I
No caso de os animais seguirem os seus instintos, a tendência é que eles caminhem em direção normal à autopreservação e à autoconservação de sua espécie espécie, além, evidentemente da sua própria sobrevivência individual. No entanto, se os homens seguem os seus instintos, tendem a morrer ou a debilitar-se, porque não encontrarão alegria, nem paz, nem tranqüilidade; ademais, a própria manutenção da vida supõe o uso da inteligência, que deve ordenar as paixões em prol de um fim específico. Diz o Padre Narciso Irala:
“A tarefa do homem é sempre aperfeiçoar-se, educar-se, completar-se e superar-se a si mesmo. […]
Esta constante luta está no psiquismo inferior, constituído dos movimentos sensitivos, e no psiquismo superior, capaz de apreender bens imperecíveis.
Toda vivência ou ato psíquico contribui para formar ou deformar o caráter. Ela fica associada àquelas que a precederam e, embora inconsciente ou esquecida, continua influenciando o eu consciente, facilitando os atos afins e dificultando os contrários. Portanto, as virtudes praticadas na infância ou em qualquer época formarão uma síntese psíquica mais apta para o bem. Pela mesma razão, uma transgressão ou concessão aos instintos exaltados, embora somente por uma vez, na loucura da juventude e com o propósito de voltar logo ao bom caminho, deixará para sempre em nosso psiquismo maior inclinação ao mal e menos facilidade para o bem.
Não é, pois, de pouca importância uma falta ou pecado passageiro, ainda que não houvesse sanção posterior; nem um ato de virtude oculto, ainda quando nenhuma recompensa lhe fosse reservada.”.
Tudo o que nos acontece tem uma repercussão imediata a longo ou curto prazo em nós e nos outros; esta repercussão não é, porém, fácil de ser percebida, pois para isso seria necessário que se ampliasse nosso horizonte de consciência a fim de tornar-se-nos possível um vislumbre do arco imenso de influência que, no futuro, tem um simples ato cometido no presente. Diante das inúmeras possibilidades futuras de acontecimentos, um só ato presente aparentemente insignificante tem uma repercussão insondável no porvir, em vista das infinitas relações possíveis que há entre as atualizações presentes, já consumadas, e a virtualidade e contingência do futuro.
Assim, sabemos que há atos presentes cuja repercussão imediata é notável para nós, facilmente perceptível, mas que não parecem proporcionar ao futuro, em termos históricos, em termos de causa e conseqüência graves, grandes mudanças, embora, ainda assim, possuam uma influência considerável. Ou seja, há ações presentes que, resultando sérias conseqüências imediatas por exemplo, ou não, parecem esvair-se em pouco tempo, parecem ser como que esquecidas e afogadas no lago de nossas memórias; enquanto outras ações, contudo, embora sem repercussões imediatas visíveis, acabam se tornando o delineamento, a costura quase imperceptível de uma série de acontecimentos que, em face do futuro, produzirá um enorme impacto histórico.
Isto facilmente nos passa despercebido porque tendemos a considerar verdadeiro apenas aquilo que, no instante atual, se nos apresenta como realidade consumada, visível, facilmente compreensível, ou de que estamos em posse, quer pela memória, quer de outro modo, que aliás não suprimirá a memória. Evidentemente, a realidade não se reduz ao que conhecemos, e o que desconhecemos continua fazendo parte do tecido da realidade, do qual só conseguimos enxergar alguns pequenos detalhes, um ou outro traço de seu delineamento. O impacto do desconhecido no conhecido muitas vezes faz com que busquemos compreender o que não conhecemos à luz do que conhecemos, ou melhor, preenchendo o desconhecido com o que conhecemos, ou ignorando-o simplesmente sob um ímpeto soberbo de recusa a admitirmos que não sabemos por que as coisas são deste ou daquele jeito.
Por isso, e nós o fazemos inconscientemente na maior parte das vezes, temos que admitir que nos é impossível perscrutar a força de nossas ações passadas no que tange à nossa situação presente por exemplo; a realidade passada, não tendo sido apreendida por nós em sua plenitude, como tampouco o é no presente, carrega em si com relação a nós o selo da obscuridade. Aquelas ações antigas são como pedras de diversos tamanhos que caem num rio: a depender de seu peso e tamanho, causam uma maior ou menor perturbação na água, uma espécie de movimento concêntrico ao inverso; e, na medida em que se distanciam os círculos do centro onde incidiu tal ou qual pedra, eles se vão tornando maiores ao mesmo tempo em que vão perdendo força. Enfim, eles não existiriam senão em razão daquele primeiro impulso inicial, quer perdurem, quer cessem para sempre.
