O Paraíso é tedioso?

Na inteligência, não há conhecimento intelectual sem que tenha sido obtido, primeiro, pelos sentidos um conhecimento inferior (sensível), de forma a ter o homem capaz de conhecer racionalmente percorrido, naturalmente, o processo ascendente do conhecer humano. Os dados que obtemos pelos sentidos são, de fato, a forma que o homem tem de apreender realidades que os transcendem; contudo, ao apreendê-las, não deixa de estar de certo modo submetido à matéria sensível que permanece em suas potências internas ligadas ao cérebro por exemplo.

Em outras palavras, para conhecermos racionalmente algo, o processo é ascendente: primeiro, precisamos dos dados dos sentidos para, depois, elevar-nos a níveis maiores de abstração, até chegarmos ao conceito abstrato das coisas e não à sua mera imagem.

Com efeito, ninguém vê o que apreendeu intelectivamente das realidades que viu sensivelmente, porque as viu com um órgão sensorial, e a apreensão das notas essenciais do objeto visto não é sensível; por isso, não podem ser visualizadas da mesmo forma como visualizamos, com nossa imaginação, belos cenários da natureza por exemplo; destes abstraímos a beleza, a verdade, etc., que não são necessariamente realidades materiais.

Ora, isso explica, em parte, o porquê da dificuldade que temos de conceber o Paraíso como indescritivelmente melhor que a felicidade terrena e superior a ela: empenhando-nos em imaginá-lo, enquadramo-lo numa categoria que não lhe pode ser aplicada, a das imagens. Ademais, mais difícil seria tentar imaginar o Paraíso como algo bom e sumamente desejável quando se tem uma imaginação viciada, obscurecida, que pode facilmente ter a inclinação de aplicar ao Paraíso celeste imagens de tédio ou de realidades que, sensivelmente, são cansativas, fastidiosas, em caso de se estenderem; até mesmo as cores que aplicamos ao local imaginado, enfim todos os caracteres com que o adornamos e desenhamos imaginativamente acabam por fazer dele uma espécie de bem parcial pouco desejável, em face dos bens terrenos, aparentemente mais apetecíveis, e que movem com maior facilidade o homem.

Essa visão está completamente errada. Se falamos da felicidade terrena, de beleza terrena, falamos de bens parciais e temporais, fadados à corrupção; conquanto sejam parciais, é verdade, saciam o homem nalguma medida, o qual acaba por querê-los novamente. Contudo, a posse desses bens leva o homem a ansiar por outros quiçá maiores; assim, nasce uma espécie de expectativa por bens maiores, o que já é algo particularmente prazeroso ao ser humano.

No Paraíso, entretanto, parece, nesse sentido, que o homem se estagna completamente num bem que, não sendo o que ele esperava que fosse, é causa de frustração, sobretudo por não haver outras expectativas futuras. Estamos tão presos ao mundo que pode suceder de não percebermos que é ridículo conceber um Céu assim, como outro mundo semelhante a este onde vivemos, mas com algumas poucas diferenças aqui e acolá. É por isso que não é aconselhável imaginar como é a herança dos justos no post-mortem, porque é impossível que a imaginação se aproxime daquilo que nem a inteligência humana, por si mesma, é capaz de alcançar.

No Céu não há ausências, no sentido de que os bens terrenos, de certo modo inexistentes lá, causariam uma espécie de vazio no homem. Pelo contrário, são os bens desta terra que nos causam frustração por sua fugacidade e fragilidade, em razão de estarem sujeitos à corrupção, por não estarem à nossa disposição como desejaríamos que estivessem, por serem parciais, etc. etc.. Não é razoável preencher o Paraíso com os bens miseráveis deste mundo; em contraste, é assaz necessário e conveniente preencher nossa miséria neste mundo com vislumbres esperançosos da felicidade celeste, fora de cuja esperança tudo perderia o sentido, de forma que nos seria inevitável cair no mais desesperador mar de aflições.

O Paraíso é o onde o homem pode encontrar a felicidade plena, o saciamento completo e permanente de seus anseios mais profundos; isso se pode comparar, ainda que imperfeitamente, a sentir-se uma sede inesgotável que, não obstante, ininterruptamente é saciada por uma fonte infinita de água fresca e cristalina, saciamento esse em que não há nem ansiedade, nem ausência de um bem (por exemplo, a água que falta para o saciamento total do indivíduo sedento), porquanto a sede e seu saciamento são, nesse sentido, como simultâneos, como se fossem unidas as alegrias de começar a tomar a água e de possuir a plenitude de estar satisfeito. Não há nenhum bem terreno que proporciona simultaneamente a alegria que é saciar um desejo que precede o ato de saciá-lo e a plenitude de estar e ser satisfeito. Tudo ao mesmo tempo e em plenitude.

Mas, como se trata apenas de um exemplo, devemos elucidar que no Céu não haverá mais desejos, no sentido de ausência e de necessidades contínuas, por um certo vazio interior, senão que estaremos plenamente saciados com a visão de Deus.

Como se pode ver, não há no Paraíso sombra de frustração. A posse do bem é plena, inesgotável e inabalável. Não há tristeza, nem ansiedade, nem espera pela posse de outros bens de que se é capaz de usufruir da forma como sucede nesta vida.

Resposta

  1. Avatar de Nostalgia da eternidade e o instante presente | Lux Aeterna

    […] concluir e fazer jus à intenção de fazer deste texto uma continuação do breve artigo O Paraíso é tedioso?, recordemos a memorável definição que deu Boécio da eternidade: a posse total, perfeita e […]

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