Desânimo, namoro e vocação matrimonial

I

Há inúmeras formas de classificar a gravidade de um mal: uma delas é por seus efeitos, outra, considerando-o em si mesmo. E o desânimo é precisamente um desses velhos inimigos da humanidade que comportam essas duas dimensões em grau consideravelmente perigoso. E por quê?

Nascendo como um ser incompleto cuja realização não se reduz ao desenvolvimento natural das dimensões biológicas que nele há, como nos animais, o homem é chamado a uma vocação superior, a transcender-se a si mesmo com o auxílio de Deus e, assim, chegar a ser quem verdadeiramente é – aquele que foi criado para ser. Embora sejam inúmeros os homens que não se deem conta de sua vocação sobrenatural, esta permanece sendo um dado real da condição humana, mas que o homem não pode realizar por si mesmo naturalmente, como no caso de uma semente que, em solo adequado, cresce e segue o fluxo próprio de sua natureza; pois trata-se de uma realização que ultrapassa as capacidades naturais do homem. Se a dinâmica corporal do ser humano é crescer paulatinamente desde o momento de sua concepção, a dinâmica de seu chamado ontológico não se reduz a semelhantes normas, fincadas na dimensão puramente material das coisas.

Donde não se torna difícil perceber por que razão o desânimo, que pode ser definido como uma certa paralisia diante da vida, diante do bem – ou uma espécie de ausência completa de movimento, uma estagnação das faculdades superiores do homem num vazio que é tido por este como um bem –, sobretudo o bem divino, como dizia Santo Tomás a respeito da acídia, outro nome apropriado para o desânimo, embora nuances outras possam ser extraídas desta palavra, cuja atualização na vida concreta é sumamente nociva.

Por mais que muitos homens, como eu dizia acima, não atentem ao fim sublime de suas existências, não deixam por isso de conferir a si mesmos outros fins, pois que há em todos o mesmo anseio por felicidade. Quando se vê inerte na estrada da vida, sem caminhar, sem progredir, sem crescer em suas faculdades superiores, sem realizar-se em absolutamente nada que diga respeito a algo profundo de si, qualquer indivíduo se entristece pela presença contínua e constante de um mal, que é esse estado de esmagamento interior, de certa autoaniquilação biográfica, ontológica. Como resultado, surgem o desespero, a perda de sentido, enfim tudo o que mais é temível para o ser humano.

Todos querem realizar-se, e em nossa sociedade atual a palavra realização é muito utilizada em diversos contextos, mas sempre tendo por significado a mesma coisa: alcançar a felicidade quer a partir de seus próprios esforços, quer a partir de uma colaboração de diversos indivíduos, gerando assim uma alegria estável e constante, derivada de inúmeras pequenas realizações – ou grandes – que vão tecendo o conjunto de uma vida que, após muito esforço, pode ser contemplada em seu passado – à luz do presente – e vista como a realização de inúmeros anseios remotos e razão da afirmação de que atualmente se goza de um suposto bem duradouro para si e para os outros, algo como a vida no seu auge.

Infelizmente, porém, como é praxe nos dias de hoje, esse tipo de realização se reduz a ambições humanas, a sucessos mundanos e bastante influenciados pela cultura atual, imbuída como está de hedonismo e de idolatria a paixões desordenadas, esses deuses antiquíssimos que nunca deixaram de aparecer qual um vírus letal no coração dos homens de todas as épocas e que eram, na Antigüidade, expressos com aquelas figuras de barro ou de metal. Enfim, o que há por detrás deles pode tranqüilamente ser reduzido a sexo, segurança, fecundidade, saciedade e prosperidade – desejos carnais, como diria São Paulo. (Em nossa cultura atual, a fecundidade, tão ligada ao sexo outrora, foi substituída por uma maior intensidade no – e isto nos deveria espantar – próprio sexo, na prosperidade e assim por diante).