E, como eu dizia acima, há aquelas ações que têm notáveis conseqüências atuais e previsíveis conseqüências futuras desastrosas, seja por serem elas o gérmen de um desastre futuro, seja por já serem um desastre atual que tende a intensificar-se. Neste caso, nós sentimos em nossa pele o impacto do que se fez ou do que fazemos, ou do que temos que fazer. É mais sensível, não supõe tanto uma mente capaz de discernir alguns entrelaçamentos do real como uma mente capaz de emaranhar-se com eles e sentir-lhes o peso.
Partindo do que foi dito acima, concluo que há como uma espécie de lei nos acontecimentos de qualquer ordem: sempre haverá conseqüências, que por sua vez nunca afetam só a causa ou o círculo imediato da causa, senão que todo o seu entorno, numa intensidade às vezes cada vez maior, embora não raro imperceptível, e isto em níveis que, com certo tempo, chegam a uma escala global irremediável. O coronavírus é exemplo claro disso.
Pois bem, como se encontra no início do presente artigo, nossas ações individuais de virtude ou vício deixam em nós uma marca profunda. Tentemos então aplicar as considerações acima (de possibilidades futuras em face de atos presentes) ao nosso psiquismo ou, em última instância, ao nosso eu.
Com o avanço das neurociências, o cérebro humano, tão complexo e aparentemente insondável, passou a ser conhecido de uma maneira mais profunda e detalhada, de forma que hoje temos uma ideia mais adequada de alguns de seus mecanismos internos.
Sabe-se que no cérebro existe um conjunto de dezenas de milhões de células chamadas neurônios, que têm uma conexão entre si; esta conexão e relação mútua, conjunta, formam as chamadas sinapses, que são como que pontes elétricas que ligam as células cerebrais umas às outras.
Nosso cérebro não possui uma estrutura fixa e incapaz de alterar-se. Ela é dinâmica, possui uma arquitetura passível a mudanças ao longo do tempo, de forma que, na medida em que vivemos, ele (o cérebro) vai adquirindo uma forma que esteja de acordo com as nossas ações e com aquilo que está ao nosso redor. É como se a forma de nosso cérebro estivesse sendo continuamente moldada por nossos desejos, concessões e vivências, quer deliberadas, quer indeliberadas.
Na medida em que cedemos a tais ou quais paixões desordenadas, adquirimos portanto uma conformidade cerebral maior a estas mesmas paixões, de maneira que nos apegamos com mais força a elas, criamos vínculos internos “pessoais” com seus movimentos, movemos nossa vontade espiritual a aceitar-lhes com mais facilidade, adquirimos maior familiaridade com tudo o quanto se lhes refira e, conseqüentemente, acabamos cedendo a suas solicitações mais facilmente. Somos barcos incompletos que precisam fazer consertos em si mesmos – e não só o trabalho negativo de consertar para fazer com que torne à ordem mínima o que está por demais degradado, senão que o trabalho positivo de aperfeiçoar-se – durante todo o percurso necessário para chegar ao porto.
Mas, evidentemente, o ser humano não se reduz ao seu cérebro. Aquele conjunto de possibilidades influenciadas pelas ações atuais também se aplica à inteligência e à vontade, faculdades espirituais, ontologicamente superiores às faculdades sensitivas. (Aliás, um exercício correto e pleno daquelas supõe um bom funcionamento do cérebro, sede destas.) Sim; a simples concessão a um pecado debilita a vontade espiritual, que, embora, in actu, possa ter por bem a virtude e a realização da Vontade de Deus, vai ficando cada vez mais enfraquecida em decorrência dessas concessões ilícitas, por menores que sejam. E por que as coisas são assim?
Não podemos esquecer-nos de que o homem é um ser composto de corpo e alma e que, portanto, a saúde do corpo e seu bom funcionamento influem nas ações anímicas de ordem espiritual e vice-versa. Se o corpo está com uma tendência desregrada para o pecado, uma tendência específica a um pecado específico (o que se chama vício), a alma se debilita, a vontade exerce menos sua finalidade de mover-se para o bem ordenado, a inteligência fica obscurecida.
