Por que te inquietas, ó minha alma?

Por que te inquietas, ó minha alma? Eis uma pergunta que ecoa pelos milênios. Além disso, por que a inquietude se nos aparece como um mal? É porque reconhecemos a necessidade absoluta de um centro, de uma estabilidade, de uma permanência na firmeza da paz interior, da quietude passional? É porque este reconhecimento não é senão a apreensão consciente de um traço, de uma necessidade permanente da natureza humana?

“Por que te deprimes, ó minha alma, e te inquietas dentro de mim?”, pergunta o salmista.

São Francisco de Sales, para quem a inquietação era um enorme mal, tanto em si como por seus efeitos funestos, dizia que a perturbação interior de uma alma é semelhante aos conflitos internos de uma cidade, que a enfraquecem em vários sentidos, tanto em sua manutenção interna no que tange às relações de seus habitantes entre eles como em sua defesa: uma cidade fragmentada desde dentro é presa mais indefesa para seus inimigos.

Ora, quanto mais interno é nosso inimigo, mais perigoso ele é. Tanto maior é o mal que ele nos pode fazer, maior é o risco que temos se somos por ele capturados, maior é o perigo de sua presença. O Inferno é conseqüência do pecado do homem, que se afasta deliberadamente de Deus, de Sua Graça, de Seu Amor, a fim de servir a si próprio; portanto, o pecado é um mal de proporções incomensuráveis, de tal maneira que não há pior desgraça que possa suceder ao homem do que pecar, pois o Inferno, que é a desgraça por excelência para o homem, decorre precisamente do pecado. Quem pode causar tais danos ao homem senão ele próprio? Assim, o maior inimigo de um homem é ele mesmo. Quanto mais dá espaço, pois, a si mesmo, mais ele se permite pecar e agir como seu inimigo, afastando-se de si mesmo num paradoxal serviço de si, num funesto amor excessivo por si mesmo, um amor cujo resultado é o ódio final de si no Inferno.

Portanto, a inquietação enfraquece o homem desde dentro, de forma que o homem, que peca desde dentro, encontra sua interioridade cada vez mais enfraquecida e, portanto, vê a si mesmo mais forte, isto é, seu ego mais poderoso, mais dominador (e escravizado, diga-se de passagem). Ele torna-se mais perigoso para si próprio, portanto; abre espaço exagerado para si, mas não termina nisso: também abre espaço para o mundo e o demônio.

Mas verifiquemos um pouco em que consiste a inquietação.

Reconhecemos que, quando estamos inquietos, em nosso coração há uma agitação estranha, um fervor aparente e danoso, e a consequência disso é uma movimentação constante quanto à freqüência das moções percebidas, mas inconstante quanto ao resultado delas; pois esta espécie de moção tende sempre a fragmentar-se e a contrariar as que lhe são mais ou menos semelhantes.

Inquietar-se é ser movido por paixões que nos inclinam em vários sentidos diferentes. Essa movimentação tem sempre um caráter expansivo; por conseguinte, causa uma dissolução interior.

É facilmente verificável que uma das conseqüências de dar atenção a eventuais dúvidas que se nos apresentam e que, por sua complexidade, parecem insolúveis, pelo menos em dados momentos, é precisamente a angústia, a ansiedade, a aflição. Ora, na dúvida nossa atenção é impelida para uma de suas asserções possíveis; se ambas parecem verdadeiras, ou se o conjunto é sobremaneira complexo, o coração começa a inquietar-se e a cansar-se, perdido, sem encontrar uma saída para o problema.

Inquietos, saímos do centro de nosso ser, como se estivéssemos em uma dúvida constante; porém, as paixões movem-nos freqüentemente a objetos para cuja posse, por exemplo, é-nos necessário um ato operativo, um direcionamento de nossas faculdades de ação; conferem, pois, à nossa vida uma forma, um delineamento característico ao da dúvida intelectual propriamente dita, sendo que esta adquire por sua vez um caráter mais pragmático. Do centro de nosso ser afastamo-nos, dizia agora há pouco; isto é, do lugar de onde podemos vislumbrar nossas ações segundo seu propósito próprio e sua medida devida em cada circunstância, em cada momento – deste centro nós nos distanciamos, donde: trevas quanto à lembrança do passado; incerteza quanto à vida presente; dificuldade de projetar serenamente o futuro.

Nota-se facilmente, então, uma das causas da ansiedade, por exemplo: de fato, o presente só pode ser vivido de forma tranqüila e sábia a partir deste núcleo autoconsciente; nele é que pode habitar a paz.

Inquietos, ficamos à deriva do mar, perdidos, em meio às ondas conflitantes de um oceano tempestuoso; somos lançados à periferia de nosso ser, caímos sobre nós mesmos e somos por nós mesmos esmagados; agimos, mas não nos reconhecemos em nossas ações; elas se tornam automatizadas, sem sentido, sem direção.

