Otimismo, pessimismo e realidade

Há pessoas que possuem uma compleição tal que, no momento em que suas disposições interiores, à vista de tais ou quais acontecimentos, afloram, acabam por fazer um movimento ascensional violento em direção às faculdades superiores – a inteligência e a vontade – no sentido de obrigá-las a atender às suas solicitações próprias, à revelia de qualquer coerência com a realidade dos fatos, isto é, sem qualquer senso de proporção. Em outras palavras, as paixões despertas pela relação entre as disposições interiores latentes e habituais de um indivíduo e o fato exterior que serve de ocasião ao despertar reacional destas disposições sob forma de paixão – ato próprio do apetite sensitivo – podem influir consideravelmente na interpretação dos fatos, subtraindo-se à submissão que, pela natureza mesma das coisas, deviam prestar às faculdades espirituais do homem, a inteligência e vontade.

Como as paixões repercutem no ser inteiro da pessoa, e a imaginação é de natureza sensível, naturalmente não é pequeno o impacto que nela causam as paixões, sobretudo quando são desordenadas. Aquilo que se imagina desperta paixões, e estas costumam influir no que se imagina; há uma espécie de oscilação entre as imagens suscitadas pela imaginação e as paixões suscitadas por estas imagens, assim como as imagens são influenciadas pelas paixões. Intimamente está ligado o apetite sensitivo no homem – mais precisamente, pode-se dizer que tudo no homem está intimamente ligado, pois este não é menos que um composto de alma e corpo, uma natureza completa com estes dois princípios fundamentais, razão por que não faz sentido dissociar um do outro: atribuindo a cada um seu devido valor e função, deve-se simplesmente admitir sempre a ambos a unidade característica dos viventes, quer inferiores, quer superiores.

Por isso, nos casos em que as paixões tomam a dianteira dos pensamentos e das ações dos indivíduos – Aristóteles dizia que nada há na inteligência que não tenha passado, primeiro, pelos sentidos; valendo-me deste pensamento, digo que não há ação exterior que não tenha nascido duma ação interior, dum ímpeto de eleição racional no coração do homem –, estes permaneçam com suas faculdades propriamente humanas intactas, mas de tal forma desordenadas em suas funções próprias que passam a adquirir, na medida em que se cede a elas, um domínio tal sobre o indivíduo viciado que este acaba por tornar-se escravo delas, o que pode ser bem chamado de animalização, bestialização do homem.

Contudo, é verdade que grande parte das disposições interiores que possui o ser humano não dependem dele, ou pelo menos não são determinadas por ele. Naturalmente, todo homem nasce com um conjunto de disposições inatas, um conjunto específico herdado especialmente dos pais, que acentua certos movimentos interiores, enquanto por assim dizer sufoca ou reprime outros. Permanece, no entanto, em todo homem o apetite afetivo-sensitivo tal qual é com seus atos próprios – os movimentos do concupiscível e do irascível –, mas estes atos têm uma força maior ou menor em indivíduos diversos precisamente pelo fato de haver compleições, disposições interiores naturais reunidas em conjunto diversas das de outros indivíduos. Assim, é provável que o filho de um casal extremamente colérico – neste exemplo, um casal colérico profunda e naturalmente inclinado a ímpetos exagerados de cólera desde a infância – nasça com uma tendência maior ao exercício dos atos do apetite irascível na busca por bens árduos, à diferença do filho hipotético de um casal de fleumáticos por exemplo, que provavelmente herdará traços muito evidentes de seus pais naquilo que diz respeito à velocidade e intensidade das paixões. Nos dois casos, o colérico e o fleumático terão, em razão de sua natureza humana, os apetites concupiscível e irascível; contudo, no fleumático os movimentos deste serão menos intensos e freqüentes ou menos rápidos se comparados aos do colérico.

Mas homem nenhum limita-se – pelo menos não essencialmente, porque os viciados parecem exercer atos cada vez menos humanos, mais irracionais – aos movimentos de seu apetite sensitivo; então, independentemente da compleição e da inclinação que se tem a agir de tal ou qual modo, não é correto afirmar que somos determinados ou impelidos a agir necessariamente da maneira como nos solicitam as paixões.

