos importantes para esses homens. E, com efeito, é precisamente aqui que as virtudes, nesse caso consideradas em seu aspecto material, externo, são necessárias para eles.
Porquanto, quando se usam tanto o exteriormente bom quanto o mau para atingirem-se determinados fins, não é que a liberdade humana seja duplicada e se dirija a ambos os objetos (bons e ruins): ela acaba por dirigir-se apenas ao mau, pois valer-se do que é exteriormente bom com más intenções não torna o sujeito agente bom, nem mesmo sua ação se torna boa, senão que o perverte ainda mais, uma vez que ele, reconhecendo que, para o senso comum por exemplo, tal ou qual coisa é boa, louvável, reconhece ter de valer-se de tal bondade em prol de intentos perversos, fazendo-se, então, ainda mais cego e obstinado na conquista de seus planos, chegando a aceitar um cínico “vale-tudo”. Não se é sincero quando se mente e se fala a verdade quase ao mesmo tempo, pois a verdade aí é usada erroneamente; em nada induz à virtude da sinceridade, sem a qual aliás seria impossível a vida humana, coisa que reconhecem, ainda que inconscientemente, pela necessidade pragmática que isto implica, quem nega valor de verdade objetivo às coisas mesmas e à realidade antropológica da pessoa humana.
Encontramo-nos, portanto, numa dimensão da atividade humana que se encontra inscrita na própria natureza do homem e que é objetiva a despeito da multiplicidade de interesses que se verificam na conduta de cada indivíduo particular. E ignorá-la não fará com que sua necessidade, em todo ser humano, não continue atual, pulsante, antes será apenas causa daquilo cuja conseqüência será a ausência tanto do conhecimento do que se necessita como da importância e possibilidade de efetivá-lo, a fim de traduzir-se em ações e, posteriormente, em hábitos consolidados essa adaptação da conduta à realidade que é a virtude. Todo relativismo aparece, nesse sentido, apenas como um empecilho, um obstáculo cruel ao aperfeiçoamento do próprio homem e, além disso, uma dificuldade à obtenção de qualquer fim que não seja a mais pura e absoluta inércia vital. A vontade espiritual do homem não pode alterar essa necessidade, mas deixar-se alterar por ela e, uma vez dócil, aperfeiçoar-se, tender cada vez mais ao bem segundo o fim integral da pessoa humana. Uma doutrina tão absurda e contraditória não deveria ser considerada insana?
Seja como for, não podendo alcançar os fins visados, o relativista verá sua liberdade diminuída consideravelmente em razão de si mesma, ou melhor, de seu mau uso, por sua vez derivado dela própria; pois não se quer usar da liberdade senão na medida em que isso é um bem para o sujeito agente, e só há bem, nesse sentido, considerando-se o objeto desejado à luz do fim de quem o quer possuir, de sua verdadeira felicidade e possibilidade de aperfeiçoamento ordenado. Se o relativista julga qualquer suposta limitação de sua liberdade um mal, é porque pensa que isso corresponde a um obstáculo à meta a que ele se propôs e, portanto, à sua felicidade; então, não havendo limitação real senão na pretensão de poder fazer o que se quer, frustra-se e, sem saber a razão de seu fracasso, atribui-se-o a tudo quanto não seja o uso desordenado de sua própria liberdade, aliás mesmo à suposta limitação que a sociedade, naturalmente, lhe impõe nesse terreno. É por isso que se diz que não há liberdade no vício, nem felicidade no pecado, nem paz na desordem, visto que tanto a paz como a liberdade supõem a obediência a uma série de relações internas e externas entre um sujeito consciente e si mesmo, entre ele em paz consigo mesmo e o mundo à sua volta, ou, em suma, a realidade. Conformar-se com o real verdadeiramente e objetivamente, segundo seu fim próprio, eis a ordem no ser humano.