E por que isso? Porque a alegria e a paz que nascem da ação moral reta, do cumprimento do dever, das obras feitas conscientemente, com genuína liberdade interior, só são possíveis na medida em que cada um destes atos seja realizado ordenadamente, no momento presente, segundo sua ordem no conjunto de nossas vidas. Em outras palavras, a alegria nasce da atitude existencial interior consecutiva à razão: quando nós agimos de maneira inquieta e desordenada, somos mais movidos por paixões conflitantes do que pela razão; portanto, não há alegria propriamente racional em tal conduta, apenas deleite animal, se o agir passional deságua na libertinagem pura e simples.

É próprio dos seres racionais o agir ordenadamente com vista a um fim específico. E são próprias dos seres irracionais ações que são realizadas sem clara consciência de finalidade. A ausência ou a diminuição da consciência e da paz, da ordem, tem por resultado o afastamento da razão no conjunto das ações diárias; novamente, apartadas do sentido e da razão que fundamenta existencialmente no coração do homem o vislumbre do logos profundo de suas vidas, não há alegria (gaudium), mas, novamente, frustração interior, fastio vital, insatisfação biográfica, vislumbre de um túnel sombrio e desesperador.

Pelo contrário, inúmeras são as vantagens da quietação das paixões, do silêncio interior, que é resultado mais ou menos evidente daquela, pelo menos na medida em que o aquietar passional impelido pela ascese ordenada por exemplo se apresenta a título de causa instrumental ou meio fundamental da paz do coração, que é sobretudo interior, que é obra da Graça divina.

Por que não te quietas, ó minha alma? Ou seja, por que razão não te tornas dócil à ação da Graça? Dizia Jó que “não há paz quando se resiste a Deus“.

Assim, inquietar-se também adquire esta faceta tenebrosa: o ato de resistir a Deus na medida em que a Graça, que supõe a natureza, precisa de um coração cujo íntimo esteja permeado do mínimo de silêncio interior que a ação divina espera para realizar Sua obra. O Espírito Santo sopra suavemente nas almas, fala-lhes com docilidade e no íntimo dos corações; Ele não se impõe à nossa revelia: a ação de Seu fogo purificador na transformação das nossas almas é sempre conseqüência do Seu calor amoroso e pacífico no sopro tranqüilo naqueles que lhe são dóceis. Ora, esta docilidade das almas já é efeito da Graça.

É válido, portanto, dizer que inquietar-se é uma forma de resistência a Deus, à Sua divina ação em nossas almas.

E quando, porém, acolhemos o chamado divino: em que medida o inquietar-se é, nesse caso, resistir a Deus? Na medida em que a inquietação consentida, deliberada, é sempre fruto do pecado, da carne, do mundo ou do demônio; nunca do espírito (pneuma), do organismo espiritual. Neste organismo, a inquietação aparece como um vírus funesto que busca dissolver o efeito unificador e sobrenatural das moções de Deus em nossas almas. Este vírus, esta moção carnal, desordenada, só tem efeito maléfico contra o organismo espiritual na medida em que, livres como somos, permitimo-nos ser levados por nossa vontade e não pela Vontade de Deus. Pois temos de novamente recordar que Deus não Se impõe à força às Suas criaturas: Ele espera que lhe sejamos dóceis e tenros, como crianças pequeninas que, sem tirar soltar as mãos das de seus pais, se deixam conduzir por eles.

Pois bem, é muito fácil escutar a voz das paixões: estas se impõem várias vezes à nossa revelia e, além disso, fazem barulho excessivo. Ora, quanto mais um movimento é carnal, quanto mais ele está imbuído daquilo que no homem é inferior e mesquinho, mais fácil é de ser percebido, mais barulho faz, mais move com violência as nossas faculdades, buscando submetê-las a seu jugo insuportável.

Porém, na medida em que se vai elevando ao plano da razão, o homem passa a adentrar num reino de silêncio interior que há em si mesmo, cujo vislumbre de seus caracteres e das fragrâncias suaves de sua paz exige quietação e atenção. Ora, não se percebe facilmente que verdade sempre aparece de forma confusa e obscura para o homem cuja interioridade é, para suas paixões, qual um palácio onde elas podem exercer livremente um reinado absoluto?

Depois do apaziguamento do coração, a luz da verdade começa então a iluminar com mais eficácia os olhos doentes do homem outrora vicioso e atormentado por sua falta de unidade interior.

Mas nós não nos limitamos, por assim dizer, a nós mesmos. Nossa vocação não se reduz ao plano natural de nosso ser; tampouco se reduz a nós mesmos, isoladamente. Nós temos, além do que conseguimos enxergar com a luz natural da razão, um organismo espiritual, sobrenatural, profundo, cujo coração se assemelha ao lugar onde o rei de uma nação, sentado em seu trono, exerce seu poder.

Se é custoso perceber os matizes das verdades alcançáveis pela luz natural da razão, sem o concurso da paz interior, mesmo quando conquistada da maneira como se adquirem virtudes humanas, mais ainda o é ouvir a voz de Cristo, que nos fala interiormente, que quer que nós nos unamos a Ele pelo amor. E Cristo é o coração de nosso coração, o rei de nossas almas. É Ele quem está sentado no trono, no interior mais íntimo de nosso espírito.