Ainda nestas situações, porém, saibamos que podemos contar com o auxílio da Graça divina, que aliás é o que nos permite fazer verdadeiramente o bem e evitar o mal. No caso de não se ser dócil à moção do Espírito Santo pela Graça, ou seja, se não se faz o que deve ser feito a fim de que a esta adentre cada vez mais intimamente o coração, não se encontrarão forças puramente naturais – à maneira de um pelagianismo – para resistir ao pecado, visto que só com a Graça é que podemos vencer a tentação.
Pois bem, a simples indocilidade à moção do Espírito já é um grande problema: como podemos contar com este recurso e dom divinos da graça suficiente quando lhes recusamos os meios de ação? Isto é, não faz o menor sentido expormo-nos imprudentemente a situações em que ordinariamente caímos em pecado, ou seja, a situações que nos são ocasião de pecado, supondo que, por termos sempre a Graça suficiente, isto nos basta para não cedermos a toda e qualquer tentação. Recusar-se a evitar tais ocasiões perigosas sob o pretexto de que a Graça suficiente está à nossa disposição é tentar a Deus; fazê-lo já se trata de um pecado, uma indocilidade grave ao Espírito Santo. Evidentemente, na maior parte dos casos, o coração que age deste modo imprudente cairá em pecado, e a culpa recairá, naturalmente, sobre ele mesmo.
Dadas as considerações acima, não é difícil compreender o que o falecido Padre Narciso Irala quis dizer com os fragmentos citados no início do presente artigo. De fato, não é difícil constatar que pecado deixa em nós uma marca real e verdadeira, sejamos ou não conscientes dela.
Por isso, devemos ter consciência de que no futuro, em face das diversas possibilidades de ações que podemos enfrentar, cada ação presente dificultar-nos-á a luta contra a tentação do porvir, assim como, para um atleta profissional a preparar-se para uma grande olimpíada, desviar-se seriamente, por alguns dias, da dieta que lhe disporá o corpo para um bom exercício de seu esporte na olimpíada implicaria algo a menos em sua capacidade, uma espécie de vazio a ser preenchido.
Devemos lembrar, nos momentos de dificuldade, as nossas indocilidades à Graça no passado, a fim de mantermo-nos firmes e cada vez mais dóceis às Graças presentes, pois que, devemos admitir, boa parte de nossos problemas interiores atuais é culpa nossa. Não nos preparamos para a vida, para as adversidades futuras.
Isso não significa que devamos preocupar-nos com o porvir e o arco imenso de possibilidades que nos aguarda, mas que devemos ter, em nossas ações presentes, a consciência de que não apenas devemos amar e servir a Deus aqui e agora, senão que o que fazemos aqui e agora não deixará, por sua presença atual, de impactar o próximo aqui e agora e assim por diante.
Em outras palavras, trata-se de ser um barco que, já estando no mar, não pode deixar de dirigir-se para o porto, pois, quanto mais adie o percurso a ser feito, mais se arriscará a tempestades e vicissitudes não previstas; por isso, esse barco deverá, ao mesmo tempo em que se constrói a si mesmo, como vimos acima, fazê-lo enquanto navega. Dirigir-se ao porto é o percurso de nossa vida; a chegada é a morte. Por mais que não se o mova voluntariamente em direção ao porto, o vento e as águas tempestuosas o farão inevitavelmente – é quando vivemos por viver, sem rumo; ainda nesses casos, chegaremos no momento da morte. Dirigir-se ao porto com intenção e construindo-se a si mesmo é viver à luz da consciência de seu fim último e uma vida baseada nas virtudes e na Graça.
Por fim, entendemos agora de que se trata: ajo bem aqui e agora sabendo que posso ter ainda muitos outros instantes decisivos no futuro, mas sem preocupar-me diretamente com eles senão na medida em que, fazendo o que devo aqui e agora porque este é o único instante atual e existente verdadeiramente para nós, reconheço que esta ação presente é parte da construção desse barco incompleto que sou e que o faço visando a um fim, a uma aquisição, etc. etc..
Em conclusão, tudo o que acontece com nosso barquinho existencial influenciará seu trajeto até o porto. Todas as concessões que damos a solicitações desordenadas do instante presente dificultar-nos-ão a prática futura de virtudes, etc..