Contudo há aqueles que, à revelia dessas solicitações mundanas, buscam com sinceridade uma vida espiritual profunda, um contato íntimo com Deus, nosso Criador. E então passam a caminhar em direção ao fim sobrenatural de suas existências, à felicidade eterna, não às tolices que o mundo idolatra. Esses indivíduos, a despeito de sua vida espiritual, por serem de certo modo tão homens quanto os mundanos, não deixam porém de ser atacados pelo desânimo, um dos maiores inimigos da vida espiritual, em diversos – e talvez curiosos – âmbitos de suas vidas.  

No presente texto, quero apenas abordar esse vício ou estado de alma no que diz respeito àqueles rapazes que, tendo-se convertido recentemente e sabendo-se vocacionados ao Matrimônio, facilmente desanimam e atrofiam-se em sua busca por uma boa moça católica com quem viver este Sacramento. A maior parte deles, certamente, é constituída de jovens – alguns muito imaturos, é verdade – que saíram de uma vida libertina e começaram a pôr freios em seus desejos e a mudar de hábitos.

Pois bem. Naturalmente, existem rapazes – e não são poucos – que, cedendo às próprias inclinações temperamentais ou aos hábitos que adquiriram ao longo do tempo, adquirem uma visão de mundo por demais influenciada por paixões desordenadas, de forma a que se crie uma concepção da realidade ou pessimista, ou otimista demais, baseada em fracassos ou em sucessos, e não na realidade mesma. Falta-lhes ânimo e vigor para prosseguir batalhando qual soldados de Cristo no árduo campo da virtude, o que se expressa muito bem por suas débeis compleições – ou seria melhor dizer vontade covarde? – e excessiva tendência à desistência à vista do menor obstáculo.

Afinal, se eles desanimam por não se lhes apresentar ex nihilo uma moça que lhes satisfaça todo o rigor de seus numerosos critérios – o ideal é que seja uma moça enormemente virtuosa e fisicamente perfeita, diriam alguns –, não há que buscar a causa disso em outro lugar que não nas meninas diante das quais se detêm, ou pelas quais deixam seus corações vagueando em devaneios vãos e ociosos, representando imaginativamente não sei quantos cenários em que exercem seu reinado absoluto sob os corações. Além disso, toda essa coloração imaginativa em torno da realidade do Matrimônio acaba fazendo dele a fonte da sua felicidade mesma, e não um meio sublime e eficaz de amar a Cristo!

É velho o ensinamento de que pouco adianta tentar edificar elevadas construções sem ter fincado bem – e com profundidade suficiente – seus alicerces. É tempo jogado fora. E hoje em dia esta é uma das razões por que o tempo das pessoas – desanimadas ou não – é desperdiçado de uma maneira horrível de pensar: fixos em bens mutáveis e perecíveis, ou melhor, sem nenhuma finalidade existencial que lhes dirija o percurso integral de suas vidas em direção à eternidade, a sociedade atual – neopagã como é – perde-se em numerosos prazeres, em uma multiplicidade de tarefas e de supostas “alegrias” de cuja existência nossos antepassados mais distantes sequer desconfiavam, e não se tem em vista uma meta objetiva, clara e que responda verdadeiramente aos anseios mais profundos do ser humano, a qual confira ao conjunto da vida e da atividade humanas um sentido que permaneça válido mesmo nas situações mais adversas. Eis que, então, de nada valem a multiplicidade de tarefas e os numerosos prazeres com que se deleitam nossos jovens – as pessoas mais velhas não estão, infelizmente, exclusas desse quadro trágico: absolutamente não é difícil encontrar pessoas idosas (que deveriam ser modelos de maturidade) imaturas e fortemente apegadas a inúmeras tolices da vida presente.

Por isso, o que deve subjazer a toda atividade humana, ao conjunto dos nossos esforços, da nossa vida, em verdade, deve ser o sentido supremo da nossa existência, que é amar, glorificar e servir a Deus. E um dos meios de fazer isso é abraçando a vocação secundária que Deus nos concedeu, a saber, o sacerdócio, a vida religiosa ou a vida matrimonial. É o primeiro alicerce, que é o mais profundo, que conferirá sentido e valor a este segundo, a vocação a que nos sentirmos chamados.