O homem possui inteligência e vontade, faculdades espirituais elevadas, por assim dizer mais débeis que as dos anjos, porém muitíssimo superiores às faculdades sensitivas. Exercer os atos próprios da inteligência e da vontade em conformidade com a realidade do ser dignifica o ser humano, aproxima-o daquilo que ele é realmente, da ordem natural das coisas. Este exercício supõe a apreensão do ser enquanto ser, das coisas tal qual são, não de sua aparência ou do simples impacto que exercem sobre os afetos do homem. Em dois homens, a mesma verdade pode apresentar-se tal qual é; ambos podem apreendê-la, até mesmo aderir-lhe com a vontade, amá-la; porém, na ordem afetivo-sensitiva pode suceder de as paixões despertas em tais homens serem diversas e, por isso, impelirem-nos a ações diferentes. E, ao antepor-se a qualquer ímpeto passional, a inteligência pode – eis a ordem natural das coisas – indicar-lhes o que se deve fazer, e então, à revelia da solicitação dos afetos – que podem ou não coincidir positivamente com o que deve ser feito, ou seja, no sentido de inclinar o indivíduo a tal ação –, tais homens poderiam agir em conformidade com a ordem moral, cujo conhecimento supõe, evidentemente, o exercício reto da inteligência, sua apreensão, pois os afetos são cegos.

Podemos então, a partir do que foi dito acima, perceber quão lastimáveis são as considerações intelectuais excessivamente influenciadas pelas paixões, sobretudo se estas considerações dizem respeito ao conjunto da vida humana, à realidade, aos assuntos mais caros para o homem.

Nós homens vivemos em um mar de lágrimas, em um mundo onde o mal parece reinar, a virtude, sucumbir, a verdade, ser sufocada, o erro e a mentira, ser aplaudidos e louvados. Facilmente alguém pode ser levado pela tristeza, pois esta é um movimento passional nascido da percepção da ausência de um bem, ou melhor, da perda de um bem: quando um parente querido falece, há uma perda, e não uma perda indiferente, mas a perda de uma pessoa amada; como só se ama o que se tem por bem, diz-se que a tristeza é a paixão desperta pela perda e da conseqüente ausência de um objeto amado. Em meio de tantos males, digo, da presença inevitável e inegável de tantos males, a tristeza parece, pois, ser igualmente inevitável.

Normalmente, chama-se pessimista ao indivíduo que habitualmente interpreta os fatos de sua vida e mesmo o conjunto da realidade sob uma ótica negativa, ou seja, a partir de uma perspectiva que parece reduzir as coisas àquilo que possuem de imperfeito, de mau, de incoerente, de nocivo ao homem e à própria natureza. Como o ser humano, como já foi dito acima, não se reduz às disposições interiores naturais, não se pode afirmar que apenas há essa tendência espontânea ao pessimismo em indivíduos melancólicos ou fleumáticos por exemplo, senão que ela se verifica – tanto ela como seus derivados – naqueles que se sujeitam às paixões a ponto de deixarem suas ideias se imbuírem da interpretação reacional causada por estes movimentos anímicos inferiores, ou melhor, de considerações imaginativas. Igualmente, é incoerente aquele que, diante de uma verdadeira desgraça, interpreta o fato segundo um ímpeto incompreensível de euforia, como se a realidade fosse amputada e considerada apenas em um de seus aspectos.

Então vemos como se tocam os extremos, gerando não poucos transtornos e erros. Pois, por um lado, uma interpretação demasiado positiva de uma desgraça implica (pois a atividade exterior deliberada nasce da deliberação interior da alma) uma ação com relação a ela despropositada ou imprudente, que pouco poderia auxiliar na resolução ou, pelo menos, na diminuição do problema verificado na realidade. Se alguém sofre, por exemplo, com depressão profunda, pode suceder de um indivíduo leviano e insensato muito dado à euforia e a soltar as rédeas do apetite concupiscível ignorar a situação verdadeira, concreta do depressivo naquilo que se subtrai à mera aparência e atinge o coração de sua condição de sofredor, de forma a crer que tudo não passa de uma fixação deliberada num pensamento ou numa compreensão errônea da realidade, quando o próprio insensato tem que estar perdido e enganado numa visão reducionista e passional do mundo para chegar a uma conclusão tão irracional. Seus ímpetos de alegria impelem-no à precipitação e a ações irrefletidas; como ele está alegre, parece que a realidade mesma dos fatos sempre é absolutamente favorável, a despeito de qualquer condição interior do homem que estas impactam.