(Para finalizar esta parte, não posso deixar de dizer que convém não se fixar nas ações passadas a não ser para arrepender-se delas e não voltar a cometê-las. Há que evitar, além disso, toda cogitação de eventos futuros nos quais possamos não ter forças; isto certamente levaria à perturbação de nossa consciência, a escrúpulos, etc.. Não se trata do objetivo do presente texto; não pretendo dar um conjunto de normas práticas, mas fazer considerações de ordem mais teórica).
II
Existem no homem disposições naturais cujas moções são refreadas pelo ato deliberado da vontade. A inibição do ato a que nos move essas disposições naturais pode ou não ser legítima, visto que há disposições naturais exteriormente virtuosas, às quais é necessário apenas acrescer uma intenção justa e, se for o caso, devida e prudente moderação, um ajuste à situação concreta. Se se inibir, neste sentido, uma inclinação operativa boa em certa circunstância na qual ela coincide com o dever atual de quem age, o ato deliberado da vontade é negativo: em vez de aproveitar a facilidade que o corpo lhe apresentava à consecução de uma boa ação em termos objetivos, optou por reprimi-la quiçá por um juízo de valor derivado de uma disposição latente naquele momento. Assim, estando-se diante de uma circunstância na qual uma ação realizada sob o impulso da razão e fortemente auxiliada pela disposição natural suscitada naquele momento, considerou-se melhor omiti-la e dar espaço a outra paixão, desta vez desordenada, que, pela recordação momentânea, pode ter sido suscitada e, a despeito de sua equivalência com a anterior, vista como a melhor opção em prol do bem geral do agente. Em suma, algo aparentemente mais espiritual do que carnal, embora nesse caso ambos os aspectos pareçam tocar-se.
Por outro lado, existem no homem, também, disposições naturais cujas moções, se não refreadas pelo ato deliberado da vontade espiritual, levá-lo-ão a cometer ações imorais, injustas, mais positivas por assim dizer. Em cada indivíduo particular existe uma incidência maior ou menor dessas disposições que, universalmente, existem potencialmente em todo ser humano. Por exemplo, não há homem que não tenha certa inclinação à vaidade, embora, em alguns, esta seja muito menos acentuada e consideravelmente mais passível de moderação; em outras palavras, há homens que, embora possam tornar-se vaidosos ou realizar atos cuja causa seja a vaidade, têm tão pouca predisposição natural a isto que facilmente vencem a tendência vaidosa com a virtude que lhe é contrária.
De maneira semelhante, como o homem possui os apetites concupiscível e irascível, é natural que os movimentos próprios destes (paixões) possam informar suas ações em tais ou quais casos, ou até mesmo ser o motor principal delas. Por conseguinte, não há homem que não seja capaz de encolerizar-se, visto que é da natureza humana ter apetite irascível. Esta ira, contudo, não necessariamente será um ato consentido ou imoderado. Sem o apetite irascível, o ser humano não seria capaz de atingir sua perfeição. E por quê?
Santo Tomás de Aquino ensina que as virtudes têm por objetos bens árduos. Na vida humana, este é um fato particularmente fácil de notar: grandes bens costumam supor grandes esforços da parte de quem os deseja possuir. Se se trata de bens materiais, exteriores, o esforço maior que há de ser feito para adquiri-los é interior, pois os meios necessários a que se chegue à obtenção dos bens materiais costumam ser constituídos de obstáculos exteriores e interiores. Assim, a paciência, a perseverança, a constância, a humildade, a prudência, todas essas virtudes são necessárias a que alguém consiga bens materiais, pois os meios para adquiri-los supõem uma ação contínua, ordenada e que muitas vezes contrariam o bem-estar de quem os queira empreender. Como haveria, então, alguém de adquirir bens árduos sem uma capacidade de passar pelos obstáculos que estão supostos na possibilidade de sua obtenção? Eis, então, que é necessário e imprescindível o bom uso do apetite irascível.