III

Princípios psicológicos

Em tempos antigos, Padres da Igreja foram identificando duas manifestações especiais da dimensão sensitiva do ser humano (afetividade sensitiva), a saber, a concupiscível e a irascível. Significa que, de algum modo, por nós, homens, termos apetite sensitivo (afetividade), somos afetados pelo impacto em nós do mundo exterior e de nossa interioridade. Assim, quando um objeto é exteriormente ou interiormente (pela imaginação) apresentado a nós, há geralmente uma reação espontânea ou de desejo (atração) ou de repulsão. Diante de um bem desejável e fácil de adquirir, o concupiscível se move, inclina-se: há uma paixão específica (ato desta potência, do apetite sensitivo); e, diante do bem desejável, mas árduo, surgem paixões do apetite irascível, que visa a vencer os obstáculos para obtenção de tal bem.

Neste mecanismo sensitivo, nesta atitude espontânea – que dependerá em cada homem de suas disposições interiores, hábitos adquiridos, herdados, etc. –, costuma haver sérias desordens quando o concupiscível, devendo conter-se diante de um bem parcial ou falso (considerado como tal pela inteligência, mas fortemente atraente aos sentidos), inclina-se a ele e o deseja a ponto de ceder às solicitações que dele surgem; e quando o irascível, em vez de perseguir o bem árduo (considerado como tal pela razão), recua e se inibe, omitindo uma ação necessária. Daí que saibamos que a covardia por exemplo é a inibição do irascível quando este se devia afirmar e que a fornicação ou a gula é mover-se (deliberadamente) para uma ação ilícita quando se devia recuar.

IV

Aplicação desses princípios ao problema a que se quer lançar luz

Naturalmente, os homens são atraídos pela beleza feminina. Esta se lhes apresenta espontaneamente como um bem desejável (às vezes fácil) e, por isso, que lhes move o concupiscível. A depender da situação, este pode sofrer uma moção violenta (quando há grande excitação passional), ou uma moção leve, guiada pela razão, quando se sabe elevar a admiração diante da beleza de uma mulher a Deus, quando brotam elogios decentes e honestos, moderados, quando se pretende conquistar sua amizade, começar um relacionamento que vise ao casamento e assim por diante. Dificilmente um homem, ao contemplar a bela mulher com a qual deseja namorar, simplesmente dirá: “Aprecio sua beleza, que considero apenas com minha inteligência, e nada mais; embora seja bela, nada sinto ao vê-la”. As coisas não funcionam assim para o ser humano; somos um composto de corpo e alma, intimamente ligados, e não vegetais, seres sem vida nem paixões. Mas, ainda assim, é à alma que o corpo deverá obedecer, e não o contrário.

Na maior parte das vezes, contrair um namoro implica diversas dificuldades, e é aí que entra o apetite irascível. Não basta desejar o amor de tal ou qual moça: é necessário lutar por ele. Sabemos que, num Matrimônio, pela própria natureza do ser humano, a mulher costuma ser, em certo sentido, mais passiva, enquanto o homem é mais ativo. É ele quem tem a obrigação principal de sustentar sua família, de realizar geralmente trabalhos braçais, pesados, que exijam muita força; é ele quem deve principalmente proteger seus filhos e sua mulher, não o contrário. Ele é a cabeça da família e, mesmo no ato sexual, é notável a acentuação deste aspecto de maior atividade e afirmação do homem e da passividade da mulher.

Quem deve fazer tudo isso precisa de verdadeira força de vontade e mesmo física, muscular. Homens frágeis e muito passivos, preguiçosos e dados a prazeres desordenados costumam ser mais afeminados, porque, evidentemente, desfiguram sua masculinidade, que deve estar imbuída de sacrifícios para aperfeiçoar-se. E, claro, embora assim seja, deve-se notar que as mulheres, quanto mais são virtuosas, mais são afeminadas no bom sentido da palavra, quer dizer, amáveis e meigas, ou melhor, mais atualizam as potencialidades naturais da sua feminilidade. Um homem não pode assemelhar-se a uma mulher naquilo que ela tem de próprio, naquilo que está incluso em sua natureza feminina a título de perfeição; e o mesmo sucede com a mulher.