Mas como nós nos podemos unir a Ele quando em nosso coração há um amontoado de lixo passional, de distrações e de amores desordenados? Seria como um esposo que se quer unir à amada, amá-la mais, conhecê-la mais profundamente, porém que depara com uma série de obstáculos interiores e exteriores que impedem que ele ouça a sua voz, o que ela lhe tem a dizer, que ele veja a sua beleza, sinta a fragrância de seus perfumes, etc. . Esse esposo até pode ter um desejo genuíno de unir-se mais à sua esposa, mas há outros desejos (portanto, outras moções), e, se ele se permite mover por estes, cada vez mais seu coração ficará fragmentado, seu amor, diminuído, e a união com sua esposa, dificultada por entraves diversos.

Há, pois, que removê-los. Deus é silencioso; as labaredas de Seu amor infinito ardem sem fazer barulho; pela eternidade ecoa o sopro uníssono de Sua paz.  O fogo do amor divino não é expansivo no sentido em que o são as paixões: é uma dilatação pacífica do coração a Deus, na qual o coração mantém-se firme numa unidade com o Amado; tal coração encontra sua força na paz do Coração de Cristo; esta concórdia então dá ao homem unido a Cristo uma vontade submissa à Vontade divina; suas faculdades operativas estão, pois, sob o cetro de Deus. Tal homem não se permitirá agitar pelas tolices do mundo.

Assim, se nosso coração estiver unido ao de Cristo, encontraremos a paz, porque o Amado nos poderá falar sem os entraves de nossas paixões; mas só podemos encontrar o Coração de Cristo no mais recôndito mais íntimo nossa alma, onde Ele nos chama para amá-lO e ouvir o que Ele tem a dizer-nos. Afinal, a oração, dizia o falecido Arcebispo Fulton Sheen, é um diálogo: devemos nela esperar uma resposta da parte de Deus, mas esta resposta nunca transgride a quietude do som do silêncio. Se alguém nos fala algo, só o escutaremos na medida em que nossa atenção estiver voltada às suas palavras; se ela estiver detida em outros objetos, ou a compreensão das palavras que nos são ditas é diminuída, ou simplesmente se torna impossível.

Uma imagem pode esclarecer o que acabei de dizer. Imagine-se que nossa alma é como uma casa de três andares. No aposento mais profundo e íntimo de nós mesmos, reinam o silêncio e a quietude. Quanto mais nos distanciamos dele, mais nos aproximamos da periferia de nosso ser, onde radicam as paixões desordenadas, o barulho, a ausência de sentido vital pela distorção dos valores, uma tendência à animalização, a perda da autoconsciência da própria dignidade humana, de quem se é, etc..

Neste exemplo, um homem que, a despeito de seu desejo de mudar de vida, com freqüência cede a impulsos passionais desordenados estará sempre buscando adentrar nesse recôndito profundo de sua alma; ao mesmo tempo, porém, não deixará de ser arrastado para a periferia de seu ser; seu coração encontra-se, pois, num conflito interior, numa fragmentação quiçá não consentida, mas que existe e que pode ter sido causada – e muito provavelmente o foi – pelas concessões feitas às moções desordenadas.

Mas percebe-se, nesse caso, como as paixões, como a periferia de nosso ser faz-nos escravos dela: percebendo o valor inestimável da paz, da união com Cristo, do silêncio agraciado por Deus, o homem busca-o, deseja-o ardentemente, porém as marcas que seus pecados deixaram em seu coração o tornam, por assim dizer, menos livre, embora ele sempre possa manter-se firme, com o auxílio da Graça, na mesma resolução ordenada e correta de unir-se a Deus.

Quando um coração se diz satisfeito com a periferia de seu ser, é porque as paixões já o tornaram seu escravo, de forma que, insensível por consenti-las, já não percebe o abismo em que se encontra; aí pode, então, encontrar-se a falsa paz. Freqüentemente, de fato, o autoengano ou uma vida assaz libertina confere uma paz falsa: quando as paixões não são contrariadas, por exemplo, a despeito de sua desordem, pode ainda assim não haver uma inquietação visível, sensivelmente perceptível; metafisicamente, dir-se-ia que a há, embora se creia que, pelo suposto repouso no deleite contínuo que resulta de consentimentos ilícitos habituais, está tudo bem, que uma satisfação mais ou menos ontológica ou profunda foi alcançada.

Desta forma, a inquietude, em um sentido lato, não se reduz a movimentos sensíveis de perturbação e de ansiedade por exemplo, mas sobretudo a uma cisão interior consciente ou inconsciente, uma dissolução do ser racional em sua própria base, uma violência feita à própria natureza, uma desordem profunda cuja causa principal é tornar o coração do homem que assim se engana a si mesmo semelhante ao Inferno; é, pois, algo de caráter existencial.

Se a inquietude se reduzisse a movimentações hormonais por exemplo, os demônios não estariam inquietos no Inferno; porém, há alma condenada que não reflita em seu rosto desesperado a mais horrível e evidente das inquietações?

Peçamos, então, a Deus a paz, o silêncio interior, a unidade operativa, biográfica, nEle, por Ele e com Ele.

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