O problema que se nos impõe com a conclusão acima é que somos seres faltosos, conflitantes, débeis e de natureza aparentemente constantemente perturbada e inquieta – barquinhos incompletos em alto-mar. Se há obstáculos exteriores para a aquisição dos bens materiais que desejamos por um apetite interior por exemplo, há também obstáculos interiores relativos à obtenção e formação das virtudes que nos são necessárias para suportarmos o conflito interior derivado da relação entre o sujeito que deseja (eu e você) e os objetos desejados, que em sua maioria supõem esforço. Além disso, vale notar que não há equivalência na virtude apenas materialmente considerada, isto é, vista em sua aparência puramente exterior, e a virtude moral reta sob a égide da prudência. Não é paciente o homem que, suportando exteriormente seus males para atingir um fim ilícito, reclama interiormente por dentro e amaldiçoa quem (ou o quê) é a causa daquele sofrimento.
No mundo interior de cada um, portanto, percebe-se facilmente uma batalha incessante e sangrenta; o fato de poder-se exteriorizá-la já supõe sua existência latente ou atual no coração humano. E esse caráter bélico revela muita coisa sobre nós: não constatamos que nossas paixões costumam, desde nossa tenra infância, mostrar-se conflitantes entre si? Ademais, não apenas o corpo luta consigo mesmo, senão que há também uma visível discordância constante entre as faculdades superiores e as faculdades inferiores do ser humano, visto que a alma apreende bens que, para o corpo, freqüentemente parecem não apetecíveis ou males relativos, por assim dizer. (Pode-se dizer que o corpo valora, sensivelmente, de modo distinto da valoração intelectiva da inteligência, faculdade espiritual). E o problema torna-se ainda mais grave quando há conflitos profundos entre o corpo, a alma e o espírito, isto é, quando passa a entrar em consideração o âmbito da fé. Então, se já éramos seres desordenados interiormente, incapazes de realizar o bem por nós mesmos e de tornar-nos virtuosos na medida em que a só luz natural da razão no-lo permite, este conflito torna-se mais intenso quando nos apercebemos da nossa vocação universal e sobrenatural, a Santidade.
(Diante dos obstáculos e das marcas sangrentas interiores causadas pela prática de vícios, a prática das virtudes passa a ser-nos mais difícil, e as virtudes auxiliam-nos a chegarmos ao nosso fim. Realizar-se supõe chegar ao fim que é próprio do ser que se realiza; e uma realização é uma continuidade de atualizações conformes – ordenadas – ao fim do ente que se está atualizando para atingir sua perfeição. Não se realizar, nesse sentido, implica tanto uma frustração interior de quem não se realiza quanto em conseqüências futuras que lhe são externas.
Pois bem, o fim do homem sobrenatural, que abarca o natural, é amar e glorificar a Deus nesta vida para, no Paraíso, salvo, conhecê-lo face a face e glorificá-lo de um modo sumamente especial e profundo, já sem nenhum obstáculo ou impedimento ao amor de caridade, que nos une a Deus e nos torna semelhantes a Ele.
Donde se vê o impacto de um “simples” ato vicioso cometido no presente: querendo ou não, a ordem estabelecida pelo Logos divino – o Verbo eterno – é desobedecida, é infringida; trata-se de um atentado à Majestade infinita de Deus.
Por isso, aliás, diz-se, com muita razão, que qualquer pecado venial é um mal muito maior que todos os males terrenos que se possam imaginar; e, explicando-se-o de um modo prático, diz-se: “Antes a morte, antes milhões de mortes, antes todos os males físicos do que cometer um só pecado venial”).
A Santidade não está inclusa na natureza humana, e, se a simples aquisição das virtudes já é uma tarefa por demais árdua para o homem, quão não o será a atingir essa vocação sobrenatural! É verdade que as virtudes humanas podem, aliás, ser adquiridas por qualquer um de nós, mas ser humano nenhum pode adquirir a Santidade. Esta é um dom gratuito que Deus concede àqueles que lhe são fieis e dóceis a Suas moções.
Ora, se tornar-se virtuoso supõe, como se vê, uma transformação interior e não uma mera obtenção externa de poderes passíveis de controle por assim dizer – ou seja, capacidades psicológicas análogas à forma como possuímos bens materiais. Por outro lado, tornar-se Santo supõe, primeiramente, ser um ser humano completo naquilo que é imprescindível à ação da Graça; não faria sentido supor que alguém se pode tornar Santo sem, no mínimo, ser um homem. E supõe ademais uma transformação ainda mais íntima, mais interior, mais profunda e plena.