Para homens de boa vontade, não aqueles “conquistadores” que fazem as vezes de animais loucos no cio, o imenso quadro de mulheres à sua disposição – nesse caso, solteiras vocacionadas ao Matrimônio – é amplo, mas sempre diminuído, naturalmente, pelos critérios – espero que moderados e prudentes – com que escolher bem a moça a que se dará sinais de interesse. No caso dos católicos, esse critério costuma ser muito simples: que seja uma católica de verdade, isto é, que não seja mundana, mas temente a Deus; que esteja aberta à vida tal qual se prescreve aos nubentes no Matrimônio e assim por diante.

O problema está no seguinte: mulheres virtuosas, ou pelo menos que vivem uma vida minimamente regrada, não são conquistadas com a facilidade com que se conquista uma mulher mundana e luxuriosa que acorra aos braços do primeiro homem que se lhe apresentar tão logo note, por exemplo, em seu carro um preço acima da média… Estas mulheres, cuja conduta faz transparecer que consideram e tratam a si mesmas como simples objetos de prazer, acabam, infelizmente, tristemente, sendo vistas como “alvos” fáceis, bens desejáveis, pois não somente podem ser belas como também fáceis para alguma parcela dos homens. Em casos mais extremos – hoje se diria que são os casos ordinários, pois vivemos em uma sociedade onde os extremos daquilo que há de mais perverso já são realidade cotidiana –, são fáceis para qualquer um, entregando-se assim a uma vida de imoralidade muito promíscua e libertina. Como se vê, trata-se de algo muito triste, porque a mulher tem uma dignidade imensa, que, porém, é obscurecida quando ela se entrega ao pecado!

Seja como for, tenhamos isto em mente: se as mulheres virtuosas têm critérios claros de escolha de um namorado (candidato a marido, naturalmente) e, junto a isto, são mais raras que as mundanas, são certamente, segundo a terminologia do presente texto, vistas como bens árduos.

E o que fazem os homens frouxos – segurei-me para não colocar aspar a palavra homens – diante de bens árduos? Recuam e… desanimam! Eis o problema! E, se desanimam diante de mulheres virtuosas, não seria justo que se considerassem a si mesmos atualmente incapazes de ter um relacionamento sério e firme com as moças virtuosas diante das quais ficam trêmulos e amedrontados? Como podem querer ser pais e verdadeiros esposos desse jeito? O rapaz apaixonado precisa ser caridoso com a moça amada: se verdadeiramente a ama, ou deve melhorar e tornar-se virtuoso – tornar-se homem de verdade – para merecê-la e não ser para ela uma afronta, uma pedra de tropeço, ou simplesmente crer que ela não o merece, que a merece outro, um rapaz que a saiba amar verdadeiramente. Isso seria querer o bem dela, isto é, amá-la segundo a razão.

O amor ágape, que deve prevalecer então, é o que se sobrepõe ao desejo de prazeres intensos e às conquistas fáceis a que visam os anseios mundanos – situando-se aqui no âmbito do prazer imediato ou da autossatisfação – e busca o bem verdadeiro da pessoa em sua integralidade. É preciso ter vontade firme e inteligência lúcida para firmar-se nele, verdadeiramente, nos relacionamentos humanos. Ficar no plano apenas do concupiscível é geralmente um desvio do amor eros, embora também o irascível possa dizer respeito a este amor inferior. E apenas amar eroticamente – entenda-se bem: no mau sentido do amor erótico –, apartando-se da dimensão completa do amor humano, é rebaixar-se humanamente, é descender à esfera do meramente animal, pontificar contra a própria dignidade e fazer do próximo um simples objeto desejável – e descartável.  