Por outro lado, tanto o pessimista como o otimista têm alguma razão: no mundo, existem motivos suficientes para sofrer e alegrar-se. Não é possível desvincular o sofrimento da condição humana, da condição do homem decaído, que vive seus dias aumentando, com seu suor e seu sofrimento, o nível deste vale de lágrimas. O sofrimento existe e é inegável; todos sofremos, e este é um dado incontestável e universal da realidade. Ao mesmo tempo, existem reais e profundas alegrias na vida humana, das quais o homem pode haurir a satisfação, pelo menos momentânea, de algumas das solicitações íntimas e profundas de seu coração, pela qual pode repousar por instantes sem ser arrebatado pela dor e angústia de sua vida, fadada ao término, ao aparente esvaziamento, ao túmulo.

A morte aparece então, desde tempos antiquíssimos, como o cume e o término do sofrimento, sendo para muitos um fim nada consolador, senão causador de maiores sofrimentos, porque o homem é capaz de visualizar sofrimentos futuros e antecipar sua dor para o presente, apenas à vista de uma possibilidade ou de uma realidade futura, tal é a recusa espontânea que há nele diante do sofrimento. Trata-se de uma experiência universal, à qual ninguém pode fugir; é um momento em que coincidem a dor e o termo da dor, o sofrimento e o termo do sofrimento, a possível consolação pelo término e a aparentemente inevitável agonia em face do que supõe o termo.

Mas o que supõe o termo da vida humana? O fim de tudo, ou o repouso no fim? No fim da vida, repousa-se de seus trabalhos próprios; mas também se repousa no fim de outra vida, na verdade aquela que, desde a concepção de cada um de nós, já estava destinada a perdurar pelos séculos intermináveis da eternidade. Sob essa perspectiva, sub specie aeternitatis, tudo se torna maravilhoso e suave, pois na morte se dá não só o fim da vida humana em seu aspecto biológico, mas o início do repouso no fim da vida integral do homem, que é contemplar a Deus. Por esse fim é que vivemos, e respiramos, e choramos, e tememos que chegue o fim da vida; porque pode ocorrer de pensarmos que o fim da vida se opõe ao nosso fim, isto é, ao fim para o qual fomos criados, quando, na verdade, conseqüência do Pecado Original, não é mais que a senda por que Nosso Senhor passou e pela qual Ele quer que todos passemos para, com Ele e nEle, alcançarmos o fim de nossa existência, cuja consecução perfeita e plena só nos é possível por Seu Sacrifício redentor na Cruz.

A Cruz de Jesus é redentora e suaviza todos os nossos sofrimentos presentes, que, por sua vez, tornados suaves e meritórios pelo Sangue de Cristo derramado na Cruz, conferem um sentido inquebrantável a nossa vida. Sob o olhar da Providência, nada, absolutamente nada do que nos possa acontecer poderá deter-nos em sua maldade. Porque, assim como o Espírito Santo, que habita o coração dos que estão em estado de graça, purifica, qual fogo devorador, nossas impurezas interiores, não deixarão de ser iluminados os fatos adversos para que os vejamos tal qual são: oportunidades excelentes de amar mais a Deus e crescer em santidade, na medida em que o sofrimento se torna verdadeiramente assimilável e purificador, como se os fatos entrassem em nossos corações e se transfigurassem diante da fornalha ardente de amor do Espírito de Deus, tornando-se alimento para nossas almas e remédio contra nosso egoísmo.

E o que há de mais real que tudo isso, que o impacto que a realidade sofre diante do amor de nossos corações? Nem pessimismo, nem otimismo: a verdade, eis a meta; e a verdade anda de mãos dadas com o amor. Diante do verdadeiro, amemos, não nos prostremos pelos flagelos da vida, que tão bem podem fazer-nos ao assemelhar-nos a Cristo.

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