Partindo “apenas” do corpo, quanto mais um homem se abisma em vícios, em pecados, em autoenganos, mais se bestializa, mais se aproxima dos animais brutos, pois pouco age em conformidade com as capacidades próprias da sua humanidade; o uso que faz de sua liberdade é vergonhosamente ilusório, pois a suposta grande liberdade que possuem e usam com a finalidade de agir segundo suas paixões desordenadas é, em última análise, grilhões que impõe a si mesmo. O vicioso detém-se, então, em si mesmo e fica inerte no domínio do corpo, das paixões, dos prazeres carnais; em linguagem bíblica, ele fica preso à carne, ao mundo e ao Diabo. É interiormente escravo de si próprio e exteriormente escravo do mundo, que por sua vez é escravo de Satanás.
Mas não é exagero afirmar que alguém pode chegar a um estado tão degradado?
Não. Pensemos: se os animais tivessem livre-arbítrio e continuassem agindo como agem, dir-se-ia que eles são escravos de seus próprios instintos, que estão presos a algo. Ora, o homem é um animal racional, um animal capaz de amar, de apreender a verdade e de fazer um reto uso de sua liberdade; quando esta é corrompida pela submissão às paixões desordenadas – o que sucede aos animais em certo sentido –, ele torna-se semelhante a eles; torna-se, portanto, escravo de si mesmo, de algo. Não sendo senhor de si mesmo, paradoxalmente o homem vicioso acaba por ser escravo de si próprio; sendo escravo de si mesmo, e tendo livre-arbítrio, torna-se semelhante aos animais. Por conseguinte, um homem bestializado não pode ser Santo enquanto continue bestializado; há, nesse sentido, que tornar-se homem, pois a graça supõe a natureza.
Mas, quando um homem vicioso abandona sua vida de pecado e confessa seus pecados a um Sacerdote, de forma válida, legítima, seu coração permanece com as marcas da libertinagem a que ele se havia entregado no passado, embora se lhe tenha sido restituída a Graça divina. Esta então o irá conduzindo cada vez mais à união com Cristo, na medida em que o vai fazendo despojar-se de si mesmo e morrer para o homem velho, aquele homem que é mais besta que homem; aquele homem que é escravo de si mesmo. Neste processo, Deus não ignora nossa natureza; antes, vale-Se dela. Assim, Ele nos vai tornando homens em ordem à Santidade, não Santos em ordem à humanidade.
Faz-se necessário, portanto, esforçarmo-nos por passar pela porta estreita. Com paixões desordenadas arraigadas no nosso coração, podemos facilmente cair novamente no pecado; porém, há o auxílio da Graça divina, que nunca nos abandona. Ela há de ajudar-nos a fazer o movimento contrário ao comumente, embora não unicamente, próprio das paixões desordenadas, uma expansão ilícita; estreitando as paixões, tornar-nos-á cada vez menores, mais despojados de nós mesmos, a fim de passarmos pelo buraco da agulha. Deus não destruirá em nós as paixões, senão que, auxiliando-nos com a Sua Graça a contê-las em seu aspecto desordenado, auxiliar-nos-á a colocá-las a serviço Seu serviço. E, na medida em que isto se for realizando em nossas almas, as virtudes humanas, que se devem ordenar a um fim justo, ordenar-se-ão, informadas pela caridade teologal, a Cristo. Então já não serão virtudes puramente humanas, mas sobrenaturais.
No caminho para a Santidade, como dito acima, tornar-nos-emos homens, mas não homens como os que seríamos sem o estado de graça, isto é, homens virtuosos segundo a luz natural da razão, mas homens virtuosos segundo a luz sobrenatural da fé divina. Neste sentido, mesmo os que antes eram bestializados e que, por isso, ao se converter permanecem com as marcas ainda visíveis de sua vida de pecado passada já não são mais semelhantes às bestas, pois Deus não nos exige, para sermos salvos, virtudes consolidadas e Santidade ainda em vida, atuais, mas a ausência de pecado mortal atual, para o que basta ser dócil à Graça e ater-se aos meios e veículos dela que Deus nos concede; assim, não consentiremos em pecar mortalmente e, ao morrermos, mesmo com desordens interiores estaremos salvos. Isto explica por que um criminoso arrependido que se tenha confessado antes de morrer se salva eternamente.