Pois bem, quem não sabe que é árduo amar o próximo tal qual ele deve ser amado? Não são poucas as vezes em que ele nos contraria quer por palavras, que por sua simples existência – afinal, a maior parte das pessoas já passou pela experiência de sentir certa repugnância da conduta de alguém, isto é, daquele defeito incômodo, daquela mania, daquele modo de andar e de falar que causam repulsa espontânea não porque sejam necessariamente maus, senão simplesmente porque há pessoas cujas disposições interiores (também naturais) reagem assim diante de coisas que, para outras, são absolutamente irrelevantes –, e então é quando um objeto adquire um valor subjetivo de repulsa para tal ou qual indivíduo.

Além disso, contrariando-nos positivamente ou não, o amor verdadeiro sempre exige que nós mesmos nos anteponhamos às suas necessidades e busquemos aliviá-las, contrariando-nos a nós mesmos deliberadamente, sem reclamar nem demonstrar que estamos incomodados com nossa renúncia ou com aquela nossa ação que visa ao bem da pessoa amada.

Sendo o amor verdadeiro algo árduo e que parte de nós mesmos na direção da pessoa amada, é necessário perder a ilusão pueril de que é a beleza ou aquilo que a pessoa tem e que nos atrai que deve sobretudo mover nosso amor, porque o único amor excitado em tais casos seria o eros, pelo menos quando se tem em vista apenas as sensações causadas pelo objeto agradável que nos atrai. Porque, quando nosso amor se direciona ao outro apesar do outro, é possível amar profundamente; contudo, quando se direciona por causa do que o outro nos provoca, vendo-o somente à luz de seus dotes naturais, é um amor tão fugaz e frágil quanto o são esses mesmos dotes: passarão, enquanto o verdadeiro amor tem sabor de eternidade.

Quando se fecha em si mesmo, aquele amor erótico se torna mera ocasião de autossatisfação, quando não se busca desvincular-se, primeiro, da pura carnalidade e elevar-se ao amor genuíno e integral próprio do ser humano, sem, é claro, apartá-lo completamente daquele primeiro amor, que é mais rude, mas deve estar submisso a este segundo, não o contrário. E, quando falo de carnalidade, não me refiro apenas aos pecados sexuais propriamente ditos, pois que se pode muito bem adequar o amor eros a uma moralidade sadia; por exemplo, quando, sem pecar contra a castidade, um casal se compraz com a presença um do outro.

Por isso, a primeira coisa que os rapazes desanimados e excessivamente preocupados com conseguir uma boa namorada católica devem fazer é aprender a amar verdadeiramente o próximo, todo próximo, desagradável ou não, renunciando a si mesmo e buscando, na prática, seu bem; doando-se e esquecendo-se de si mesmo e do que sente ou deixa de sentir. É preciso agir objetivamente, não se deixar levar apenas pelos afetos e moderar toda pressa e angústia que possam nascer de sua busca. Aprendendo a amar, passarão a permitir à vontade deixar de mover-se em prol de coisas prazerosas (e lícitas), para assim fortalecê-la e diminuir o influxo de sua afetividade desordenada. Assim abrirão caminho à prática das virtudes e a aquisição destas, tornando-se homens maduros e capazes de comprometer-se em um relacionamento digno e verdadeiramente santo.

Depois, e o mais importante, todos devem entender que nossa vocação primária e fundamental não é o Sacerdócio, nem a vida religiosa consagrada, nem o Matrimônio. Uma mulher não pode ser a razão de nossa vida, nem devemos colocar em suas mãos a chave de nossa santificação. A verdadeira razão de nossa vida, da qual deriva nossa vocação fundamental e universal, que compartilhamos uns com os outros, sem exceção, é a união com Nosso Senhor Jesus Cristo, união a que, em estados mais elevados, se dá o nome de santidade.