Por isso, advogar por liberdade absoluta ou coisa semelhante equivale a um autoenvenenamento psíquico gravíssimo e de difícil reversão; é uma utopia trasladada ao plano da psique, na qual, lastimavelmente, crê o homem moderno e busca nela fundamentar sua existência – inconscientemente, no entanto, pois que ignora a si mesmo e o mundo a seu redor. Ela é tão paradoxal que simplesmente concebê-la já suporia uma limitação drástica, como se viu, de sua própria atividade (isto é, da liberdade); uma vez que, tornando-se mau, o homem perde a imensa – e verdadeira – liberdade que há em ser bom e torna-se escravo de si próprio, fazendo um movimento contrário ao da ansiada universalmente ascensão à perfeição e realização de si mesmo, que se dá apenas segundo seu fim e razão de ser, que, sabemo-lo pela Revelação, é amar, servir e louvar a Deus nesta vida para, unindo-nos a Ele, contemplarmo-lO no Paraíso por toda a eternidade.
Ademais, essa suposta liberdade consistiria precisamente em que a realidade não o contrariasse, ou pelo menos não lhe ditasse regras, o que equivaleria a conceder ao homem uma autonomia absoluta, ou melhor, uma dissolução ontológica completa, coisa que ele mesmo não quer, mas pensa querer, claro, sob a aparência de moldes sutis e, segundo foi dito acima, inconscientemente, já que, dando demasiado enfoque e poder à sua subjetividade e a seu querer egoísta, acaba crendo mais em si próprio do que no que vê e pode constatar, diariamente, em sua mesma experiência de vida; e crer em si mesmo, nota-se, é mais deleitável do que renunciar a si mesmo.
Pois bem, as notas ontológicas da realidade existem e não são de modo algum um mal; fazem parte da estrutura mesma das coisas, da qual não se podem dissociar sob pena de estas tornarem-se absurdas. Ora, a realidade, porém, não atenta contra si mesma, mas o homem, que faz parte dela, sim. E, quando o faz não só a título de deslize operativo do qual se arrependerá logo, talvez, ou ao qual não pretende conferir uma justificativa intelectual, qualquer que seja, senão que quer, apenas, viver “em paz” sua prevaricação, quando não o faz assim somente, dizia eu, senão que se pretende conferir um valor de verdade incontestável e, em conseqüência, o selo de um direito universal à própria prevaricação desde sua base, então é que se instala no coração humano e na sociedade um vírus nocivíssimo que conduzirá todos à loucura pura e simples. Esse vírus tem vários nomes, assim como a cada faceta de um louco se poderia atribuir um apelido diverso: pode-se chamá-lo de subjetivismo, relativismo, materialismo, enfim trata-se de todas essas doutrinas corruptoras por de atmosfera respiramos atualmente. São uma fumaça enegrecida e letal que contamina tudo o quanto se lhe aproxima; e, como eu dizia acima, foram contaminadas as bases da vida humana, o sentido da existência e o núcleo da verdadeira felicidade.
Essa hostilidade neurótica à realidade e à sua estrutura mesma, às suas leis, ao ser, à verdade e ao bem transforma-se numa revolta do indivíduo contra si mesmo, contra as leis que regem os mecanismos pelos quais se pode chegar à consecução dos fins por que se almeja espontaneamente. Na ordem psicológica, não é possível, evidentemente, violar todas essas leis em sentido absoluto, senão que alguém pode querer opor-se-lhes valendo-se delas mesmas, ainda quando as nega. Aqui deparamos com um problema gravíssimo, o problema da felicidade, à qual se atribuem, por todos os lados, que lhe contradizem desde seu íntimo e que não são mais que um delírio satânico em face daquilo que ela de fato é. Esses supostos caracteres nascem de uma concepção de mundo e do homem absolutamente contrária à cristã e induzem, naturalmente, a um modo de vida específico e por demais atraente, por seu caráter vicioso, soberbo, libertino e socialmente aceito (hoje), do qual resultam, não obstante, o aumento preocupante de doenças psíquicas que tanto preocupa as autoridades civis de nossa civilização contemporaneamente, especialmente da depressão, tantas vezes passível de confundir-se com a mais completa ausência de sentido existencial num coração que anseia pela eternidade.
Mas disto, que se sintetiza naquela famosa frase que diz que “o que importa é ser feliz”, ou melhor, que “nada é errado se te faz feliz”, e de outros temas, poder-se-ão encontrar considerações mais profundas e amplas no meu livro O que importa é ser feliz? Felicidade, relativismo contemporâneo e outros temas, lançado este ano pela editora Lux Aeterna.


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