(Convém dizer que, quanto mais um homem se bestializa, mais seu coração se torna sensível apenas às coisas mundanas e materiais consideradas sob a ótica de seus ímpetos passionais, portanto numa perspectiva de ausência de liberdade, o que nos indica uma desumanização. Nem mesmo as verdades passíveis de serem alcançadas pela só luz da razão se lhe tornam facilmente acessíveis, antes parecem obscuras e se vão tornando cada vez mais impenetráveis. Com olhos carnais não se podem ver verdades sublimes, mesmo aquelas da mera razão; e com olhos mais penetrantes, aqueles do homem naturalmente virtuoso, como um Aristóteles, é impossível, não obstante, chegar à contemplação de qualquer verdade sobrenatural. Donde se vê que, quanto menos homem se é, mais se está, por assim dizer na ordem do conhecimento, distante das verdades sobrenaturais, dos mistérios que Deus nos revelou.
Ora, se é assim, muito mais distante se fica de qualquer possibilidade de contemplar a face de Deus, embora, e nós o sabemos, isto só seja possível por uma iniciativa dEle próprio. Mas, supondo que devemos estar preparados para ver a face divina após a morte, Deus mesmo quer purificar-nos, pois Ele não infringe a ordem das coisas; seria algo totalmente despropositado e inconforme com a Sua Sabedoria que um homem cheio de desordens atuais e penas temporais não satisfeitas se tornasse capaz de ver Sua face pelo lumen gloriae imediatamente após uma morte em estado de graça).
Porém, todos nós somos chamados à Santidade ainda nesta vida e não seremos admitidos no Céu senão em estado atual de Santidade, isto é, como Santos autênticos, completamente transformados interiormente. Eis a ordem desejada por Deus, eis algo que não é simplesmente arbitrário, eis uma prova inegável da infinita magnanimidade de Deus e do poder infinito dos méritos de Cristo na Cruz.
Nos tempos do Antigo Testamento, cria-se que ninguém podia ver a face de Deus e permanecer vivo; não se pensava assim sem razão, aliás. Mesmo em estado de graça, ao morrermos sem sermos Santos e completamente desapegados ao pecado, não seríamos capazes de estar na presença de Deus sem sermos por assim dizer “aniquilados”; isto é, simplesmente não suportaríamos a presença divina se estivéssemos diante dela apegados ao pecado. Nossos olhos não suportam luzes excessivas; o Sol, por belo que seja, causa-lhes mais dano do que outra coisa quando contemplado diretamente.
III
Pois bem, o presente artigo começou falando de como os animais, se seguirem seus instintos, podem naturalmente realizar-se e tender à perfeição que lhes é própria, pois não possuem liberdade e, por isso, basta-lhes aqueles movimentos simplórios que, para um homem, seriam inadmissíveis.
Depois, vimos como cada ação presente tem um impacto conseqüencial no futuro a níveis individual e social: pode-se ilicitamente favorecer o desenvolvimento pessoal presente e imediato sacrificando-se uma realização futura; pode-se favorecer licitamente o desenvolvimento pessoal presente sacrificando-se certas benesses mundanas futuras; pode-se visar ao benefício próprio sacrificando-se um benefício social futuro, etc.. De qualquer forma, quanto ao homem o que importa é que a ação presente não seja pecaminosa, pois o futuro à Providência divina pertence.
Quando a ação presente, atual não é pecaminosa, mas justa e boa, ordenando-se ao fim sobrenatural do ser humano, suas conseqüências futuras se podem tornar, de algum modo, a despeito de possíveis aparentes catástrofes,instrumentos da Providência, e quem a pratica se aproxima do Paraíso e beneficia seus irmãos em Cristo, os membros do Corpo Místico do Senhor, a Santa Igreja. É sobretudo um impacto conseqüencial a nível sobrenatural, um influxo duradouro por todo o Corpo de Cristo.
Pelo contrário, sendo pecaminosa, a ação prejudica já, atualmente, quem a pratica e não só comportará, como também uma boa ação pode comportar, a dimensão de delineamentos históricos materialmente negativos como também prejudicará, de alguma forma, os demais batizados. Pois, assim como um ato virtuoso pode ajudar sobrenaturalmente inúmeros irmãos, um pecado pode prejudicar espiritualmente muitos irmãos. Quando queimamos uma parte de nosso corpo, o corpo inteiro se comove.