O Concílio Vaticano II ensina-nos claramente que todos os homens são chamados à santidade, que esta não é uma vocação exclusiva para poucos, senão que para todos os indivíduos humanos em todas as épocas. E as vocações sacerdotal, matrimonial e religiosa são modos, modalidades de viver esta vocação fundamental e primária da santidade. A razão por que nascemos, o motivo de nossa atual existência no mundo é, sem dúvida, a glória de Deus. E nós O glorificamos quando nos unimos a Ele pelo amor – não um amor carnal, um amor baixo, senão amor de caridade sobrenatural, infusa em nós pelo Batismo. Se não buscarmos, primeiramente, esta união com Deus, tudo o mais será vão e inútil, visto que não se sacrifica a hierarquia da realidade sem que nossa própria realidade interior seja ofendida, sufocada – ela clama por felicidade, e esta só é possível em Cristo, com Cristo e por Cristo.

Não será pequena a frustração de quem, ao casar-se, queira encontrar em seu Matrimônio uma realização completa de sua existência. Eva foi criada a partir de uma costela de Adão, o que indica uma certa dependência mútua que o homem tem da mulher e a mulher, do homem. Mas Eva não foi criada para Adão como Adão foi criado para Deus, nem Adão se uniu a Eva como era chamado a unir-se a Deus. Ambos eram chamados a uma união íntima, matrimonial e profunda que tivesse por fim e razão suprema Deus. E, se assim era já no início da humanidade, continuará sendo assim até o fim dos tempos. E digo o será até o fim dos tempos porque, de fato, no Paraíso não seremos casados. Nele, celebraremos eternas bodas com o Cordeiro imolado, com a razão de ser de nossa vida. A união matrimonial indica essa união celestial eterna palidamente, mas não se identifica com ela.

De que adianta antepor nossos anseios a Cristo, quando devemos antepor Cristo a tudo, fazer dEle aquilo que Ele é – razão de ser de nossa existência – e, assim, confiar a Ele todas as nossas preocupações, angústias e anseios, sabendo que, buscando primeiro o Reino dos Céus, tudo o mais nos será dado por acréscimo? Todo relacionamento que não seja assim ordenado está fincado em bases pouco sólidas; um Matrimônio que não tenha a Cristo por fundamento absoluto e Senhor supremo parecerá reduzir-se ao caráter mutável das coisas humanas: uma grande expectativa no começo, a qual, depois, se tornou fonte de frustração e amargura.

A inteligência, quando iluminada pela fé, percebe logo o engano que é conduzir a vida segundo uma hierarquia de valores tão desordenada, tão baseada em simples desejos e paixões. E percebe também que o pensamento mundano está intimamente ligado com tudo isso, pois os mundanos são aqueles que não vivem segundo a verdade, mas segundo seus vícios e caprichos. Ora, não seria um pensamento mundano crer que em casar-se está a felicidade? Para muitos, casar-se torna-se mais uma autorrealização agradável do que um caminho para o fim último de nossas vidas. E buscar a felicidade fora de Deus é uma das raízes do mundo.

Por fim, se não se toma uma atitude firme diante das dificuldades da vida, quer relacionadas às relações afetivas, quer às banalidades cotidianas, sem desanimar facilmente, não adianta: se sequer será possível entregar-se à vocação Matrimonial com tal frouxidão de coração, tampouco o será pôr uma âncora firme no Paraíso, termo para o qual devemos caminhar. Se não combatemos o desânimo, primeiro – e até o fim da vida – renunciando a nós mesmos para seguir a Cristo, tampouco poderemos firmar-nos na vocação que Ele quiser para nós, seja matrimonial, seja sacerdotal. Pois o desânimo é um empecilho interior para a consecução do fim, e, quando se perde na modalidade de alcançar o fim, por receio e fraqueza, sendo que tanto a modalidade como o fim exigem sacrifícios, sobretudo o fim, o resultado será uma paralisia completa, uma indecisão e um atrofiamento brutal na senda da salvação.

Pois fomos criados para a felicidade, e estará inquieto nosso coração até descansar em Deus.

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