Por isso, temos que:
1) o pecado causa um dano imediato e duradouro na alma de quem o cometeu, implica uma espécie de ação ontologicamente negativa com respeito ao fim último do ser humano e à sua temporalidade, à quantidade limitada de seus atos e a impossibilidade de apagá-los da continuidade histórica de sua vida;
2) prejudicando aquele que o comete, o dano que a ele faz já é um prejuízo para a sociedade e, especialmente, para a Igreja, assim como um soldado que, em meio de uma guerra, se distraísse deliberadamente prejudicaria, em termos de habilidade conjunta, seus companheiros de batalha na medida em que houvesse certa desarmonia entre eles, etc.;
3) assim, prejudica a sociedade e a Igreja, o que equivale a uma espécie de efeito dominó, visto que o que se aplica a quem causa o dano também pode aplicar-se a quem o recebe, já que, se o recebe de forma por assim dizer deliberada, incorre no mesmo problema.
Ninguém está, evidentemente, predeterminado a pecar por causa do pecado de outrem, mas entende-se aqui o que se quer dizer.
Pois bem, os pecados veniais, embora leves, trazem sérios prejuízos, sobrenaturalmente falando, aos membros da Igreja e a quem os comete. É uma desordem, uma desarmonia que, por justiça, deve ser punida e devidamente sancionada. O dano que se causa a si mesmo, à sociedade e à Igreja não é algo de indiferente; quem peca conhece bem isso aliás. Sabe que, pecando, deixa em si marcas, tendências para o pecado. E a justiça exige, repito, que esse tipo de desordem seja sancionado e corrigido, punido.
Em ordem à Santidade, sem a qual ninguém pode ver a Deus, as manchas do pecado são como obstáculos sem cuja remoção não é possível a ninguém ser Santo. E, sem estar abrasado pela caridade divina, já sem obstáculos interiores, sem penas temporais a pagar, sem más inclinações a corrigir, não é possível amar puramente a Deus sem que se divida o coração dirigindo-o a vários objetos distintos. E Deus exige essa pureza, a Majestade e Santidade dEle exigem-na.
E o que ocorre, então, com quem morre sem se ter purificado de suas más inclinações, crescido fortemente no amor de caridade e se deixado levar pela moção do Espírito Santo, que nos santifica? Não pode ver a Deus; não está em estado de ver a Deus, sequer suportaria vê-lo. E, como vimos, a Santidade supõe uma transformação interior profundíssima realizada pela Graça, não é qualquer coisa de exterior, uma simples atribuição de qualidade arbitrária a uma criatura; é uma união real e íntima com o Criador onipotente. E isto se se morre em graça…
É preciso, então, que haja um meio, uma aplicação post-mortem dos méritos infinitos de Cristo que permita ao pecador salvo – justificado, justo pois – expiar seus pecados, a pena temporal devida por eles, e desarreigar de seu coração o apego desordenado pelas criaturas, a saber, aquela inclinação ao pecado, conseqüência aliás de concessões ao pecado – reliquiae peccati. Por meio da aceitação completa e submissa dos sofrimentos que se lhe advierem pela Justiça de Deus, a alma então irá se preparando para ver a face de Deus, será purificada pelo fogo.
Desde tempos antiquíssimos, a Igreja intercede pelas almas dos falecidos, os parentes destes fazem orações, jejuns, etc.. Missas são celebradas pelo sufrágio destas almas. Eis a solidariedade conjunta do Corpo Místico de Cristo, dado que são efetivos os resultados que se obtêm com tais obras pelas almas do Purgatório, que nada podem fazer mais por si mesmas.
“Se alguém disser que, para todo pecador penitente que recebeu a graça da justificação, a ofensa é de tal modo remida e a obrigação à pena eterna, de tal modo apagada, que não lhe resta nenhuma obrigação de pena temporária para pagar, seja neste mundo ou no outro, no Purgatório, antes de poder entrar no Céu, que seja anátema”.[1]
Precisamos, pois, rogar pelas almas dos falecidos, o que poderá ter por conseqüência mais breve admissão no Paraíso para eles; e então de lá hão de interceder por nós. Pois o arco consequencial da existência humana sob o Sol não é arbitrário e absolutamente independente; a Providência jamais deixa de fitar nele seus olhos paternais. Nada nem ninguém estragarão os desígnios do Criador; não queiramos nós opor-nos, aqueles que não somos, Àquele que é.


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